luisa matsushita aberto solo

Luísa Matsushita transforma a noite em pintura no Cultura Artística


Por:

Damy Coelho

Fotos: Erika Mayumi, Pedro Bucher/Divulgação

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Luísa Matsushita viu na noite mais do que encontros, fonte de trabalho ou diversão. Ela encontrou inspiração. Tudo o que eu sei, eu aprendi à noite é o tema da exposição da artista no projeto ABERTO Solo, do Teatro Cultura Artística, em São Paulo. É possível visitá-la até domingo (27/9). A mostra reúne uma nova série de pinturas, esculturas, cadernos de anotações da artista e ocupa de forma inédita o espaço do teatro no primeiro e segundo andar, respeitando o projeto arquitetônico pensado por Rino Levi, que idealizou a Cultura Artística também para ser um espaço de exposições de arte.

Essa é a segunda exposição de Luísa, que mergulhou no ofício da pintura após sua saída do CSS em 2013, no mesmo ano em que lançaram o último disco, Planta. A pintura, no entanto, não surgiu "do nada": Luísa sempre flertou com outras manifestações de arte para além da composição: desenhou, aprendeu a costurar aos 14 anos e, aos 16, já estava em São Paulo trabalhando com moda. “Fazer coisas com as mãos e pensar através da imagem sempre esteve presente na minha vida”, conta. Foi em 2013 que começou a pintar com tinta a óleo. “Eu tinha a sensação de que alguma coisa iria se revelar para mim através dessa prática e do aprendizado que viria com ela. Eu simplesmente queria pintar, e foi assim que comecei", diz ela, em entrevista à Noize.

Não é de se estranhar que a carreira de Luísa seguisse esse caminho, já que ela assinava capas dos discos, figurinos e outras criações visuais do CSS. A experiência com a música, portanto, sempre esteve atrelada à criação visual. Aliás, essas duas formas e criatividade não são separadas para ela. “Quando eu estava na banda, eu não pensava em mim como uma artista plástica fazendo aquelas coisas. Eu estava na banda e fazia o que dava para fazer dentro daquela vida”, explica.

Quando decidiu que a pintura seria sua atividade principal, comunicou a decisão à banda e cumpriu os compromissos que já estavam marcados antes de deixar o grupo. Depois, passou por outras experiências, incluindo pesquisas relacionadas à agroecologia, até estabelecer o ateliê como centro de sua rotina. Hoje, trabalha na zona oeste de São Paulo.

É desse percurso, mas sem tentar criar uma linha contínua entre todas essas experiências, que parte Tudo que eu sei, eu aprendi à noite. A exposição passeia por quadros, esculturas e anotações de Luísa que mostram os desenhos de algumas obras. As pinturas mostram a inspiração nas texturas e cores que se relacionam com o imaginário noturno— o veludo do quadro "Espiral de Veludo" e o bordô de alguns trabalhos são alguns exemplos—, e mostram uma inclinação da artista pela expectativa do que a noite pode proporcionar, como nos trabalhos "Antes da Noite", "Fila do Baile" e "Três Abraços", que fazem pensar nos encontros que a noite proporciona.

A interpretação, porém, vai da imaginação do visitante, já que as obras trabalham com abstração, tendo curvas e tons em dourado e branco persistentes no trabalho. Talvez seja justamente por isso que os títulos tenham tanto peso na mostra: para Luísa, eles são pistas, não respostas. “Eu adoro pensar neles. Às vezes, são micropoesias. Não quero que o título explique a pintura, mas que acrescente alguma coisa, que abra uma possibilidade de leitura", resume.

O dia não sustentou o que a noite esboçou, 2026, Luísa Matsushita.
O dia não sustentou o que a noite esboçou, 2026, Luísa Matsushita.

A natureza também é fonte de inspiração, especialmente as plantas. Fãs de CSS podem lembrar do derradeiro disco do grupo, que leva este nome, mas Luísa não vê necessariamente uma continuidade entre as duas linguagens. “O fato de uma planta, um corpo ou a noite aparecerem em momentos distintos da minha vida não significa, para mim, que exista uma continuidade entre o que eu fazia na música e o que faço na pintura. São coisas que me interessam e que fazem parte do meu repertório, então naturalmente podem reaparecer."

E a música? Mesmo não sendo mais ofício, a música segue na vida de Luísa de outras formas: por exemplo, no ateliê, quando coloca um som para ouvir enquanto trabalha. "Mas também pode ser um audiobook", conta. Sem a pressão de colocar a música em primeiro plano, hoje ela sabe como as duas formas de arte afetam sua vida. "Para mim, música e pintura ocupam lugares muito diferentes. A música surgiu de um lugar de diversão, de espontaneidade, de estar com outras pessoas e fazer alguma coisa juntas. A pintura ocupa um lugar de muito propósito e investigação para mim. É uma prática à qual me dedico com muita disciplina e que levo muito a sério."

Para ela, inclusive, a inspiração mora na própria prática: “É um trabalho como qualquer outro: você vai para o ateliê, trabalha, olha, faz, erra, volta no dia seguinte e continua", diz, lembrando-se de uma frase da artista Adriana Varejão: "falou uma vez, que, se a gente soubesse onde fica a fonte da inspiração, estaria lá embaixo dela bebendo. Eu penso muito assim. Não sei se acredito muito em inspiração", explica.

A mostra é a primeira edição do ABERTO Solo e inaugura também o espaço expositivo do Cultura Artística. Concebida especialmente para o edifício de Rino Levi, ela parte da relação de Luísa com o entorno do teatro e com a noite do Baixo Augusta, região onde viveu no início da carreira. O próprio Cultura Artística, localizado nas beiradas da praça Roosevelt, fazia parte dessa paisagem da noite paulistana. “Toda vez que eu ia fazer uma visita técnica, lembrava muito da época em que morei ali perto e das experiências que aquele pedaço da cidade evoca para mim”, conta.

Filipe Assis, responsável pela curadoria, resume a relação entre artista e espaço: “Não é uma exposição que simplesmente foi instalada ali: ela nasce daquele entorno", resume. A mostra é também uma forma que a artista encontrou de aproximar dois mundos aparentemente distintos, o ambiente erudito do teatro x a vida pulsante e alternativa de seu entorno. Essa interpretação pode ser levada também para a relação que música e pintura ocupam na vida da artista: paixões distintas que nascem da mesma fonte que ela segue bebendo - para a nossa sorte.

ABERTO Solo | Luísa Matsushita | Cultura Artística

Período de visitação: até 27 de setembro de 2026

Local: Cultura Artística | Rua Nestor Pestana, 196, Consolação, São Paulo, SP

Por:

Damy Coelho

Fotos: Erika Mayumi, Pedro Bucher/Divulgação

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