
Depois de Rastilho (2020), elogiado por carregar a assinatura autoral de Kiko Dinucci no violão, o paulistano se volta novamente para as guitarras com Medusa. O novo disco, assim como os demais projetos solo do artista, desafia qualquer classificação: tem um pouco de noise, mas é um noise à brasileira, um noise-brega; tem também samba, mas com distorção; tem música para ficar cantarolando na cabeça e música que parece um thriller. Talvez, tenha muito também de exugaze — esse shoegaze de raízes brasileiras, a forma como o próprio Kiko classifica sua música.
Em Medusa, guitarra e voz são os guias — mas é uma guitarra com distorção, em uma música que ora galopa, ora arrasta, ora geme. No projeto, somam a Kiko parceiros de longa data, como Juçara Marçal e Rômulo Fróes, e artistas como Maria Beraldo, Crystal Duarte (do Vera Fischer Era Clubber), Sophia Chablau, Negro Leo, Luas Pires, Arthur de Faria, Gustavo Infante, Cadu Tenório, Podeserdesligado, entre outros.
Entre as parcerias inéditas, duas se destacam: Maria Beraldo canta sozinha em “Cascuda”, uma espécie de declaração de amor pelas entranhas, enquanto Crystal Duarte imprime sua personalidade punk-spoken word em “Loira Palmer”. Na faixa, a voz de Kiko aparece em paralelo, quase delicada perto da presença impositiva de Crystal. O resultado é uma música sexy e crua na mesma medida, claramente inspirada pelo universo de David Lynch.
Kiko conta que já acompanhava o trabalho de Crystal no Vera Fischer Era Clubber e já queria fazer uma parceria com ela. A aproximação começou, veja só, justamente depois de uma postagem sobre Twin Peaks: “Um dia ela tinha postado alguma coisa que tinha a ver com a série e eu respondi: 'Loira Palmer' [em referência à personagem Laura Palmer]. E ela respondeu: 'Sou Eu'. Daí, começamos a escrever a canção”.
Com Beraldo, o processo foi diferente. Kiko enviou a canção para que ela completasse. “Acompanho a carreira dela faz anos, acho uma artista excepcional. Criamos a história de uma pessoa durona que amolece só na hora do sexo e depois volta a ser cascuda. É uma das faixas em que mais aparecem bichos como metáfora”, conta.
Outra que vale a menção é “Cláudia, Frota e Eu”, com Negro Leo, um aceno claro a "Madonna, Sean and Me”, do Sonic Youth, mas citando o famoso-improvável casal de atores brasileiros nos anos 80. Igualmente crua e explosiva.

Roberto Carlos encontra My Bloody Valentine
Mas é “Como Foi?”, com letra de Rômulo Fróes, que toma para si os holofotes. A faixa faz referência a Roberto Carlos na harmonia e na letra, mas ganha uma camada de distorção, como se alguém tivesse batido no liquidificador o Rei da jovem guarda com My Bloody Valentine. É o noise-brega, ou ultrarromântico — e o título ainda brinca com “Foi Assim”, de Lupicínio Rodrigues.
“Eu queria que o disco terminasse com uma canção que fosse muito a cara do Roberto Carlos”, conta Kiko. A composição começou com Rômulo Fróes e, depois de finalizada, tomou um rumo inesperado, como se fazem algumas boas canções. Kiko enviou uma gravação feita no celular, com a guitarra desligada. “Achei tão verdadeira essa gravação caseira que resolvi assumi-la desse jeito. Mandei para o Luas Pires processar na fita, e ele transformou a faixa. Depois, o Arthur de Faria botou umas cordas.”
O resultado, segundo Kiko, mistura “nostalgia com alucinação e derretimento”. Talvez seja uma boa síntese para Medusa, um disco que ele próprio chama de "estranho": “Pela forma como as combinações acontecem”.
“Como Foi?” também ganhou um clipe gravado em Super 8, dirigido pelo próprio Kiko em parceria com Mariana Metri. Nele, o músico contracena com Roberto Carlos do Bixiga, famoso personagem da cena paulistana. A cidade é, mais uma vez, parte fundamental da obra.
O videoclipe foi gravado no centro de São Paulo, cidade que aparece como tema e inspiração constante nos trabalhos de Kiko — seja no Metá-Metá, no Passo Torto ou nos filmes que dirigiu e criou, como Breve em Nenhum Cinema (2015). Em Medusa, não seria diferente. São Paulo aparece logo nos primeiros versos, em "Cão Perdido": "correndo na cidade grande/onde todas as ruas são iguais/ nas esquinas, estranhos caminhos/ sem destino, paradeiro e paz".
“O grande amor que abordo no disco é por São Paulo, com tudo de bom e péssimo que pode vir nessa relação. Talvez não fosse possível fazer esse disco em outra cidade. Tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade. São Paulo aparece em todos os meus discos, não tenho como me desvincular”, diz.
E é justamente em São Paulo que Medusa ganha seu primeiro palco: Kiko Dinucci apresenta o álbum pela primeira vez no Sesc Pompeia neste final de semana, nos dias 26 e 27 de setembro, com sua guitarra acompanhada pelos samples e fitas de Podeserdesligado.
Antes de terminar a conversa, comento com Kiko alguns dos rótulos musicais que a imprensa deu ao disco e pergunto qual deles mais gostou. Ele prefere ficar com o nome que ele mesmo criou, “exugaze”, que ele fez meio em tom de deboche para classificar um som que só poderia mesmo ser feito aqui.
“Eu acredito no potencial antropofágico do brasileiro. Mutantes imitando os Beatles, Racionais imitando o Public Enemy, acabaram criando coisas originais. Eu seria incapaz de emular o som do My Bloody Valentine fielmente. Acho exugaze perfeito, porque propõe uma brasilidade, um molejo, um veneno, uma malícia, um ritmo sincopado, a perna torta do Garrincha. Exu pode ser tudo. É aquele que tá no topo da montanha e no vale ao mesmo tempo. Um europeu jamais saberá o que é isso.”
Kiko Dinucci – Lançamento do álbum Medusa
26 de setembro (sábado), às 20h
27 de setembro (domingo), às 18h
Teatro do Sesc Pompeia — Rua Clélia, 93, Água Branca, São Paulo (SP)
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos
Ingressos: R$ 18 (Credencial Plena) | R$ 30 (meia-entrada) | R$ 60 (inteira)
Vendas: ingressos disponíveis no Portal Sesc SP e nas bilheterias físicas das unidades do Sesc.



