Roger Waters pede a Caetano e Gil que cancelem show em Israel

01/06/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Don Emmert/Getty Images

01/06/2015

O eterno baixista do Pink Floyd, Roger Waters, escreveu uma longa carta para Caetano Veloso e Gilberto Gil pedindo que a dupla cancele seu show em Tel Aviv, marcado para o próximo dia 28 de julho.

O documento escrito em 22 de maio foi mandado à dupla através do The Boycott, Divestment and Sanctions Movement, movimento conhecido pela sigla BDS. Essa iniciativa propõe um boicote econômico, cultural e político a Israel como uma forma de pressionar o país a interromper a ocupação de territórios palestinos e garantir igualdade de direitos civis para os árabes que vivem lá.

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Roger Waters milita em prol da causa palestina há anos, como você pode ver nos vídeos abaixo:


O show de Caetano e Gil em Israel também motivou a criação da página “A Tropicália Não Combina com Apartheid”. Lá, está sendo divulgada uma petição online pedindo que Caê e Gil cancelem seu show em Tel Aviv.

Gilberto Gil disse ao jornal Estado de S. Paulo que irá tocar em Israel por causa do público que ama a música, procurando isolar a dimensão política do show. “Não tenho muito interesse em misturar a posição discutível do Estado de Israel com o povo de Israel, que tem uma vida, uma cultura e uma dimensão simbólica. Pessoas que gostam de música brasileira e que têm um apreço por esta música há muitos anos. Eu vou lá por isso, vou lá por eles”, disse.

No início de maio, Lauryn Hill cancelou o show que faria em Israel. Em 2012, Lenny Kravitz também fez isso. O guitarrista Carlos Santana fez o mesmo em 2010. Em 2008, Snopp Dogg também cancelou seu show no país.

Veja abaixo a carta que Roger Waters mandou aos músicos brasileiros.

Caros Caetano e Gilberto,

Quando olho para suas fotos, escuto suas músicas, leio a história de suas lutas pessoais e profissionais, lembro de todas as lutas de todos os povos que resistiram a um domínio imperial, militar e colonial através do milênio, que lutaram pelos aprisionados e pelos mortos. Nunca foi fácil, mas sempre foi certo.

Em uma de suas músicas, Gil, você menciona o arcebispo Desmond Tutu. Eu não falo português, mas assumo que vocês dois aplaudam a resistência do arcebispo Tutu ao racismo e ao apartheid que acabaram derrubados na África do Sul. Eram dias impetuosos, quando a comunidade mundial de artistas estava lado a lado com seus irmãos e irmãs oprimidos na África. Nós, os músicos, lideramos o levante naquele momento, em apoio a Nelson Mandela, a ANC, ao povo africano oprimido e a todos os aprisionados e mortos.

Estamos diante de uma oportunidade igualmente significativa agora. Estamos em um ponto culminante. Aqueles de nós que estamos convencidos que o direito a uma vida humana decente e à autodeterminação política devem ser universais estamos, em consonância com 139 nações da Assembleia Geral da ONU, focados na Palestina.

Após o ataque brutal de Israel à população palestina de Gaza, no último verão, a opinião pública, acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos oprimidos e dos sem privilégios, a favor dos aprisionados e mortos.

O primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, com seu governo de extrema-direita, lembra-me da história da “Nova roupa do imperador”; com certeza nunca houve um gabinete mais exposto em sua calúnia como este. Eles se condenam mais a cada fôlego, a cada discurso racista. “Olha, mamãe, o imperador está nu!”

Tive a oportunidade, recentemente, de escrever uma carta a um jovem artista inglês, Robbie Williams; eu compartilhei com ele o destino de quatro jovens palestinos que jogavam futebol numa praia de Gaza, mortos por artilharia israelense. Por que eu traria à tona uma praia e futebol? Por quê? Porque eu amo o Brasil, eu tenho a praia de Ipanema nos olhos da minha mente; eu lembro de shows que fiz em São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Rio. Como poderia esquecê-los? Eu tenho uma camiseta de futebol, assinada: “para Roger, de seu fã Pelé”.

Quando estive aí pela última vez, uma criança inocente tinha acabado de ser morta, arrastada por um carro dirigido por criminosos que escapavam da cena do crime. O remorso nacional era palpável, era todo abrangente, vocês, todos vocês, importavam-se com aquela pobre criança. De tantas maneiras, vocês são um foco de luz para o resto do mundo.

Como vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África do Sul do apartheid se recusaram a atravessar a linha de piquete para tocar em Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e cinquenta ou mais músicos protestaram contra a opressão cruel e racista dos nativos da África do Sul. Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, do movimento não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade, justiça e igualdade dos palestinos, vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa. Do mesmo modo que músicos não iam tocar em Sun City, cada vez mais não vamos tocar em Tel Aviv. Não há lugar hoje no mundo para outro regime racista de apartheid.

Quando tudo isso acabar, nós iremos à Terra Santa, cantaremos nossas músicas de amor e solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras, sentiremos o cheiro da madeira queimando das fogueiras de nossos anfitriões, estimaremos essa lendária hospitalidade.

Mas, até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, nós vamos fincar nosso emblema na areia, há uma linha que não cruzaremos, nós não vamos entreter as cortes do rei tirano.

Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel.

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01/06/2015

Editor
Ariel Fagundes

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