Entrevista | Boubacar Traoré, um herói africano

18/08/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

18/08/2015

O Deserto do Saara cobre mais da metade do território do Mali, já a música cobre o país inteiro. Essa nação do norte africano reúne uma quantidade imensa de gêneros que nasceram a partir do desenvolvimento de instrumentos artesanais, como, por exemplo, a kora (uma espécie de alaúde com 21 cordas muito popular na África ocidental). O curioso é que há uma forte relação entre a música típica do Mali e a sonoridade do blues dos Estados Unidos – tanto que existe o termo “desert blues” para se referir a esse som. Ali Farka Touré, chamado de “John Lee Hooker africano”, talvez tenha sido o mais famoso artista dessa vertente, mas a lista de músicos importantes para esse cenário é extensa. O casal de cegos Amadou & Mariam, que inclusive fez um disco com Manu Chao, está inserido nesse contexto, assim como as dezenas de artistas que participam do projeto Africa Express, capitaneado por Damon Albarn.

Aos 73 anos, Boubacar Traoré é amigo de todos esses músicos e é também uma lenda da música do Mali. Em novembro, ele virá ao Brasil pela primeira vez para se apresentar no Rio de Janeiro e em Olinda como parte da programação do Festival MIMO. Traoré está vindo divulgar seu álbum mais recente, Mbalimaou (2015), um dos poucos que ele gravou, apesar de sua carreira remontar os anos 1960. “Logo que comecei, fiquei muito popular rapidamente. Foi na época da independência, era 1962 e ouvia-se de tudo nas rádios do Mali. Eu me senti muito privilegiado por fazer sucesso naquela época”, contou em uma rápida entrevista à NOIZE.

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O Mali só deixou de ser uma colônia da França em 1960 e Boubacar se lançou na música bem nesse momento. Gravar um disco naquela época era praticamente impossível no Mali, mas Traoré consegiu registrar no estúdio de uma rádio as faixas “Mali Twist” e “Kayes Ba”, que estouraram no país. O músico ficou conhecido pelo apelido de Kar Kar, que significa algo como “aquele que dribla muito” na língua bambara, pois, além de músico, ele também jogava futebol.

Acontece que a estabilidade política durou pouco no Mali e a carreira de Boubacar sofreu com isso. Em 1968, o presidente Modibo Keïta foi deposto por um violento golpe militar de Moussa Traoré (militar que ficou no poder até 1991). Associado ao curto período de democracia independente, Boubacar perdeu espaço e acabou tendo que se afastar da música profissional por décadas. Ele deixou a capital Bamako e voltou para sua cidade natal, Kaynes, onde sobreviveu trabalhando como comerciante. Muitas pessoas se chocaram quando o viram em um programa de TV no Mali em 1987, pois, na época, circulava a história de que ele haveria morrido.

Depois dessa ocasião, Traoré foi morar na França onde, após um tempo trabalhando na construção civil, foi descoberto por um produtor inglês que o ajudou a gravar seu primeiro disco, Mariama (1990). “Mesmo depois de tudo que aconteceu, nunca perdi a minha identidade. Minha música reflete a minha personalidade e a minha trajetória. Até hoje, quando as pessoas escutam uma canção minha, percebem logo que é o ‘Kar Kar'”, comenta.

Atualmente, Boubacar Traoré é um dos maiores símbolos da riqueza musical do Mali. Mesmo que o país esteja sendo alvo de conflitos sangrentos entre grupos que apoiam e combatem o governo atual por questões políticas, étnicas e religiosas, Boubacar é muito otimista sobre o futuro do Mali e de sua cultura única: “Foi a nossa música que nos levou a fazer sucesso fora do país, continuamos em turnê e isso ajuda o Mali a ser conhecido lá fora. Existem grupos radicais que agem com violência, mas não os acompanho muito porque estou sempre em turnê. O avanço da violência está em todo lugar e não só no Mali. Isso não afeta minha música. Temos muito esperança porque a música vai muito bem”.

Em 2015, o Festival MIMO acontece em Paraty (de 2 a 4/10), Rio de Janeiro (13 a 15/11) e em Olinda (20 a 22/11). Acompanhe a programação completa do evento aqui: www.mimo.art.br

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18/08/2015

Editor
Ariel Fagundes

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