
“Eu sinto que, hoje, a gente dança muito na beira do abismo.” É assim que Juliana Linhares define os sentimentos que atravessam Até Cansar o Cansaço, segundo álbum lançado em 08 de maio, composto por músicas autorais e releituras de Elino Julião ("O Rabo do Jumento"), Manduka (“Conseguiram parabéns”) e do clássico "A Palo Seco", de Belchior.
Após Nordeste Ficção (2021), trabalho que tensionava imaginários sobre o Nordeste e consolidava sua força cênica na música brasileira contemporânea, a artista potiguar retorna com um disco que transforma exaustão em movimento, sonho em linguagem e performance em resistência.
Ao longo de onze faixas, Juliana constrói uma obra que transita entre o colapso e o onírico. O disco atravessa temas profundamente contemporâneos, como excesso de informação, desgaste emocional, scroll infinito, sensação constante de urgência. Tudo isso sem cair na anestesia do próprio cansaço.
Há sempre alguma coisa pulsando. As músicas dançam mesmo quando estão feridas. O título do álbum sintetiza isso: cansar o próprio cansaço até que ele perca o domínio sobre o corpo.
E, talvez, seja justamente o corpo o elemento central do trabalho. Não apenas porque Juliana também é atriz, mas porque Até Cansar o Cansaço parece ser encenado o tempo inteiro. Cada faixa ocupa um espaço físico imaginário.
A voz rasga, sussurra, ri, suspira, acelera e desacelera como quem interpreta emoções antes mesmo de cantá-las completamente. A performance não aparece apenas na presença vocal, mas na própria arquitetura das músicas, que alternam momentos febris e dançantes com passagens melancólicas e suspensas.
A atmosfera do disco nasce, também, da construção sonora. As segundas vozes, as percussões e as frases que parecem se atropelar ou se encavalar criam uma sensação quase tátil. Diferente das vozes mais limpas de Nordeste Ficção, aqui Juliana busca camadas. “Queria mais camadas mesmo, ser muitas”, explica.
As participações de Ney Matogrosso, Agnes Nunes e Anastácia ampliam ainda mais essa sensação de travessia coletiva, como vozes que surgem para expandir os caminhos emocionais do álbum.
Em entrevista à Noize, Juliana Linhares fala sobre a construção sonora de Até Cansar o Cansaço, a influência da interpretação e da performance sobre o disco e as parcerias estabelecidas no álbum.
O álbum inteiro parece funcionar em contraste: dança e exaustão, sonho e realidade, esperança e colapso. Viver nessa tensão entre opostos foi uma escolha para Até Cansar o Cansaço?
Essa foi uma escolha intuitiva, porque essa tensão já estava morando comigo antes de virar conceito. Estamos vivendo uma época em que tudo acontece ao mesmo tempo: excesso de informação, medo, desejo, ansiedade, vontade de desaparecer e necessidade de continuar vivendo.
Eu sinto que, hoje, a gente dança muito na beira do abismo. Tem alguma coisa profundamente cansada no nosso tempo, mas também existe uma insistência da vida, porque ter esperança é necessário para encaminharmos o que nasce e caminharmos com o que nasce.
No meio do meu processo criativo, de muitas e longas viagens e shows, veio um convite para uma residência com a Cia. Brasileira de Teatro e o cientista Sidarta Ribeiro. Perto deles, entendi o sonho como tecnologia ancestral de criação de futuro e entendimento do presente; mexemos os corpos e fizemos teatro. Isso me atravessou profundamente.
Talvez, hoje, sonhar seja uma das últimas formas de resistência sensível que a gente tem. E se tornou um privilégio de quem consegue descansar e tomar consciência sobre si. Quis fazer um álbum que não negasse a exaustão, mas que também não entregasse o corpo a ela.
Existe uma presença muito forte da performance no disco, como se cada música também estivesse sendo encenada pela voz. O quanto sua trajetória como atriz mudou a forma como você canta e constrói um álbum?
Eu costumo dizer que só sou cantora porque antes sou atriz. Foi o teatro que me formou artisticamente e me ensinou a pensar a voz para além da técnica: como presença, palavra, intenção, dramaturgia. Antes mesmo de cantar, eu aprendi a dizer. A entender o peso emocional de uma frase, a respiração de uma cena, a escuta coletiva que existe no palco. Isso atravessa completamente a forma como construo um álbum. Cada música pede um corpo e uma temperatura diferentes. Tem canções que precisam soar íntimas, outras que pedem excesso, vertigem.
E eu partilho a necessidade de tempo e pesquisa que o teatro exige. Não podemos perder a possibilidade de ter tempo para criar. E, também, a noção profunda de coletividade, de que a experiência artística acontece entre as pessoas. Acho que esse disco foi construído como uma travessia emocional compartilhada, principalmente com os parceiros que estavam próximos do meu dia a dia.
Sua voz atravessa o disco de formas muito diferentes: um agudo que rasga, às vezes sussurra, às vezes quase assombra, às vezes fala e recita. Como você trabalhou essas variações vocais para criar esse universo tão onírico?
Tentei pensar a voz como matéria de sonho. Eu queria que ela tivesse essa qualidade meio instável e mutante dos sonhos: às vezes muito íntima, às vezes fantasmagórica, às vezes em êxtase. Pensava num arco entre cansar, dormir, sonhar, ter pesadelos, acordar, assustar, ter medo, voltar a si, entender as necessidades do corpo, voltar a dormir melhor, sonhar em paz, enfim, acordar. Tem momentos em que a voz acolhe e outros em que ela desorganiza.
Isso conversa muito com o estado emocional contemporâneo também, bombardeado por excesso de informação, ansiedade e estímulo. Mas, no fundo, eu queria que o disco trouxesse vida, cor, acolhimento, alento para as pessoas. Revirar um pouco a consciência para o agora, como acordar de um pesadelo, mas também fazer dormir com mais esperança e, ainda, ter a fé de acordar pra dança.
Mesmo falando de exaustão, o disco nunca soa paralisado; ele parece querer colocar o corpo em movimento o tempo inteiro. Por que a dança virou uma linguagem tão importante para falar sobre cansaço?
A dança, pra mim, é um lugar muito profundo de pesquisa e entrega. É onde meu corpo atravessa o limite do controle e transforma exaustão em presença. É também jogo e brincadeira; vejo adultos brincando enquanto dançam – e gosto disso. Tenho feito aulas de improvisação em dança, e lá na parede da sala tem uma frase: “Ir pro corpo é sair do medo”.
E isso me interessa política e poeticamente. Penso sempre no momento em que estamos vivendo no Brasil, penso na saúde mental das pessoas e lembro do quanto nossas festas populares são espaços de organização coletiva, onde cantamos e dançamos juntes. E questiono até cansar o cansaço, porque a gente precisa descansar o cansaço também. Mas é aí que a dança entra com mais força no conceito: a necessidade da conexão do sentir que dá sentido.
No suor da dança, o corpo brilha, e a gente desliza, se conecta com ancestralidades, se desprende do ego. Então eu quis um disco em movimento. Um disco em que o corpo estivesse presente o tempo inteiro, sendo convidado a mover.
As participações de Ney Matogrosso, Agnes Nunes e Anastácia não soam apenas como feats, mas como presenças que ampliam, além de musicalmente, também emocionalmente o álbum. O que cada encontro acrescentou à narrativa que você queria construir?
Foram encontros muito emocionantes e simbólicos pra mim. Ney é ídolo de infância, rei na minha casa. Quando ele entra numa música, cria uma espécie de desvio, de vertigem. Tem algo muito teatral nele, ele é do palco, como eu. Me reconheço na performance, no desejo vivo que ele tem. Num disco de sonhos, ele é um sonho imenso.
Agnes traz uma delicadeza luminosa. Ela tem uma presença mágica, sou encantada por ela. Existe uma doçura que atravessa o caos e enche meus olhos. Anastácia representa uma memória afetiva muito forte da música nordestina. É uma das principais compositoras mulheres que temos, abriu caminhos importantes para nós, segue cheia de energia, com uma voz grande.
Este também é um disco sobre o meu coração, mais intuitivo e emocional. Achei curioso pensar em artistas com mais de 80 anos que seguem cansando o cansaço do etarismo, das oportunidades, misturados a uma jovem de 24 anos que nos dá ânimo para continuar acreditando no nosso fazer. E quero ser como eles. Há ainda minha mãe, minha vó e minha madrinha, que se somam comigo na “Oração pro Sonho”. Uma ancestralidade de fé pra colocar futuro no final do disco.







