
Heitor Villa-Lobos, Carlos Gomes e tantos outros ajudaram a projetar o Brasil no cenário da música clássica, tornando-se referências incontornáveis dentro e fora do país. Ainda assim, enquanto esses artistas consolidaram seu espaço no mundo erudito, mulheres fundamentais, como Chiquinha Gonzaga — compositora de “Abre Alas” e a primeira mulher negra a reger uma orquestra — permanecem em segundo plano na história.
Mudar esse cenário é um dos sonhos de Andrea Botelho, a primeira mulher a comandar Westpfälzischen Sinfonieorchester, tradicional orquestra alemã, localizada no sul do país. Com 30 anos de carreira, ela assumiu o cargo em janeiro deste ano. “Quando subo ao pódio, sei que não estou ali sozinha; carrego todas comigo, as que vieram antes de mim e as que virão”, diz.
Maestra, pianista, compositora e pesquisadora, Andrea divide o dia a dia da orquestra com o trabalho de curadora da série Komponistin! (“Compositora!”) e membro do conselho do renomado arquivo Frauen und Musik (“Mulheres e Música”), resgatando o trabalho de mulheres negligenciadas no meio erudito. “Não basta colocar uma mulher no pódio uma vez por ano, no Dia Internacional da Mulher, e achar que o problema está resolvido. A diversidade não é um "favor", mas uma necessidade para a sobrevivência da própria música”.
Defensora das conexões entre a música brasileira e a alemã, Andrea fundou, no ano passado, a Brasil Orchester Berlin. Reunindo músicos de diferentes origens e trajetórias, a iniciativa nasce com o propósito de ampliar o diálogo entre os dois países e levar o repertório brasileiro além das fronteiras, expandindo sua presença nos palcos europeus.
Nas plataformas digitais, é possível ter um gostinho do seu trabalho com os álbuns: Women and the Double Bass (2025) — com peças 100% de compositoras femininas — e Cantata Ayabás (2025) — celebrando o repertório afro-brasileiro — “A música de concerto brasileira atual está abraçando nossas raízes sem o pedantismo do passado”, afirma.
Aos 52 anos, Andrea compartilha seu manifesto de vida: “Dedico-me às mulheres na música para devolver à humanidade a parte da história ocultada por séculos de silêncio. Acredito que o mundo só encontrará sua verdadeira harmonia com todas as presenças, em plena igualdade e diversidade”. Confira entrevista completa abaixo:
Como é sua rotina atualmente? O que as pessoas normalmente não imaginam sobre o trabalho de uma maestra?
A rotina de um profissional da minha área vai muito além do momento em que subimos ao pódio e erguemos a batuta. O que o público vê é apenas a ponta do iceberg, o resultado final de de um trabalho solitário e profundo que dura meses antes. Passo horas em silêncio, estudando partituras, fazendo análises harmônicas, decidindo arcadas para as cordas e compreendendo a arquitetura da obra. Também têm as questão da gestão da orquestra, do contato com intendentes, compositores, teatros, para deixar tudo estruturado, muito antes do primeiro ensaio com os músicos.
Além disso, como pesquisadora e gestora no Archiv Frau und Musik e líder da Brasil Orchester Berlin e da Westpfälzisches Sinfonieorchester, passo muito tempo transcrevendo obras, pesquisando e cuidando da logística cultural. As pessoas não imaginam que a maior parte da música acontece no absoluto silêncio de uma sala de estudos, e com muitos trabalhos administrativos de grande responsabilidade, muito antes do primeiro ensaio.
Você é a primeira mulher à frente desta orquestra tradicional alemã. Como você recebeu a notícia de que assumiria essa posição?
Quando fui escolhida como a nova regente titular da Westpfälzische Sinfonieorchester (WSO) em Kusel, senti um misto de alegria profunda e tristeza, pois esse fato denota a ainda falta de igualdade de gênero na minha profissão. A experiência tem sido transformadora, pois estou sendo muito acolhida por todos da orquestra.
Você sentiu o peso simbólico de ser a primeira mulher neste cargo? Isso trouxe mais pressão ou mais motivação?
Com certeza senti o peso, mas eu transformo esse peso em combustível. A pressão existe, até porque essa carreira é uma das mais difíceis no âmbito musical. Além disso, sinto a responsabilidade de estar criando espaço e inspirando novas gerações de maestras. Quando subo ao pódio, sei que não estou ali sozinha; carrego todas comigo, as que vieram antes de mim e as que virão.
A música clássica ainda é um ambiente majoritariamente masculino na regência. Quais desafios você enfrentou ao longo da carreira por ser mulher?
Os desafios começaram muito cedo, no Brasil. Enfrentei um profundo preconceito de gênero. Lembro-me de quando disse que queria reger Gustav Mahler, e o professor Heitor Alimonda me desencorajou. Há uma dupla moral constante: somos julgadas pela nossa aparência, por nossas escolhas familiares, e temos que provar nossa capacidade intelectual o tempo todo em um meio forjado pelo patriarcado.
O preconceito contra a mulher na música é estrutural e silencioso, e ainda muito presente. O simples fato de eu ter que lutar para ser chamada de Maestra, e não do diminutivo pejorativo "maestrina" (afinal, ninguém chama um homem de "maestrino"), já mostra como a própria linguagem tenta nos diminuir.
Você acredita que a presença feminina na regência está aumentando de forma ou ainda há barreiras estruturais importantes? Que mudanças você considera urgentes para ampliar a diversidade no pódio?
A presença está aumentando, mas a passos que ainda esbarram em barreiras estruturais colossais. Não basta colocar uma mulher no pódio uma vez por ano, no Dia Internacional da Mulher, e achar que o problema está resolvido. As mudanças urgentes precisam ocorrer na raiz: nas bancas de admissão dos conservatórios, nas comissões que escolhem os diretores artísticos, e na programação. Precisamos incluir as obras de mulheres na grade curricular obrigatória das universidades.
A diversidade não é um "favor" que se faz às mulheres, é uma necessidade para a sobrevivência da própria música.
Você se inspirou em outras mulheres da música erudita? Houve alguma maestra ou instrumentista que tenha sido referência para você?
Assim como muitas da minha geração, crescemos sem ter acesso às nossas referências, que foram constantemente apagadas pela história. Como exemplo é a brasileira Joanídia Sodré. Eu a descobri por acaso em 2019, enquanto pesquisava para o meu doutorado sobre mulheres que regeram a Filarmônica de Berlim.
Joanídia foi uma mulher extraordinária: pianista, compositora, regente, lutou pelo sufrágio feminino ao lado de Bertha Lutz e dirigiu a Escola Nacional de Música da UFRJ por 20 anos e regeu a Filarmônica de Berlim no ano de 1930! No entanto, o sistema patriarcal apagou seu legado a ponto de eu, que estudei na mesma escola, nunca ter ouvido falar dela.
Hoje, você se vê como referência para jovens musicistas? Como lida com essa responsabilidade? Que conselho você daria para meninas que hoje sonham em ocupar este espaço?
Eu aceito essa responsabilidade com muita honra e amor. A representatividade importa demais; você só sonha em ser aquilo que você consegue ver. Por exemplo, foi muito curioso quando a Chanceler Angela Merkel saiu da liderança após 16 anos de mandato na Alemanha, tivemos frequentemente perguntas de crianças aqui se seria possível também homens ocuparem o cargo.
Meu conselho para as meninas que sonham com o pódio é: estudem vorazmente, mais do que qualquer um ao seu redor. Não permitam que ninguém lhes diga qual repertório vocês "podem" ou "não podem" reger. Não aceitem diminutivos. Vocês são Maestras. E quando o caminho parecer impossível, não desistam.
Como você compara o ambiente da música erudita no Brasil e na Alemanha?
A Alemanha possui uma tradição estrutural imensa, com orquestras em quase todas as cidades e um forte apoio estatal à cultura, mas pode ser um ambiente bastante conservador e rígido. O Brasil, por outro lado, possui uma criatividade pulsante, uma riqueza rítmica inigualável e músicos de resiliência admirável, mas sofre terrivelmente com a falta de fomento institucional contínuo e com a ausência de preservação da memória – o apagamento de Joanídia Sodré é a prova viva disso. Me dedico aqui na Alemanha em trazer a música sinfônica brasileira, em parte com a fundação da Brasil Orchester Berlin no ano passado.
Você acompanha a produção musical brasileira atual?
Acompanho de perto, e o que mais me fascina hoje é o movimento de jovens compositoras e instrumentistas que estão perdendo o medo de misturar as fronteiras. A música de concerto brasileira atual está abraçando nossas raízes afro-brasileiras, indígenas e os ritmos populares sem o pedantismo do passado.
Vejo mulheres compondo de forma genial, escrevendo para orquestra sinfônica com uma linguagem profundamente nossa. Isso é de uma riqueza imensurável e é o que eu luto para colocar nas estantes dos músicos aqui na Europa. Uma das compositoras jovens é Luisa Mitre - a Brasil Orchester Berlin estará apresentando uma orquestração sinfônica minha da sua obra “ A Fuga do Tatu”.
Quando você olha para trás, o que mais te orgulha nessa trajetória até aqui?
Orgulho-me de não ter desistido, de ter persistido, mesmo quando tudo estava dizendo para parar.

A minha trajetória não foi simples. Não nasci em berço de músicos, nem em família rica. Vim do subúrbio do Rio de Janeiro, do Méier. Tudo para mim foi com muito suor e regado de obstáculos. E hoje, aos 52 anos, mesmo já tendo dados passos grandes na carreira como compositora e maestra, ainda há muito o que superar. Trabalho na temática Mulheres e Música, não só porque faz parte do meu ideal, mas também porque reflete a minha própria história.
Acima de tudo, orgulho-me de ser um instrumento de justiça histórica e inspiração para mudanças no mundo. Como eu sempre digo, o meu grande manifesto de vida é este: "Dedico-me às mulheres na música para devolver à humanidade a parte da história ocultada por séculos de silêncio. Acredito que o mundo só encontrará sua verdadeira harmonia com todas as presenças, em plena igualdade e diversidade." Isso é o que me faz levantar todos os dias.





