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Nenny, que canta com Marina Sena, e a nova geração afro-lusófona da música


Por:

Luan Gomes

Fotos: Divulgação

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É simbólico que, em Coisas Naturais, Marina Sena escolha dividir o microfone com Nenny na faixa “TOKITÔ”. Marlene Tavares, a Nenny, é mais do que uma jovem sensação: é síntese de uma história de travessias, de ausências e reconstruções. A artista luso-cabo-verdiana, nascida nos arredores de Lisboa e criada entre Portugal, França e Luxemburgo, representa, com sua música híbrida e destemida, o novo rosto da geração Z afro-diaspórica que canta em português para o mundo.

A trajetória de Nenny, que começou a escrever letras sobre racismo aos dez anos e, pouco depois, conquistou milhões de plays com “Sushi” e “Bússola”, é apenas a porta de entrada de um fenômeno cultural mais amplo. Um movimento que não é só musical, mas também histórico, social e profundamente identitário. 

A cena atual de artistas afro-lusófonos Gen Z carrega, como destacou Eddie Pipocas, fundador da plataforma Bantumen, "a vaidade e o poder do homem e da mulher negros" – ainda que, como ele lembra, “não sejamos nós a comandar”​. Eddie é angolano criado em Portugal e decidiu criar seu próprio veículo ao lado de Vanessa Sanches, após fazer parte da redação do portal português SAPO e perceber que a identidade cultural dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) não era devidamente valorizada. 

Do hip-hop tuga ao burburinho global

Para entender a potência dessa nova geração, é necessário olhar para trás. O hip-hop português, ou hip-hop tuga, começou a se afirmar no final dos anos 1980, impulsionado pela comunidade de Miratejo, um bairro do sul de Lisboa, e por programas de rádio dedicados ao estilo musical. Com a explosão de coletivos como Black Company e Da Weasel nos anos 90, a capital portuguesa viu nascer uma cena musical onde os ritmos africanos, as experiências suburbanas e denúncias sociais encontraram eco.

No entanto, nenhum movimento tenha representado tão visceralmente o entrelaçamento entre África e Portugal quanto o coletivo Buraka Som Sistema. Em meados dos anos 2000, Kalaf Epalanga, Branko e companhia inventaram o "kuduro progressivo", uma implosão de beats eletrônicos e heranças africanas que projetou Lisboa ao circuito global da dance music. Como escreveu o jornalista português Rui Miguel Abreu, “o Buraka mostra força a partir das diferenças”​.

Hoje, os frutos dessa perspectiva florescem em uma geração que já nasceu conectada (física e virtualmente) com múltiplas Áfricas. Buruntuma, Negrinho OG, Soraia Ramos, Carel Baptista, Cíntia e Yasmine são alguns dos nomes que compõem esse novo mosaico sonoro que pulsa entre o afrobeat, o hip hop, o afro house, zouk, o R&B e o Pop.

Nova Lisboa? Sim, mas também com novas margens

O conceito de uma metrópole mais plural ultrapassa a superfície de uma cidade multicultural e vibrante. Como explicou Kalaf Epalanga, em entrevista à jornalista Margarida Valença para o portal Comunidade Cultura e Arte, a expressão ganhou popularidade após a canção “Nova Lisboa”, escrita por ele e interpretada por Dino D’Santiago. 

Para Kalaf, a "nova" Lisboa é, na verdade, continuidade, uma presença africana antiga, viva desde tempos coloniais, e não uma novidade criada pelo boom turístico. “É estranho falar disso porque estou no centro do furacão”, disse Kalaf, enfatizando que a “Nova Lisboa” é fruto de processos históricos mais longos do que a efervescência recente da cidade.

Esse controverso entendimento da diversidade “atual” da capital (e sociedade) portuguesa, ao mesmo tempo que apaga iniciativas mais comunitárias, coloca os holofotes em grandes projetos. Desses, o que mais se destaca é o gigante Afro Nation que acontece na cidade de Portimão. Apesar de importante, o evento não é necessariamente um espaço dedicado à lusofonia. Na verdade, para a edição de 2025, dos nomes anunciados, a cantora Rosini é a única atração com ligação direta com os PALOP, e suas músicas são cantadas em francês. 

Se a ebulição cultural lusófona afro-diaspórica não aparece diretamente nos grandes festivais, o circuito independente tem aflorado. Em 2025, Lisboa sediará a primeira edição do Festival Morabeza LX, uma celebração vibrante da cultura cabo-verdiana através da música, literatura, cinema e gastronomia, com entrada livre. 

Em Braga, o festival Square propôs em sua última edição o tema “Mapping the Atlantic”, focando nos talentos emergentes das margens atlânticas e refletindo sobre a diversidade como força criativa. Já em Setúbal, o Festival Língua Terra, idealizado por Mónica Cosas, entrelaça África, Europa e América Latina, reforçando as conexões poéticas e ancestrais. Ainda assim, como alerta Eddie Pipocas, o caminho é truncado. “Portugal cresceu com ‘o negro da vez’. De repente, são 30 negros a fazer, mas só entra um ou dois nos grandes circuitos. Quem paga o cheque ainda é branco”​.


Caminhos possíveis

É difícil capturar uma unidade sonora para a cena afro-lusófona contemporânea. Em comum, não está um gênero musical homogêneo, mas uma estética de confluências: ritmos e referências que transitam livremente entre o afrobeat, o trap, o R&B, o kuduro e o afrohouse.

Uma poética do entre-lugares, onde identidades múltiplas se afirmam por meio da mistura, da adaptação e da resistência sonora. Se Buruntuma funde afrohouse e ancestralidade guineense em sets que atravessam Lisboa e Bissau, Nenny mistura trap, R&B e kizomba sem medo de ser taxada como “world music”. Cíntia, com seu afroswing pop, transita com a mesma naturalidade entre as batidas do cenário underground de Loures e os beats cosmopolitas das pistas de dança europeias.

Segundo Eddie Pipocas, a forte base eletrônica que atravessa essa produção tem raízes profundas. “O kizomba é música eletrônica. O kuduro é música eletrônica. Quando você tinha só um instrumento para fazer todos os instrumentos, foi assim que nasceu a cena eletrônica africana”​. Essa história, ainda pouco contada, é a espinha dorsal que conecta a batida dos subúrbios lisboetas às pistas de dança ao redor do mundo. 

Se no som não há uma etiqueta definidora, a geração Z afro-lusófona compartilha uma consciência aguda, sabem exatamente quem são, de onde vêm e para onde querem levar suas narrativas. No entanto, navegam num paradoxo: para existir dentro das engrenagens do mercado musical, precisam muitas vezes modular seu discurso. 

Entre a urgência da expressão identitária e as pressões da aceitação comercial, há uma dança tensa. Como sintetiza Eddie, “os miúdos sabem o que querem, mas o elevador só sobe até o segundo andar. Do terceiro para cima, quem manda é outro”.

No meio de intercâmbios culturais e valorização, há também o risco da apropriação e do apagamento. Se a música eletrônica afro-diaspórica alimenta palcos e playlists mundo afora, quem escreve a narrativa oficial ainda é, majoritariamente, o olhar europeu. "É como no jazz", compara Pipocas. "Quem criou foi o negro, mas hoje quem controla os clubes, quem fala sobre o jazz, são os brancos"​.

Se há algo que essa geração já compreendeu, é que o futuro só será pleno se for coletivo. Como diz Pipocas, “precisamos olhar os PALOP como um centro jovem, que fala com 80 milhões de pessoas, e não apenas através do selo português”​.

O sucesso de artistas com raízes africanas reafirma o que essa geração representa — uma presença incontornável. Artistas como Nenny não apenas fazem música, mas constroem novas redes de pertencimento, deslocam as centralidades e afirmam, com beats e palavras, que a história da lusofonia negra é escrita em movimento. Não se trata de dissolver fronteiras num sonho idealista, mas de ocupá-las com presença, talento e memória.

Por:

Luan Gomes

Fotos: Divulgação

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