
Nos bastidores do C6 Fest, pouco antes de subirem ao palco para uma participação especial no show dos Paralamas do Sucesso, Jorge Du Peixe e Alexandre Dengue falavam sobre aniversários importantes. De um lado, os 40 anos de Selvagem?, clássico dos Paralamas. Do outro, os 30 anos de Afrociberdelia (1996), segundo álbum da Nação Zumbi e considerado um dos melhores do país pela Rolling Stone.
Produzido por Eduardo Bid e gravado no famoso estúdio Nas Nuves, no Rio de Janeiro, o álbum ainda contou com participações de Marcelo D2 e Gilberto Gil (em "Macô") e Fred Zero Quatro, do Mundo Livre S/A, mandando o cavaquinho em "Samba do Lado".
Afrociberdelia ainda foi o último disco gravado com Chico Science e o primeiro com Pupillo na bateria — à época, a banda era formada por Chico Science (voz e samplers), Lúcio Maia (guitarra), Alexandre Dengue (baixo), Jorge Du Peixe (alfaias e percussão), Toca Ogan (percussão), Gira (alfaias), Gilmar Bolla 8 (alfaias) e Pupillo (bateria). O trabalho propunha a mistura do tambor do maracatu com riffs marcados e um toque de hip hop, consolidando a mistura fina promovida pelo Manguebeat, e ainda inclui “Maracatu Atômico” e “Manguetown”, que se tornaram clássicos no repertório da banda.
Apontando para o futuro
Três décadas após o lançamento, Afrociberdelia segue ocupando um lugar singular na discografia da banda pernambucana. Se Da Lama ao Caos (1994) apresentou ao país a potência do manguebeat, o sucessor ampliou esse universo sonoro com uma abordagem mais psicodélica, experimental e eletrônica, consolidando a identidade artística do grupo.
“É um disco presente, com personalidade. Um disco que apontou direções”, resume Jorge Du Peixe. Para ele e Dengue, um dos méritos da obra está justamente em não repetir a fórmula do álbum de estreia. “São dois momentos distintos. Muita gente coloca os dois discos no mesmo saco, mas eles são completamente diferentes”, observa o baixista.
A recusa em se acomodar sempre foi uma marca da Nação Zumbi. “Nosso modo de trabalhar sempre foi não se repetir”, completa Jorge. A filosofia atravessou toda a trajetória da banda e ajuda a explicar por que cada capítulo de sua discografia soa diferente do anterior. “Se você for ver até hoje, nada é igual a nada”, reforça Dengue.
Isso pode ser percebido na influência de outros ritmos ao longo da trajetória do grupo, que não se acostumou à mesmice. Em Rádio S.AMB.A (2000), o hardcore fica evidente em "Quando a Maré Encher", enquanto Futura, mais minimalista, traz à superfície os beats eletrônicos — sem contar a balada "Um Sonho", pautada nos riffs de Lúcio Maia, que hoje é a mais ouvida dos pernambucanos no Spotify.
As comemorações pelos 30 anos de Afrociberdelia incluíram duas noites no Theatro Municipal de São Paulo, com a Orquestra Experimental de Repertório do Municipal, sob regência do maestro Wagner Polistchuk. O espetáculo ganhou orquestração do recifense Mateus Alvez, que tinha apenas 14 anos quando o disco foi lançado. A combinação entre o repertório experimental da Nação Zumbi e os músicos da orquestra resultou em uma releitura que surpreendeu até os próprios integrantes [leia a cobertura aqui].
“Tudo se fechou da melhor maneira possível”, comenta Dengue. No palco, o baixista assumiu a posição de elo entre a orquestra e a banda, evitando ficar sempre de costas para os instrumentistas da orquestra. “Para mim foi a melhor coisa poder fazer esse papel”, lembra.
A celebração deve continuar ao longo do ano. Enquanto isso, a banda segue a todo o vapor com a agenda de festivais: eles tocam no Festival João Rock (1/8), e no Rec Festival (19/9).






