
Nesta quinta, 17/09, Marina Lima completa 71 anos! Em comemoração ao aniversário da artista, relembramos um episódio que envolve um de seus trabalhos mais emblemáticos: o álbum Fullgás (1984).
Quem coloca pra tocar “Mais Uma Vez”, faixa eternizada por Marina Lima neste disco, com ouvidos atentos, percebe que há algo faltando. Um detalhe a partir do segundo minuto da música causa estranheza; um silêncio, como se a canção fosse interrompida. No visualizer da canção no Youtube, com o áudio captado por meio do vinil, percebemos que uma palavra pode ter sido censurada.
A confirmação vem no encarte do disco: o verso termina em reticências com a explicação para o corte abrupto: “palavra censurada pela ditadura”. A palavra em questão é “tesão”.
Escrita por Nelson Motta e Lulu Santos, a canção fala sobre uma desilusão amorosa, como muitas outras da artista e do cancioneiro pop em geral. Apesar disso, a palavra considerada "imoral" gerou incômodo nos censores.
Em defesa da moral e dos bons costumes
Renato Gonçalves, pesquisador de música popular brasileira e autor do livro Marina Lima: Fullgás (Ed. Cobogó, 2022), explica que a faixa foi gravada dessa forma, com o corte abrupto, porque o veto aconteceu depois da gravação. Por isso, a fita precisou ser cortada. Segundo ele, o veto se deu porque qualquer conteúdo que pudesse ser interpretado como um ataque à moral e aos bons costumes era proibido.
“Houve um corte mesmo no fonograma, não é um silenciamento depois da música já gravada. Ela cantou, só que na hora da masterização, do processo para prensagem do disco, essa palavra foi suprimida. Isso é realmente muito arbitrário .”
Vale lembrar que mulheres eram mais visadas por esses “ataques à moral”: a roqueira Rita Lee foi uma das artistas mais censuradas durante o período ditatorial. As canções da artista, que falavam de prazer feminino, eram vistas pelos censores como subversivas, por exemplo.
Além disso, o pesquisador lembra que a censura não seguia um manual: o processo dependia única e exclusivamente do censor que analisava a obra no momento. Foi numa dessas que proibiram o “tesão”.
“Desde o início, sobretudo com a instituição do AI-5, os aparelhos de censura recrudesceram e fecharam o cerco aos artistas. Muita gente acha que apenas expressões políticas contra o governo militar eram censuradas, mas não: grande parte da censura recaía sobre manifestações consideradas contrárias à moral e aos bons costumes.”
Renato pensa na possibilidade da censura em questão ser uma espécie de represália a outras mensagens políticas que estão incluídas no disco. “Há discursos ali que também são políticos e que não foram censurados. Então, é como se fosse um toque do tipo ‘estamos de olho,’ porque o Fullgás é um disco político,” explica.
Apesar da canção ter sido gravada após a Lei da Anistia, de 1979, a mudança de mentalidade não aconteceu com a mesma velocidade e ainda ficaram “alguns entulhos”, como classifica o pesquisador, tentando preservar a mentalidade repressiva.
“Marina e [Antonio] Cícero representavam a juventude, que era o oposto a esse ranço da ditadura militar. Então, eu acho que recaia mais em relação ao que essa geração jovem representava naquele momento, que era a mudança.”
A primeira censura
O caso de “Mais Uma Vez” não foi o primeiro que colocou a artista no alvo de censores, relembra Renato. “A estreia da Marina e do Cícero foi adiada por causa da censura. É uma música chamada ‘Alma Caiada’, de 1975, que [Maria] Bethânia chegou a gravar, mas foi censurada.”
O motivo foram os versos “Mas, às vezes, pressinto/Que eu não me enquadro na lei.” Apesar da versão da baiana não ter visto a luz do dia, alguns anos mais tarde, a canção entrou no álbum Pedaço de Mim (1979), de Zizi Possi.
Tesão resgatado
Questionado sobre o motivo de Marina não ter regravado a faixa posteriormente, com a inclusão da palavra proibida anos antes, Renato argumenta que pode ter sido apenas por falta de oportunidade.
A artista, no entanto, revisitou o álbum 42 anos após seu lançamento na apresentação que fez recentemente no festival C6 no Rock, em São Paulo. No show, a cantora passou por todas as faixas de Fullgás. Dessa vez, sem deixar o “tesão” de lado.




