O Motor de Marcelo Cabral

16/05/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Douglas Hanauer | O Análogo

16/05/2019

Músico, arranjador, compositor e produtor musical, Marcelo Cabral acumula trabalhos ao lado de grandes parceiros. Com Daniel Ganjaman, é responsável pela produção dos discos Nó na Orelha (2011), Convoque seu Buda (2014) e Espiral de Ilusões (2017) de Criolo. Em uma de suas raras ações de produtor solo, foi responsável pela pérola Cambaco (2015) de Vicente Barreto. Sombra e Lurdez da Luz são outros dois nomes possíveis de identificar na trajetória do produtor.

Quarto membro do Metá Metá, o baixista por excelência também dá vida ao lado de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes ao Passo Torto. Com isso, o músico integra a chamada vanguarda da música paulistana atual.

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De passagem pelo Brasil, o músico, hoje com residência em Berlim, realizou uma série de apresentações de seu projeto de improviso Influxo Cabralha no último mês e, apresenta pela primeira vez o show de seu disco de estréia solo Motor (2018) na próxima sexta-feira, dia 17, na Casa de Francisca. No show, Cabral recria ao lado de Guilherme Held e Thiago França as canções de Motor, um ano após seu lançamento nas plataformas digitais, também guiado na confiança do improviso. No palco, o músico recebe as participações especiais de Ná Ozzetti e Romulo Fróes nas vozes.

A missão busca dar vida ao repertório sério apresentado por Cabral. No disco, além de guitarra, violão e sintetizadores, ele assina os arranjos de cordas e sopro. O som é contido, muito singular e não soa excesso. Para o disco tomar forma, o músico conduziu um grupo de doze colaboradores. Participaram do registro de Motor o quarteto de cordas formado por Aramis Rocha, Robson Rocha, Daniel Pires e Deni Rocha, além dos parceiros frequentes Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Thiago França e Guilherme Held. No disco, dividem a voz com o músico Ná Ozzetti, Juçara Marçal, Maria Beraldo, Criolo e Romulo Fróes, que também foi responsável pela produção ao lado de Cabral e de Daniel Bozzio.

Em conversa para a NOIZE, o músico falou sobre a mudança para a Alemanha, a concepção do disco e o tempo de recriação para o show. Leia abaixo a entrevista com Marcelo Cabral e, em seguida, confira uma rápida conversa com Romulo Fróes sobre o parceiro e sua obra de estreia:

Como foi a sua mudança para Berlim? Você foi para fazer algum trabalho específico?

Nada específico. Tô tocando e conhecendo o pessoal. Tinha uma galera que a Manu, minha companheira, e eu conhecíamos. Amigos que não são da música e moravam lá, que já nos proporcionaram uma aproximação pra chegar. Tem uma grande amiga da Manu que nos acolheu nos primeiros meses. A gente foi com a ideia meio aberta, de de repente ficar um ano. Se não curtir, voltar, se tiver legal, que é o que tá rolando, a gente vai ficar mais um pouco. Não sei o quanto mais, mas tá sendo o maior barato.

E a ideia da temporada de improviso, como se deu?

Sempre gostei de improvisação e dos vários caminhos que tem de improviso dentro da música. Mas lá tem uma cena rica pra caramba, enorme de improvisação, e foi o que me pegou. Então acabei enfiando a cabeça nisso. Tô vivendo muito isso e lá foi que eu vi a coisa de, às vezes é só um saxofonista e uma performer, aí de repente tem um artista visual projetando um negócio. Ou quatro pessoas e um poeta, que de vez em quando entra, gerando uma mistura muito bonita, que eu fiquei na cabeça. Daí quando programei minha vinda ao Brasil, falei com o Alexandre Matias sugerindo pra fazermos uma temporada de improvisação e acabou fechando no projeto curado por ele no Centro da Terra. Tive a oportunidade entre muitos parceiros e parceiras de contar com a participação do Paulinho [Fluxus] que não é só um iluminador, mas um artista visual de alto nível, que sabe perceber as nuances e interfere, também de improviso. Não acertei nada com ele e ele conduziu as quatro noites de modo impressionante. Foi lindo.

Sobre o Motor, após tantos trabalhos para ou junto a outros artistas, como foi o processo de concepção do seu disco solo?

Eu lembro que foi um daqueles meses que você dá aquela olhadinha na agenda e não tem nada programado. Então, eu pensei assim: o quê que eu vou fazer?  Eu gosto de fazer coisas, se não tiver nada, a gente inventa algo pra fazer. Pensei nas minhas músicas. Já tinha algumas compostas guardadas, que eram de um outro momento, mas eu sempre achava que elas eram todas muito pesadas, algo muito sofrido pelo momento que eu as fiz. Tinha mais algumas de um período mais pra frente, mas eu sempre achava que não tinha um disco ali. Fiz a experiência de gravar todas em voz e violão no celular e passei a ouvir elas andando na rua, no dia a dia com o fone,  e ouvindo elas percebi que tinha um disco ali. Então de vez em quando eu tocava uma, deixava elas encostadas. Tinha uma ou outra que não tinha letra, que eu gravei cantarolada com violão já com uma ideia simples do que seria. Mas tudo sem gastar tempo. Pensei, então, que dependendo da instrumentação eu já conseguiria achar uma dinâmica pro disco. Já via ali onde eu poderia pôr umas cordas, fazer uma introdução. E segui ouvindo as músicas e organizando o disco.

Foto: Douglas Hanauer | O Análogo

Só o fato de fazer o disco já era uma coisa linda. Foi um estímulo muito legal e a maneira que você se enxerga é diferente, e é legal você se colocar nesse outro lugar, de não estar ali produzindo uma outra pessoa, que você está vendo ela de fora. Até por isso eu chamei o Rômulo e o Daniel que são dois produtores que eu gosto muito, e a gente fez bastante coisa junto. Eu sempre gostei de produzir com alguém. Só teve um disco, o do Vicente Barreto, que eu produzi sozinho. Um disco que eu sou apaixonado. A hora que o Vicente me chamou pra produzir um disco dele eu fiquei ‘caralho, vou produzir um disco do Vicente!’. Aí eu fui lá e ele me mostrou as músicas eu fiquei ‘O que é isso bixo? Inacreditável’ .Tinham várias sem letra que eu já fui mentalmente organizando: isso é cara do Rodrigo, isso é cara do Kiko, isso é a cara do Rômulo. Daí já distribuí umas músicas, todo mundo encantado com o negócio, já bateu a inspiração. Lembro de falar pro Rafa, filho do Vicente, ‘oh, pensei no Rômulo, no Rodrigo e no Kiko, acho que eles se encaixam bem nesse universo e os caras fazem’. E deu certinho. São dez músicas, com duas do Rafa Barreto, duas do Rodrigo Campos, duas do Kiko Dinucci, duas do Manu Maltez e duas do Romulo Fróes.

De volta ao Motor, após o período de acertos da concepção do trabalho, como se deu a produção?

Quando eu decidi fazer o disco já dei um toque no Rômulo, que ele é ótimo pra produzir, pra ajeitar, pensar e fazer disco. E dei um toque também no Daniel Bozzio, responsável pela engenharia de som do disco, que gravou e mixou o disco, masterizado pelo Carlos Cacá Lima. No mesmo dia, fechei com Romulo e Daniel. Em seguida, começamos a gravação de todos os violões e umas vozes guia. Do processo de ficar ouvindo as músicas foram vindo os arranjos e a instrumentação na cabeça. Então, comecei no processo de definição de cada música, de modo muito natural. Foi vindo onde pôr uma introdução e fui definindo quem chamar para compor junto. Não tudo muito fechado porque eu gosto também de usar o estúdio como laboratório, pois é onde você vai gravando e vendo como soa. Mas eu já tinha uma ideia bem avançada. Então comecei a chamar a galera para gravar no estúdio já sabendo onde gostaria de contar com quem.

E sobre assumir voz do projeto?

Primeiro eu não sabia direito a coisa de cantar, se cantaria tudo, como era muito o começo da minha relação com as letras, e nesse lugar de cantar, fui vendo quais estavam confortáveis para mim cantar e, fechando isso eu vi que seria gostoso também chamar umas pessoas pra cantar. Aí fui pensando e falando com o Rômulo, o que foi muito legal de a gente ir batendo e sempre ia batendo certo. A coisa da afinidade, meio que tudo foi andando junto. Convidei o Rômulo pra cantar no disco, por entender ser importante pro disco, como tudo que a gente vem fazendo já há muitos anos, fiz questão de ter ele cantando. E tudo foi feito assim, primeiro gravei os violões e as vozes guias, e fui chamando o pessoal. ‘Rodriguinho tem uma música que acho que é a sua cara pra você por uma guitarra’.

Foto: Douglas Hanauer | O Análogo

E as letras do disco, como você definiu com quem compor?

A maioria das músicas são do Clima. Das oito músicas, cinco são do Clima, o primeiro parceiro que eu tive, com quem eu fiz minha primeira música, “Osso e Sol”, cantada pela Ná Ozzetti. Assim como “Tudo é Coração”, “Ciclovia” nasceu durante o processo de feição do disco. Quando o Rodrigo mandou a letra, pensei no universo que a música ilustra e me veio a Maria Beraldo pra cantar a música. Não só a voz dela, mas o universo pra onde a letra foi, pensei que seria perfeito uma menina gay cantando. Mandei pra ela, que gostou, se identificou e foi lindo as coisas se encaixando, sem forçar de querer chamar alguém. A Ná vem do universo que a gente se aproximou pelo Passo Torto.

E por que tanto tempo para o show de lançamento da obra?

Na verdade eu não pensei em fazer show quando no lançamento. Primeiro, porque esse disco é quase que acidental. Eu não planejei, me veio. Então, eu lancei nas plataformas digitais e tá mais do que bom pra mim. Eu não via ele como uma coisa para o palco. Geralmente, você tá gravando e já tá marcando show de lançamento e ensaio. Mas não era o meu pensamento. Tinha toda a questão da viagem, então me dei por satisfeito em produzir, gravar e lançar o disco, ainda que só pelas plataformas. E foi como se deu. Eu vi o disco ser lindamente compartilhado, um monte de gente me escreveu de uma maneira super bonita, fiquei feliz por isso. Chegando em Berlim, me vi numa dinâmica de vida diferente, muito tempo sozinho, descobrindo o mundo lá e sozinho com o violão eu passei a tocar as músicas todas. Então, fui organizando, trazendo algumas músicas minhas junto com o Passo Torto e dando forma a um show. Fechei a ideia de me pôr ao centro com violão de sete cordas, as harmonias e a letra, chamei o Guilherme Held e o Thiago França pra estarem junto, tocando tudo isso meio improvisado, sem por muita regra pra eles. O que eu acho uma coisa bonita e um talento que eles têm que, você vai tocando sem falar nada e eles já vão criando coisas espetaculares, lindas, que você nem precisaria dirigir nada. Fica até mais bonita você nem dirigir. Então fechei assim o show, chamando o Rômulo e Ná pra cantar algumas.

O show de Motor acontece na Casa de Francisca nesta sexta-feira dia 17. Mais informações e reservas pelo site da casa.

Percebido poeticamente como o amor em sua impossibilidade de realização por Rodrigo Campos, Motor me foi descrito como “um disco pequeno no melhor dos sentidos” pelo produtor Romulo Fróes. “Um disco de ourivesaria. ‘Essa canção é só violão e shynt. Essa é só guitarra e voz. Essa tem arranjos de cordas, mas só na introdução. Bateria em uma e outra.’ As canções dele são todas muito pequenas na intenção. E eu acho que ele acertou na parceria com o Clima. Eles são parecidos nesse sentido, de ser muito dócil, ao mesmo tempo que muito profundo. Não a toa tem muito sol, chão, que são monossílabos. A exemplo de “Cadê”, que gravei no Barulho Feio. Como que você escreve isso? Então ele tem essa coisa controlada no melhor sentido e muito concentrado, e muito perfeito”, aponta Fróes.

Foto: Douglas Hanauer | O Análogo


Ao falar sobre o parceiro, o músico reforça o espírito leve de Cabral e recorda o processo de criação da faixa-título. “Motor é um disco grave e sério. Não é um disco de entretenimento. Mas o Cabral não é grave e sério. Ele é uma pessoa leve e muito bem humorada. Um moleque zueiro de 5ª série. Na turma, ele que faz versão de música com palavrão. Só que ele vai compor e ‘Ê cadê sol. Cadê luz. Cadê’. Então, acho que “Motor”, que é uma letra da minha companheira, Alice Coutinho, é o Cabral pessoa física. Cabral skatista. Não dá pra imaginar que aquele sujeito que toca baixo acústico com arco era skatista profissional. Então, ela fez uma letra do skatista, do cara que tromba o vento da cidade nos olhos. Mas é curioso essa dualidade do sujeito quinta série que te conhece e em dois segundos tá tirando sarro da sua cara, com o sujeito baixo acústico de 100 anos e arco, então acho que o disco, em sua unidade que tem os sons muito bem localizados, tem a ver com a leveza dele também. Que é uma leveza profunda”.

Fróes ainda segue:“O Cabral poderia ter juntado uma bandona pra fazer um som ao vivo, mas não. Ele quis partir do violão e da canção dele. Ele é o cara da contenção e da condensação. Quando a gente se reúne pra levantar um arranjo novo, via de regra, a primeira pessoa que propõe alguma coisa é o Cabral. O Cabral é uma figura muito importante pra esse rolê todo do Clube da Encruza. Ele é muito inventivo, mas ele tem uma certa correção. Ele é capaz de loucura, do tipo de meter um pedal de distorção num baixo acústico de 100 anos, ele que aprendeu a tocar com arco e tudo. Mas a loucura dele, na minha cabeça, tem um objetivo que é o que que a música está pedindo.

CLUBE DA ENCRUZA ★ PALACETE TERESA (outtake) from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.



Sobre o convite para produzir Motor, Rômulo foi claro quanto a sua participação limitada, frente a suas validações dos caminhos apontados pelo músico. “Ele me chamou pra fazer uma direção artística no Motor, mas é daqueles discos que você vai lá só pra falar foda. As três músicas que ele cantou eu cheguei depois no estúdio. Então quando ouvi, falei ‘nossa Cabral, você tá cantando bem’ e ele me disse, ‘é, depois eu vou regravar’ e eu falei ‘não mano, já tá pronto. Você vai cantar melhor que isso aqui?’ Como em “Ela Riu”, que ele apresentou um gravão que eu nem sabia que ele tinha e até invejei. Então, é um disco que eu estava ali, claro que eu falei alguma coisa, conversei, mas é um disco que o cara sabe o que ele quer. O cara se preparou para aquilo. Não atoa saiu só agora. Eu acho um disco lindíssimo, canções maravilhosas, os arranjos de orquestra, que ele já vem escrevendo há muito tempo, acho que são os melhores que ele já escreveu até hoje. Não porque era o disco dele, mas é porque era a música que ele tinha composto, nessa coisa do ‘eu sabia o que eu queria’”, reflete.

16/05/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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