35 anos sem Vinicius de Moraes | O candomblé na vida do Poetinha

09/07/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Reprodução

09/07/2015

Vinicius de Moraes foi um homem do mundo. Em 1938, aos 25 anos, já estava morando na Inglaterra, onde trabalhou na BBC; com 30 anos, tornou-se diplomata (cargo que ocupou até 1968, quando foi cassado pela Ditadura Militar); nos anos 40, morou em Hollywood, onde ficou amigo de Carmen Miranda, e viajou muito pelos Estados Unidos, tornando-se amigo pessoal do cineasta Orson Welles e de Ahmet Ertegun (fundador da Atlantic Records, que anos mais tarde lançou o Led Zeppelin); trabalhou diversas vezes com teatro, cinema, jornais, revistas… Isso sem falar em literatura, tendo editado dezenas de livros de poesia e prosa, e em música.

Vinicius de Moraes lançou mais de vinte discos em parceria com Tom Jobim, Dorival Caymmi, Maria Creuza, Maria Bethânia, Odette Lara, Quarteto em Cy, Clara Nunes, Edu Lobo, Toquinho (seu maior parceiro) e Baden Powell, com quem lançou o mais religioso de seus álbuns, Os Afrosambas (1966).

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Baden Powell e Vinicius, em 1965

Baden Powell e Vinicius, em 1965

Em 1962, Vinicius e Baden moraram juntos no Rio de Janeiro por três meses. Foram poucas semanas regadas a muito álcool e samba e, dessa experiência, saíram todos as faixas que, quatro anos depois, seriam lançadas no Os Afrosambas. Todas elas eram grandes homenagens aos orixás e à musicalidade entranhada nos ritos do candomblé. A mistura do samba virtuose de Baden com o tempero baiano do candomblé sugerido por Vinicius resultou nesse disco que marcou a música brasileira para sempre, trazendo o grande sucesso “Canto de Ossanha” e outras canções incríveis como “Tempo de amor”, “Tristeza e Solidão” e “Canto de Xangô”. Diz a lenda que Vinicius havia ficado muito impressionado com um disco de música de candomblé que havia ouvido na época e convidou Baden Powell a embarcar nessa sonoridade junto com ele.

Curiosamente, levaria mais um tempo até que Vinicius de Moraes se envolvesse de forma mais contundente com a religião afro-brasileira. Essa relação se aprofundou quando o poeta se casou com sua sétima esposa, a atriz Gessy Gesse. Em 1970, eles se mudaram para a Bahia imersos em um romance influenciado pela contracultura hippie e o misticismo do candomblé, religião da qual Gessy era devota. Juntos, eles viveram em Salvador nos anos seguintes – ainda que viajassem muito em função dos shows que Vinicius já vinha fazendo com Toquinho. No início dos anos 1970, o poeta passou a usar guias de orixás em seu peito e vestir-se muitas vezes de branco.

O casamento de Vinicius e Gesse

O casamento de Vinicius e Gesse

Vinicius, Gesse Gessy e Mãe Menininha do Gantois

Vinicius, Gesse Gessy e Mãe Menininha do Gantois

Essa aproximação com a religião foi marcada pela música “Tatamirô”, uma parceria com Toquinho dedicada a Mãe Menininha do Gantois. Neta de escravos, Mãe Menininha coordenou até 1986, quando morreu, o Terreiro do Gantois, fundado por sua bisavó, Maria Júlia da Conceição Nazaré, em 1849. Vinicius, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Dorival Caymmi visitavam-a frequentemente, além de personalidades menos nobres, como o político Antonio Carlos Magalhães.


Apesar de tudo isso, na última entrevista que deu, em 1979, Vinicius de Moraes mostrou-se cético e quase ressentido. Conversando com o jornalista Narceu de Almeida Filho poucos meses antes de morrer, Vinicius disse: “Eu me interesso por candomblé, certas superstições. Isso é sinal de que tem algum fogo na cinza. Mas aqui, na cuca, não tenho mais grandes indagações. Ao mesmo tempo, me recuso a elas um pouco. Não me interesso mais por coisas que não sei explicar”. Quando Almeida Filho lhe perguntou se ele acreditava no candomblé, ele respondeu:

– Eu prefiro acreditar do que não acreditar, mas realmente não acredito. Quando penso de modo puramente cerebral, não acredito. Deixei também de fazer aquele gênero de indagações, olhar para o céu e perguntar: “Onde está Deus? Afinal alguém fez esta merda toda, não foi?” Mas jamais vou ter respostas a essas perguntas, a não ser talvez depois da morte. Mas também não sei o que há do outro lado, de modo que não penso mais nessas coisas. Além disso, à medida que fui perdendo a religiosidade e o misticismo, o ser humano cresceu muito em mim, tomou conta de tudo. O que me interessa hoje é gente.

Filho de Oxalá, Vinicius de Moraes morreu no dia 9 de julho de 1980, em sua casa na Gávea, ao lado de Gilda Mattoso (sua nona esposa) e de Toquinho, com quem lançou naquele ano seu derradeiro disco, Um pouco de ilusão. Ouça abaixo “Amigos Meus”, lançada nesse disco:

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09/07/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes