80 anos de Geraldo Vandré | O que diz o autor da sua biografia não-autorizada

12/09/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Alberto de Abreu Sodré

12/09/2015

Por muitos anos, apenas falar o nome “Geraldo Vandré” já era algo perigoso. Tão logo a Ditadura Militar decretou o autoritário Ato Institucional nº 5, em 1968, o compositor de “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores” começou a sofrer ameaçadas de membros do DOPS e do grupo paramilitar Comando de Caça Aos Comunistas, o que motivou seu exílio no Chile e, depois, na Europa. É o que conta Jorge Fernando dos Santos, autor da nova biografia não-autorizada pelo músico: Vandré – O homem que disse não.

O livro está sendo lançado hoje (aniversário de 80 anos do músico) na 11ª Feira Internacional do Livro de Foz do Iguaçu, cidade onde Geraldo Vandré morava em 1982, quando fez seu último show oficial (que foi no Uruguai). Dois anos depois, ele cantaria ainda para os funcionários da Usina de Itaipu, mas sua carreira acabou mesmo por volta de 1973, quando retornou do exílio e lançou seu último disco, Das Terras de Benvirá.

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Antônio Gaudério/ Folhapress

Depois disso, o músico passou a exigir ser chamado de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, pois, para ele, Geraldo Vandré já havia morrido. Com o passar do tempo, ele foi demonstrando uma surpreendente paixão pelas Forças Armadas,em especial, pela Aeronáutica. A última música composta por Geraldo que se tornou pública foi uma homenagem à Força Aérea Brasileira, que até hoje lhe abriga em suas instalações quando o músico quer passar um tempo no Rio de Janeiro.

De inimigo musical nº 1 da Ditadura Militar, Geraldo passou a ser amigo de vários militares, mas nem assim voltou a cantar. No ano passado, ele subiu no palco da Joan Baez a convite da cantora, e nem isso lhe motivou a cantar um verso sequer. Veja o que Jorge Fernando dos Santos tem a dizer sobre o artista que é uma das maiores incógnitas da música popular brasileira.

Como surgiu o projeto dessa biografia?
Estreei em jornal escrevendo sobre o Vandré. Foi em 1979, quando venci um concurso de artigos sobre ele, promovido pelo colunista de música do antigo Jornal de Minas. Por causa disso eu acabei me formando em comunicação. Desde 1982 que sobrevivo como jornalista e escritor. Além do mais, sou fã do Vandré e sempre ouvi suas músicas. Tenho 40 livros publicados em diversos gêneros e sou um bom leitor de biografias. Há algum tempo vinha procurando um personagem para biografar e acabei me decidindo por ele. Sou também compositor e Vandré foi uma influência desde o começo, quando eu participava de festivais.

Geraldo está ciente do seu livro? O que ele achou do seu projeto?
Tão logo decidi escrever o livro, tentei fazer contato com ele através de dois amigos dele. Ambos o consultaram e a resposta foi a mesma: Geraldo não quer biografias e manda dizer que, se quisesse, ele mesmo a escreveria. Com certeza ele vai odiar o livro, mas isso não me preocupa. Escrevi com responsabilidade e respeito pelo que ele representa. Os leitores é que fazem o melhor julgamento da obra literária e acredito que muitos vão gostar.

Como foi o trabalho de pesquisa? Você entrevistou 47 pessoas que conviveram com o Geraldo, correto? Quem foram essas pessoas? Quanto tempo você demorou para fazer o livro?
Ouvi pessoas que de alguma forma são ou foram ligadas a ele. Ouvi músicos, parceiros, ex-colegas de faculdade. Entre os nomes de maior destaque estão Carlos Lyra, Roberto Menescal, Cynara, Sérgio Ricardo, Marcos Valle, Xico de Carinho, Darlan Ferreira, Fahid Than Sab, Saldanha Rolim, Sula Mavrudis e Joan Baez. Comecei a escrever em dezembro de 2013 e finalizei no primeiro semestre deste ano. Outra das minhas fontes de pesquisa foi o livro Uma canção interrompida, do jornalista Vitor Nuzzi. Consegui com ele o original antes da publicação dos 100 exemplares lançados recentemente. Outro dia ele me disse que vem aí uma edição comercial pelo selo Kuarup e desde já recomendo a leitura aos fãs do Vandré… Seu livro adiantou algumas informações e confirmou outras que eu já havia obtido.

O pai de Geraldo foi militante do PCB e suspeito de incendiar o quartel do 15º Regimento de Infantaria de João Pessoa, correto? Que influência seu pai teve na visão política de Geraldo?
Acredito que o Dr. José Vandregíselo de Araújo Dias passou ao filho uma visão política de esquerda, porém muito humanista. O cenário político da Paraíba desde a Revolução de 1930 também deve ter influenciado o espírito contestatório do artista. Aliás, suas canções têm a força da cultura nordestina e nunca se furtam a falar da realidade que ele conheceu desde a infância, quando estudou no Ginásio São Jose, em Nazaré da Mata, interior de Pernambuco.

“Pra não dizer que não falei das flores” se tornou um dos maiores hinos contra a Ditadura e chegou a ser interpretada como um apoio à luta armada. Para você, essa música realmente foi feita com esse objetivo?
Não. Vandré apenas escreveu uma crônica inspirada na passeata dos 100 mil, que ele assistiu de cima de um prédio. Por outro lado, fez a música pra ganhar o 3º FIC (Festival Internacional da Canção), em 1968. Ficou em segundo lugar, mas foi o favorito do público. Os estudantes de esquerda transformaram “Caminhando” num hino contra a repressão e isso aumentou o ódio dos militares pelo compositor, que há havia vencido festivais com canções muito melhores, como “Porta Estandarte” e “Disparada”, feita em parceria com Theo de Barros.

O período entre 1968 e 1973 é bem nebuloso na vida do músico. É de conhecimento público que ele se auto-exiliou no Chile e, depois, na França. O que você descobriu sobre esse período?
Após a decretação do AI-5, Vandré passou a ser ameaçado por homens ligados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e agentes do antigo DOPS. Com a prisão de Gil e Caetano, ele passou a temer pela própria vida. Ajudado por amigos, fugiu pra Santiago do Chile. Depois percorreu a Europa quase como um artista mambembe. Ficou em Paris por um tempo, onde gravou seu último disco, Das terras de Benvirá. Vandré deixou a carreira depois de voltar ao Brasil. Sua obra continuava censurada, o país vivia o auge da Ditadura Militar e a cultura de massa tomava conta do cenário artístico. Então, ele fez seu maior ato de protesto, que foi abandonar a carreira e se recusar a interpretar o papel de mártir e herói da esquerda.

Há muita especulação sobre uma suposta prisão (e tortura) que Geraldo teria sofrido antes ou depois do exílio. Em entrevista ao Geneton Moraes (em 2010), ele negou que isso tenha acontecido. O que você apurou sobre essa história?
Amigos dele, sua ex-mulher e ele próprio afirmam que a história da prisão e da tortura nunca foi verdadeira. Vitor Nuzzi afirma que não encontrou documentos a respeito disso nos arquivos da repressão. O nome do artista não consta em nenhum relato sobre torturas, inclusive não está no livro Tortura nunca mais. Portanto, não há nenhuma evidência de que ele esteja mentindo a respeito disso.

Existe a história de que, em 1973, o músico apareceu no Jornal Nacional defendendo a Ditadura. A que você atribui essa atitude dele?
Realmente, ele gravou uma retratação pública por exigência dos militares. Esse foi o preço para que pudesse voltar ao Brasil. Sua volta, inclusive, foi garantida pelo general Taurino, amigo de sua família. Ele explicou que nunca fez parte de grupos políticos ou subversivos, afirmou que suas músicas eram todas de amor – o que já havia declarado mais de uma vez à imprensa muito antes do festival de 1968. A Ditadura usava o dispositivo das retratações para desmoralizar a oposição armada que enfrentava o regime. Diante do comportamento do Vandré, em aceitar uma coisa dessas, ele passou a ser mal-visto pela esquerda, inclusive por pessoas do meio artístico. Mas acho que o julgamento foi precipitado. Vandré sempre foi coerente no seu discurso. Até hoje ele briga na Justiça para que o governo retire a pecha de anistiado. Podia estar ganhando uma grana, caso se fizesse de vítima. No entanto…

Foto inédita do músico que não entrou na biografia. O registro foi feito por João Batista Silveira, em 1984, na cidade mineira de São Sebastião do Paraíso.

Na sua visão, por que Geraldo nunca mais voltou aos palcos?
Acho que essa decisão se deu principalmente pelo predomínio da cultura de massas em nosso país. Aliás, ele explicou isso em várias entrevistas.

Geraldo foi muito crítico à Ditadura, porém, sua última música conhecida, “Fabiana”, é uma homenagem à Força Aérea Brasileira. Houve uma mudança na visão de Geraldo perante as Forças Armadas? Por quê?
“Fabiana” não chegou a ser gravada. Não que eu saiba. Foi apresentada pelo Coral de Cadetes da FAB, nas comemorações da Semana da Asa, em São Paulo. Vandré tentou tirar o brevê de aviador e foi reprovado no exame psicológico. Desde então, passou a se tratar num Hospital de Base. Tornou-se amigo de oficias da Aeronáutica. Ele diz que os militares de hoje nada têm a ver com as Forças Armadas que deram o golpe, em 1964. Nisso ele tem razão. E também afirma que o golpe não foi militar, mas civil-militar, já que as Forças Armadas estavam atendendo os apelos reacionários de donas de casa, banqueiros, industriais, fazendeiros e de uma parcela da Igreja. E lembro aqui as pressões e o apoio dos Estados Unidos. Acho que ele tem razão também sobre isso. Tenho me perguntado por que a Comissão da Verdade não investigou os empresários que financiaram a repressão nos anos de chumbo.

Que relação o músico mantém com as Forças Armas atualmente?
Ele tem amigos nas três armas. Gente que nada teve a ver com o golpe militar. Ele nunca se disse um anti-militar e sempre foi um patriota. Tanto que mantinha uma bandeira nacional na cabeceira de sua cama, em Santiago do Chile. Por outro lado, essa mania de hostilizar os militares é uma coisa equivocada. Afinal, Gregório Bezerra e Luiz Carlos Prestes foram militares. E tiveram aqueles que desertaram das Forças Armadas por não concordar com o golpe de 1964. Alguns deles foram fazer a guerrilha do Caparaó. E houve ainda aqueles que se mantiveram dentro da legalidade quando o golpe foi deflagrado. Muitos pagaram caro por isso.

O que levou ao encontro de Geraldo com Joan Baez no ano passado?
Joan Baez tentou encontrá-lo em 1982, quando esteve no Brasil pela primeira vez e foi proibida de fazer shows. Mesmo assim, cantou para públicos reduzidos em locais não divulgados pela imprensa. Ela interpretou “Caminhando” e tentou falar com o Vandré, pois gostaria de gravar a música. Naquela época, chegou a fazer uma gravação caseira. Darlan Ferreira foi quem descobriu essa gravação e mostrou a ele. Quando ela voltou ao Brasil, em março de 2014, finalmente se conheceram graças à intermediação do jornalista Assis Ângelo, que foi quem apresentou Darlan a Vandré. Os três são grandes amigos.

Como Geraldo vive hoje?
Geraldo vive da aposentadoria de fiscal da antiga Sunab, paga pela Receita Federal. Ele rasga os cheques de direitos autorais dizendo-se roubado. Vive geralmente recluso no apartamento que tem em São Paulo ou na casa da irmã, em Teresópolis. Quando vai ao Rio, hospeda-se no Hotel da Aeronáutica. Raramente aparece em público, detesta entrevistas e homenagens. Apresenta-se como Geraldo Pedrosa, seu nome verdadeiro, e sempre afirma que Geraldo Vandré já morreu.

Geraldo no Clube de Aeronáutica (Márcia Foletto / Agência O Globo)

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12/09/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes