Original Diferenciada: conheça Bárbara da 101Ø

19/08/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Divulgação

19/08/2019

Bárbara Egídio é dj, produtora e ativista cultural. Membra do núcleo artístico 101Ø de Belo Horizonte, começou a somar à festa no início de 2016, logo após a formação do movimento, em novembro de 2015. No final de 2017 começou a discotecar. Ela nos brinda com a segunda LabXP mix’s, em que apresenta um recorte de sua pesquisa atual de house. São tracks lançadas nos anos 2000 de nomes como Ernest Kalinin, Alex Grzybowski, John Tejada e nørus, além de um rap da compositora e cantora paulista Alt Niss. O set abaixo foi gravado como um ensaio para o que a DJ irá apresentar na edição Original e Diferenciada, da festa, no próximo sábado, na capital mineira. Ouça ao ler a conversa da artista com a NOIZE (tracklist no fim do texto).  

Cria da rua, Bárbara milita pela acessibilidade de novos públicos no meio de música eletrônica na 101Ø. “Que é uma das coisas que mais me incomodam, chegar num rolê e eu e a Iza sermos as únicas pessoas negras. Sério, me deixa triste”, desabafa. Antes era frequentadora dos rolês de rap com mais afinco. Ao lado de sua irmã gêmea Izabela, está puxando a primeira edição da festa com line up composto apenas por mulheres. Para isso, alteraram a lógica do modus operandi do núcleo, isentando seus parceiros homens do ônus da produção e trazendo novas relações, em maioria feminina, para o protagonismo e força de trabalho para realização do evento.

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A busca, além de tensionar a visão de presença feminina na composição de line ups, é por alcançar novos públicos, entregar uma festa acessível, ao mesmo tempo que com a estrutura e segurança que os fiéis da crew conhecem. Bárbara explica que juntou o fato de há tempo querer fazer uma festa na rua, o que reforçou a necessidade de apoio na realização. Para isso, um financiamento coletivo foi aberto, para captação de R$10.000,00. Você pode colaborar aqui

“Algumas pessoas até nos falaram pra fazermos uma coisa simples. Amigo, eu não aceito mais fazer festa paia. Já trabalhei demais, e já tomei muito prejuízo pra fazer festa paia em 2019. Se for pra fazer uma festa com poucos recursos é melhor não fazer. Festa na rua de qualquer jeito é legal, a galera curte, mas é muito trabalho. Ficar vendendo cerveja, arrumando dinheiro. Porque a 101Ø não é uma festa milionária pra gente pegar e dizer ‘olha esse dinheiro aqui sobrando. Vamos gastar ele inteiro pra fazer uma festa na rua de presente pra galera’, não. Seria o meu sonho, mas atualmente esse não é o mood”, pontua.

Bárbara e Izabela Egídio (Foto: Jéssica Rolemberg)

Na concepção do evento, Bárbara e Iza se voltaram às suas referências de construção de identidade. “Formação 100% cultura de rua. Tudo que eu aprendi foi na rua. Escola da vida real”, diz. Para a festa no próximo sábado, dia 24, o local escolhido foi o viaduto Santa Tereza. Informações completas sobre a festa você acessa aqui. Leia abaixo entrevista concedida pela artista desde Belo Horizonte para Noize. 

Como foi sua inserção no meio de produção cultural e de música eletrônica?

Em produção eu comecei a me envolver na 101Ø mesmo e minha vida ficou só nela. 

Até então eu não frequentava festas de música eletrônica. Antes era o rolê da minha irmã, que já ia em festa de música eletrônica desde 2011/2012. Era uma época que a gente não andava tão juntas. Então ela tinha os rolês dela e eu tinha os meus, que eram basicamente festas de rap. Ainda colo em rolês de rap as vezes, mas não tanto como antigamente. Minhas melhores amigas vem desse tempo. Todas minhas migonas mc’s que conheci nesse caminho. A gente até tentou fazer um rolezinho de rap feminino, tipo em 2015 por aí, mas não vingou. 


No início da 101Ø a gente que fazia tudo. Limpar o lugar para fazer, produzir, carregar tudo, ficar na porta, no bar, caixa, montar a festa inteira, desproduzir e limpar para entregar. Hoje já está um pouco mais tranquilo, pois podemos contratar pessoas para trabalharem nessas funções, mas começamos pequenininha. Daí eu colava pra ajudar e ralar com eles, e fui me envolvendo e quando vi já estava envolvida demais na produção da festa. E a gente foi construindo junto. 

101Ø Crew (Foto: Lucas Chagas)

E qual a formação da 101Ø atualmente? Como vocês se vêem e se colocam no mercado/cenário?

Formada por Bárbara e Izabela Egídio (irmãs), Arthur e João Vitor Cobat (irmãos), Diego Guedes (marido do Arthur) e o Matheus Novy que é amigo meu e de Izabela há uns dez anos. Só relações familiares. A 101Ø no inicio era uma coisa e hoje é diferente. Foram vários processos que a gente foi construindo ao longo desses quatro anos.  Já fomos vários, mais de dez, mas com o tempo fomos reestruturando as coisas, até ficar só nós seis, em uma hora que a gente viu que daríamos conta de fazer. 

Hoje a 101Ø é um núcleo que atua como uma produtora. Não existe o romantismo da ideia de coletivo. A gente parou de se colocar como tal. E também nem tem a necessidade disso, sabe? A gente faz tantas outras paradas, que não precisa ficar pagando de coletivo. Vai fazer outras coisas pra poder ficar bonito e mostrar que a sua festa se preocupa com contribuição e legado. 

Quando começou a tocar?

Foi natural, pelo meu envolvimento com a produção da festa, no decorrer do tempo me surgiu a vontade de tocar, de pesquisar mais e de estar mais envolvida com a música. O João Vitor, OMOLOKO, vinha me ensinando desde meados de 2017, e na festa de Reveillon que fizemos na virada daquele ano teve a minha estreia. 

Sobre a ideia da festa do próximo sábado. Essa é a primeira edição com line up apenas de mulheres, certo?

Sim, em quatro anos, a festa já teve forró, funk, várias edições diferentes. E era uma vontade minha e da Izabela, de fazer uma festa só com mulheres no line, que até então nunca aconteceu. Essa festa está sendo puxada por mim e por ela, com apoio da nossa rede onde recebemos ajuda de várias amigas e alguns amigos também, tudo no favorzinho. 

Como está, na sua visão, o financiamento coletivo para a festa?

Até agora estamos lidando com uma certa quebra de expectativa. Temos na 101Ø uma média de valor de ingresso de R$30,00. Pensávamos que a galera obviamente não iria se negar de puxar R$10,00 pra ajudar a fazer a festa na rua. Mas não. Estamos refletindo sobre a necessidade de educação do público. Falta consciência coletiva e entendimento de como as coisas funcionam. As pessoas ficam facilmente com uma imagem só daquela noite muito louca, com uma luz muito linda, o som legal, vários djs legais pra tocar, mas zero penso que um mês ou mais antes tiveram que rolar mil outras coisas pra esse rolê acontecer.

Entregar uma festa de graça não é o mesmo que fazer uma festa de graça. Pra 101Ø é inviável. A gente pegar o dinheiro do nosso caixa, e esse dinheiro nem existe, pra fazer uma festa na rua. Olha, uma festa na rua custa R$10 mil, é muito dinheiro. Aí a gente viu no financiamento coletivo a solução pra fazer. Porque tipo, não ia ser um rolê que a galera ia ter que pagar R$35,00 pra entrar no rolê. Hoje na 101Ø o mínimo que você vai pagar para entrar é R$20,00, pra quem é rápido e pega o primeiro lote. E as gatas não vão entrar no site e apoiar com R$10,00? Poxa, com R$10,00 na festa você vai tomar uma cerveja só. 

A festa tem uma estrutura que queremos manter, sendo entregue com segurança e o mínimo de conforto. É dificil lidar. A gente vende em média 500 ingressos antecipados. Até o momento 168 colaboraram com o financiamento coletivo. Desse total, pelo menos 50 são umas migonas minhas e da Izabela, um tanto de gente de outros estados, do Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, e as gatas da pista que mandam mensagem no instagram da 101Ø eu não tô vendo o nome de nenhuma aqui. Cê bota fé? Sem noção. Todos os dias eu fico olhando as fotos da galera que deu dinheiro, real.

Mas a festa já está paga, de certo modo, não?

Sim, a campanha é flexível. E com 75% do valor alcançado, considerando o bar, mais o movimento da semana, acredito que sim, está paga. Falo apenas pelo fator consciência mesmo. O resto está andando.

E como estão os preparativos para sábado, os destaques, que diferenciam a festa?

A gente preparou uma roda de conversa antes da festa com várias mulheres que são referência pra mim e pra Izabela. De crescer no rolê. A gente começou a fazer festa há pouco tempo, mas é miliano na rua. Bons 10 anos de Praça 7. Aí são várias pessoas que contribuíram pra gente ser essas pessoas que somos hoje. Referências reais. Mulheres que a gente admira muito. 

Pra não fazer uma festa com line só de mulheres com referências que já foram apresentadas várias vezes, a gente quis também trazer a voz dessas mulheres que muita gente não conhece e que são muito importantes na cultura de rua de Belo Horizonte. 

Tem a Joana que faz um trabalho muito lindo com jovens em situação de rua, com os pixadores, são várias pessoas. Tem a Jana que faz o Cura, que executa um projeto muito bafo que pinta umas empenas com grafitte aqui em BH, ela e outras minas, e o Bloco do Manjericão, auge do carnaval de BH. Tem a Leidi que tem um grupo de mães, que faz resgate de autoestima e empoderamento através da dança. As talavistas que são um grupo de mulheres trans e travestis que são performers e Djs.Também convidamos a Bolinho, que é a Raquel, grafiteira aqui de BH, que esse mês de agosto ela comemora 10 anos de Bolinho e que está fazendo uma programação enorme e uma das ações vai ser nessa festa, que ela vai pintar um Bolinho na 101Ø. 

E sobre o local da festa? Já pode se revelar?

Estamos em meio ao processo de autorização legal. Sempre delicado, mas adiantamos que será no viaduto Santa Tereza que é um lugar dominado pelos boys, como qualquer lugar do universo. E é um lugar muito significativo pra história da cultura de rua de Belo Horizonte. Um espaço muito plural, que acontece tudo o que você imaginar. Tem batalha de mc’s, samba, rap, trance. Tem morador de rua. Também é um lugar que a gente já participou de várias lutas ali embaixo. Tiveram umas fases de muitas trevas pra cultura em Belo Horizonte, repressão, multa. Em 2014, eles fecharam o viaduto para uma obra e ficou um tempão fechado. Ninguém sabia o que estava acontecendo naquela obra. E num pré-carnaval, juntou a galera dos blocos de carnaval, do coletivo Família de Rua  e os skatistas e a galera derrubou os tapumes que estavam fechando o viaduto e ficaram uma semana debaixo do viaduto, dormindo e fazendo várias atividades, até que a prefeitura correu com a reforma e entregou o viaduto. Esse é um momento muito marcante da nossa vida, principalmente da Izabela, porque ela ficou esses dias lá. Também, em 2017 a 101Ø teve um momento de quase morte, encerrando as atividades. Porém, a gente fez uma festa de poucos recursos ali no viaduto. Tinham sei lá, 3.000 pessoas. Emocionou. Depois dessa festa a gente decidiu voltar ativa. O lugar é especial.

Sobre a composição do line up? 

A gente tenta se reiventar, pra não ser sempre o mesmo assunto. Cada edição a gente quer fazer uma festa diferente da outra. Original e diferenciada. Real, se eu posso falar alguma coisa da minha festa é isso. Fazer coisas não óbvias. Pra trazer uma outra experiência pra galera da pista. A gente é muito por aí. Destacamos a DJ Due e a Gabi Bahia. A Due é uma artista nova que vem se firmando. A Gabi Bahia é uma amiga minha e de Izabela há anos, , que também começou a discotecar há pouco tempo. Ambas nunca tocaram em BH, nem para uma pista grande, conforme expectativa desse evento sábado.  

Lógico que rolam djs famosos, obvio, como a Eli Iwasa. Mas a Eli, por exemplo, foi uma dj que mudou a nossa vida. A relação que a gente estabeleceu com ela – uma referência pra gente – foi incrível. Ela é a minha ídola da música eletrônica. Mas aí tem a Guilhermo, por exemplo, que toda vez que a gente pode a gente traz, já tocou duas vezes na 101Ø. Mana de Manaus, que hoje a gente considera uma das melhores djs do brasil,  possivelmente não viria tocar aqui. 


Amanhecer na 101Ø + Gop Tun, com Helena Hauff (Foto: Lucas Chagas)

Destaques para você ao longo desse tempo a frente do núcleo?

Meus maiores momentos com a 101Ø foram essa festa com a Eli, que abriu essa porta com essa mulher tão incrível que eu conheci. E a festa com a Helena Hauff que a gente nunca imaginou que iria conseguir trazê-la pra BH, e foi muito especial, pois ela é muito legal, uma pessoa ótima. Foi muito marcante. E essa que ainda nem rolou, e eu já amo pacas. Não rolou e eu já sofri muito, e já amo. 

Você falou em legado antes, e eu gostaria que refletisse sobre essa consciência da influência  exercida por vocês no cenário.

É uma coisa que eu não via até pouco tempo. Não tenho tanto contato com a galera que vai na festa, pra saber sobre o que eles pensam da gente, não chega nada além de ‘ah a festa é bafo, adorei’, essas coisas assim. Tenho refletido, muito com o Arthur sobre o impacto que a festa gera aqui. Com a inclusão de outras pessoas na pista. Pessoas pretas, travestis, que são minorias. Pessoas que não estão naquele espaço. Porque o espaço da música eletrônica é isso, em geral branco. E é isso, o que eu e a Iza pensamos: integrar e chamar o máximo dessas pessoas  e convidar pra festa. Pessoas de outros lugares, de outros rolês. Incentivar essas pessoas a conhecerem a festa, e verem que é uma rede legal, que música eletrônica também é música de preto.

O fato de ter eu e a Iza, duas minas preta, favelada, da rua, num ambiente desse que é muito chá de boy, predominantemente de pessoas brancas, já é um diferencial nosso. E a gente é isso, é da rua, fazer o quê? A gente transita em todos os lugares dessa cidade. Eu sou do rolê do rap, mas eu já fui de vários rolês diferentes. E tudo que eu vivi na minha vida, fez toda diferença para o que é hoje. Das coisas que eu conquistei hoje. Bota fé? 

E aí é isso, a gente vai fazer essa festa na rua pra mostrar. Porque como um rolê na rua é de fato aberto e qualquer um que está passando ali para e cola, então é mais uma chance de mostrar a nossa festa pra outras pessoas que não conhecem. Pessoas diferentes que são as pessoas novas que a gente quer ter de público. Entendeu?

Tracklist

Floog e Mahony  – Moscow 21
Martin Landsky – V2U
D’julz – Narcissistic Scratch
Ernest Kalinin – Monkey Spender
Alt Niss, Ecologyk feat. Tássia Reis – Da Sul pro Mundo
Bit Shift – M – Path
John Tejada – Flight To Tokyo
nørus – Your love gets me high
Kenneth Graham feat. Bit Shift – Warehouse in D
Radio Slave – Werk (Dan Beaumont Remix)
Alex Grzybowski – The Round Table
Inaya Day – Keep Pushin’
Audio Soul Project feat. Lori – Satellite (Fred Everything Remix)

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19/08/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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