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Crítica musical negra: do jazz de Amiri Baraka à escrevivência brasileira


Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Reprodução

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Ouvir é uma coisa, escutar é outra. Essa afirmação, que pode ser usada em diversos contextos, serve para explicar a importância da crítica musical negra. Entre a onda sonora e o papel, existem camadas que nem todos os ouvidos são capazes de compreender. 

O estadunidense Amiri Baraka (1934-2014) foi uma das primeiras pessoas a observar que algo se perdia quando a música negra não era analisada em sua completude, sobretudo no jazz. Em resposta, ele arregaçou as mangas e começou a escrever nos anos 1960 nos veículos Down Beat, Jazz Review e Metronome.

“A crítica branca não teve muita capacidade de fazer uma leitura sobre o jazz, justamente por estar distanciada dela. Já o Baraka andava com esses músicos, dividia apartamento e tocava com muitos deles”, diz Nathalia Grilo, pesquisadora musical e curadora. “Disso surge uma produção textual que, além de ser muito afetuosa, é muito poética e muito crítica, também. Uma crítica que vem de dentro para fora e não de fora para dentro”, continua. 

Nathalia assina o prefácio de Black Music: Free Jazz e Consciência Negra (1959-1967), publicado em 2023 pela Sobinfluencia Edições, reunindo ensaios, crônicas, resenhas e outros textos de Baraka. Para ela, não é um livro de resistência, mas um manual de combate. 

“Baraka estava muito empenhado em documentar as artes negras a partir de outra angulação. Ali a gente se depara com um conjunto de escritos que traz dignidade para a leitura e memória da arte negra”, analisa.

Do âmago

A improvisação e o ritmo acelerado do bebop foram a trilha sonora da geração beat, movimento de contracultura do qual Baraka, também poeta, fez parte na década de 1950, ao lado de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.

Mas ao contrário dos seus pares, ele viveu o jazz de outra forma. Quando era novo, ganhou do primo uma coleção de discos de bebop, que o apresentou a Dizzy Gillespie e Monk. O fato de ter crescido com essas referências, vindas da família, fez dele um fruto dessa própria cultura. 

Embora seja um termo cunhado no contexto brasileiro, a “escrevivência” de Conceição Evaristo poderia ser aplicada aqui. Da união entre o “escrever” e a “vivência”, surge uma escrita que se amarra à perspectiva historicamente negligenciada das pessoas negras.

Assim, Baraka chegou à crítica musical com uma bagagem que os críticos brancos não tinham, tornando o modo de analisar um trabalho para além da forma. É o que acontece quando ele escreve sobre Billie Holiday, em “A dama negra dos sonetos”. 

“Um cara me disse que Billie Holiday não cantava blues, e ele manjava. Certinho, mas o que eu me pergunto é o que ela viu, então, pra moldar seu canto? O que, em sua vida, tenciona tanta tragédia, tanta agonia fatal desesperadora? Quando não, na outra face da moeda, ela está cantando ‘Miss Brown to You’. E nenhum de vocês, malandragem, ousaria desafiá-la.”

“Nos trabalhos de Amiri Baraka, Francisco Guimarães, o Vagalume, e no jornal maranhense O Tambor (fundado pelo grupo Aruanda, em 1990, para cobrir a cultura reggae), existe uma ruptura da lógica da crítica como avaliação. Eles produzem uma análise que parte da compreensão dos propósitos culturais, sociais, raciais, intelectuais e artísticos que motivaram a produção musical e como a arte inventa outras possibilidades de mundo. A imaginação negra não está presa ao contexto material. E essa crítica musical negra percebe isso porque é um ‘insider’ que não aborda a música pela lógica meramente apreciativa”, analisa o jornalista e pesquisador GG Albuquerque. 

Virada de página

Black Music, de Amiri Baraka, chegou às livrarias originalmente em 1967, mas só apareceu nas estantes brasileiras em 2023. Esse intervalo coincide com o lançamento da outra única obra do autor editada no país: O Jazz e Sua Influência na Cultura Americana, que saiu pela Record

“A dificuldade do mercado editorial em abarcar autores negros está relacionada ao fato de que o acesso à leitura, em particular a teórica, é ligada a uma classe social mais abastada e intelectualizada que, infelizmente, não consome teóricos negros. As editoras, que sobrevivem da venda, acabam se interessando em publicar o que está mais próximo do público consumidor. Mas, ao mesmo tempo, com o crescimento da comunidade negra nas universidades, isso tem mudado e esses autores estão chegando, aos poucos, às livrarias brasileiras”, opina a editora Juliana Rodrigues, da Fósforo

Na imprensa, o cenário não é diferente e cria uma defasagem histórica. “A maior perda é a da memória. Um exemplo disso é o caso do Eduardo das Neves, um dos artistas mais populares do início do século XX, um gigante do início da indústria do disco, artista seminal que influenciou diretamente a primeira geração do samba carioca, e que mesmo assim foi escanteado na história da música brasileira por uma historiografia musical que estava interessada em construir o samba como pilar máximo da identidade nacional”, comenta GG Albuquerque. 

“Por outro lado, é preciso reconhecer que mesmo uma crítica cultural negra pode também produzir apagamentos quando orienta-se por paradigmas exclusivistas herdados de um modelo hegemônico de história — como a noção heróica de pioneirismo”, complementa.

Assim como, do quilombo ao baile, a música negra sempre encontrou formas de existir, o mesmo acontece quanto à sua crítica, que luta para ter espaço nas vias tradicionais, mas sabe que longe delas também consegue triunfar. 

“Hoje a gente tem uma cena preta muito interessada nessa documentação”, diz Nathalia Grilo. “Sinto que o movimento das cotas foi superimportante, trouxe um frescor para a produção acadêmica. Só que não somos vanguarda, somos fruto de Nei Lopes, talvez o maior crítico musical que a gente tenha de culturas negras.”

GG Albuquerque, por sua vez, destaca que essa movimentação está também na internet, onde é possível descobrir as novidades de gêneros como funk, forró, rap, tecnobrega, pagodão e outros.

“Por conta do distanciamento (social e econômico, mas também editorial) das redações e editores dos locais de produção da música negra contemporânea, a crítica musical acaba sendo produzida pelos próprios músicos e pela comunidade de fãs.”

Foi o que aconteceu quando o DJ K reagiu à crítica que Rick Bonadio fez ao funk, para ele visto como um gênero que não evoluiu e que usava sempre a mesma batida. A resposta veio em formato de música: “Beat Pro Rick Bonadio Chorar”. 

Para GG Albuquerque, essa foi a reação mais contundente à situação. “Com uma batida toda distorcida e saturada ao extremo, com a mixagem fora de qualquer padrão ‘correto’ da indústria musical, o que o DJ K está afirmando, através da música, é que o funk mandelão tem esse som não por desconhecimento dos DJs, mas sim porque eles querem propositalmente transgredir a ordem do bom gosto higienizado da escuta hegemônica trazendo o ruído pra dançar. É uma análise estética, que poucos movimentaram-se para fazer.”

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #163 que acompanha o disco Um Mar Pra Cada Um, de Luedji Luna, lançado pelo Noize Record Club.

Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Reprodução

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