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Vera Danilina: violonista russa fala sobre palco, redes sociais e força da música clássica


Por:

Eduardo Ribeiro

Fotos: Divulgação/Cauê Diniz

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No camarim do Cultura Artística, pouco antes do concerto da noite de 18 de novembro, Vera Danilina parecia habitar um intervalo raro entre concentração absoluta e hospitalidade espontânea. O violão repousava sobre o sofá, protegido com zelo quase ritual, enquanto ela tirava um espresso, perguntando com naturalidade: “long or short?” O ensaio acabara de terminar. O palco ainda estava vazio, mas o recital já começara ali, naquela atmosfera suspensa em que técnica, expectativa e vida cotidiana se misturam.

Aos 26 anos, Vera chegou a São Paulo em um momento de consolidação internacional. Desde a vitória no prestigioso Concurso Michele Pittaluga, em 2022, após uma tentativa frustrada cinco anos antes, a violonista russa transformou reconhecimento em trajetória. Turnês constantes, um álbum de estreia elogiado pela crítica, convites para festivais centrais e uma presença digital que foge ao padrão do circuito erudito: seus vídeos no canal da Siccas Guitars ultrapassam a casa dos milhões, conectando o violão clássico a uma audiência global e transversal.

Mas reduzi-la a prêmios, visualizações e seguidores seria ignorar o essencial. Há nela algo de intérprete que pensa o programa como forma narrativa, quase teatral, herança direta de uma infância atravessada pelo palco: filha de atriz, criada entre ensaios, competições e uma disciplina rigorosa, ela aprendeu cedo que tocar não é apenas executar, mas sustentar uma presença. No palco, o violão se torna orquestra; fora dele, a artista se divide entre estudo obsessivo, maternidade recente e a tentativa de construir, em Paris, uma nova vida longe do circuito fechado das competições.

Sua passagem pelo Brasil, para duas apresentações, revelou uma artista atenta ao clima, à acústica, ao público e às sutilezas que não aparecem nos vídeos impecáveis das redes. “Não há separação entre mim e a plateia”, ela diz. Talvez seja essa a chave de sua ascensão: uma técnica excepcional colocada a serviço de algo mais frágil e raro, que é a sensação de proximidade real, mesmo em tempos de espetacularidade constante.


Você está no Brasil pela primeira vez. O que mais te surpreendeu no contato com o
público brasileiro?


Sinto que o público brasileiro está entre os que mais demonstram proximidade com a minha contribuição à música. As pessoas aqui são muito calorosas, e isso me trouxe surpresa e alegria. Estando no país pela primeira vez, percebi que esse sentimento de afinidade com a minha cultura e com a minha alma é muito sincero. Há pessoas que conhecem poesia e literatura russa, não apenas a música, e isso faz com que descubramos que temos muito em comum. No dia 16 de novembro, depois do concerto, algumas pessoas vieram tocar violão para mim como um presente. Foi totalmente inesperado, um momento único.


Como você se sente instantes antes de subir ao palco para um concerto como este?


Antes de entrar no palco hoje, confesso que me sinto um pouco apreensiva, mas preparada para entregar às pessoas o mesmo nível de qualidade técnica que elas veem nos vídeos do Instagram e do YouTube. Venho me preparando para momentos como este a vida inteira. Este concerto é especial porque não há separação entre mim e a plateia, o que favorece uma conexão profunda, como se todos entrássemos na mesma atmosfera. Essa energia é o que eu mais amo.


O que determina, para você, o sucesso de um recital solo?


Depende de muitos aspectos sutis: a acústica, o clima, a temperatura, a umidade do local, minha condição de saúde e bem-estar naquele dia. São muitos fatores. Mas, como profissional, mesmo que algo não esteja totalmente favorável, não posso me deixar abalar. Não posso ficar prestando atenção se algo se moveu na plateia ou se houve algum ruído. É preciso manter o foco.


Sua presença nas redes sociais é impressionante para uma artista do repertório clássico.
Isso foi planejado desde o início?


Nada foi planejado. Tudo começou por diversão. Quando comecei a postar, não imaginava que atrairia tanta gente. Ao perceber o aumento da audiência, passei a observar enquadramentos, ângulos, como eu aparecia no vídeo. Mas, de início, gravei apenas um dia de prática, escolhi algumas cenas e publiquei. A reação positiva das pessoas foi o que me motivou a continuar.


Que cuidados uma jovem artista deve ter com essa visibilidade digital?


É preciso muito cuidado com a fama nas redes. Quando você começa a receber muitos likes, precisa preservar sua essência e nunca abandonar a busca pela verdadeira arte para seguir tendências. Hoje existe uma pressão por imagens perfeitas, por parecer sempre feliz.

Mas eu sou uma pessoa real. Gosto de mostrar a vida como ela é. Já me disseram: “amo você assim, não seja perfeita”. E a perfeição, afinal, é impossível.


Sua formação foi extremamente rigorosa desde a infância. Como você olha hoje para esse
período marcado por competições?


Comecei a estudar violão por iniciativa da minha mãe, que me acompanhava todos os dias. Foi uma educação muito rígida, com muitas competições desde cedo. Quando criança, isso até pode ser divertido, mas, ao amadurecer, condicionar sua relação com a música apenas a resultados pode ser muito negativo. Hoje, aos 26 anos, estou me afastando desse modelo.

Viver só para competições é esgotante.

A mudança para Paris marcou um novo momento na sua vida?


Totalmente. Foi um recomeço. As pessoas sabiam quem eu era, mas não me conheciam de verdade. Em Paris, ainda tenho poucos contatos, porque dedico muito tempo ao estudo. Enquanto muitos estão socializando, eu estou estudando Bach, fazendo sopa para o jantar, cuidando do meu filho e do meu marido [risos]. É um equilíbrio difícil entre ser artista e mãe, esposa e profissional.


O teatro aparece de forma muito clara na sua presença de palco. Isso vem da sua mãe?


Sem dúvida. Minha mãe era atriz e me deu uma educação teatral. Eu ia a espetáculos e concertos desde criança. Aos 10 anos, precisei escolher entre teatro e música, e fiquei com a música. Mas essa influência continua no gesto, no figurino, na maquiagem, tudo de forma muito natural.


Para você, o figurino é parte essencial do concerto?


Acho bonito vestir algo que dialogue com o programa, mas o mais importante é tocar bem [risos]. Se você tocar mal, não há figurino que salve a apresentação.


Sua técnica de mão direita, com o apoio do dedo mínimo, sempre gerou debates. Como
você lida com isso?


Essa posição surgiu espontaneamente, porque o violão que eu tinha aos cinco anos era muito grande. Ouvi muitas críticas, inclusive de jurados dizendo que isso me impediria de ganhar concursos. Mas continuo tocando sem problemas [risos]. Recentemente descobri que essa posição já era usada por alaudistas antigos… veja…


[Neste momento, Vera pega o smartphone e mostra para o repórter algumas pinturas
antigas de pessoas tocando alaúde]


Talvez você tenha trazido isso de outra vida…

[risos] Sim!


Por fim, seu repertório mistura Bach, Chopin e música contemporânea. O que te atrai
nesse contraste?


Acho problemático quando intérpretes evitam a música contemporânea por conforto. Eu adoro tocar obras atuais porque elas expressam os conflitos do nosso tempo. Gosto de criar conexões entre Bach e as “loucuras” da música contemporânea. Um concerto deve funcionar como uma obra em si, deixar uma sensação marcante. Se alguém sai lembrando do que sentiu, mesmo anos depois, então algo realmente aconteceu.

Por:

Eduardo Ribeiro

Fotos: Divulgação/Cauê Diniz

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