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RANCORE: Teco Martins explica “BRIO” faixa a faixa, disco que marca o retorno da banda


Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Tauana Sofia

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De 2006 a 2011, RANCORE lançou três álbuns. O quarto, os fãs achavam que não viria mais, pensamento compartilhado pela própria banda, que passou mais de uma década sem inéditas. Foi quando veio BRIO (2026).

Quando Teco Martins (vocal), Candinho Uba (guitarra), Rodrigo Caggegi (baixo), Gustavo Teixeira (guitarra) e Ale Iafelice (bateria) se reuniram, depois de várias transformações em suas vidas e com novos interesses musicais na bagagem, precisaram entender qual intersecções sonoras ainda os aproximava e daria liga a BRIO, lançado em abril deste ano, e disponível para pré-venda em vinil pelo NRC+.

As faixas refletem sobre superação, teoria do caos e tudo que inspirou o vocalista e compositor, Teco Martins, ao longo desses anos: a perda de pessoas queridas, o nascimento da filha, questões de saúde mental, taoísmo e física quântica cabem nesse repertório, teoricamente, conciso de 10 faixas.

“SEXO SELVAGEM” foi a primeira música a ser feita nessa nova fase, e a que ajudou a provar para os cinco que havia sintonia de sobra – “SEXO SELVAGEM” também quase  deu nome do disco, que só virou “BRIO” na reta final. Superado o entrave, as outras canções foram surgindo naturalmente. 

“No RANCORE não tem, ‘faixa para completar algo’. Aquela coisa ‘pô, a gente já tem quatro músicas boas, agora é só fazer mais seis músicas mais ou menos, porque a tour tá garantida’. Não. Cada música a gente faz com preciosismo, amor, dedicação, preocupação. A gente acredita muito nesse disco, acredita muito em cada uma dessas dez faixas”, diz Teco. 

O hardcore pelo qual o grupo se tornou relevante na cena do começo do milênio abriu portas para outras texturas, algo que estampam na própria capa de BRIO, com uma foto tirada e revelada nos anos 1970 pelo pai de Candinho, David Uba. A imagem carrega erros de revelação, o que  fez com que o fotógrafo não gostasse dela, mas foi isso que justamente atraiu o quinteto. Uma imagem assim era a escolha perfeita para dialogar com as guitarras sujas e com a psicodelia que dá as caras em algumas faixas. 

“A gente sabia que podia fazer um disco muito melhor do que os outros. Os antigos, a galera adora e ouve. O público tatuou no corpo, na alma, mas a gente disse para si mesmo que era capaz de fazer algo melhor ainda, de se superar. E sinto que conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.” 

À Noize, Teco Martins, vocalista e compositor de todas as músicas de BRIO, compartilha o contexto de cada uma delas. Saiba mais no faixa a faixa a seguir.

“TEORIA DO CAOS”: Nessa poesia, busquei fazer uma intersecção entre essas minhas paixões, relacionando a experiência humana com as ciências exatas. A teoria do caos estuda sistemas complexos extremamente sensíveis às condições iniciais, tornando a previsão a longo prazo impossível, por isso talvez, dentre as ciências exatas, seja o estudo que mais se assemelha à imprevisibilidade da vida. Apesar de ser uma letra complexa, foi a que brotou mais rápido de todo o disco. O termo “braseiros de brio” veio de maneira intuitiva, e descreve bem a nossa intenção com essa banda. Acredito ser a frase ideal pra abrir esse disco do RANCORE.

“EU QUERO VIVER”: Essa música é um grito de sobrevivência. Uma das letras mais profundas de toda minha vida. Minha mãe estava lutando contra o câncer. Ela, e todos nós estávamos com muito medo e com as emoções à flor da pele. Nesse mesmo período o padrinho do meu filho sofreu um acidente de moto e eu fui com a esposa dele até o hospital. Quando chegamos lá, não sabíamos se ele estava vivo ou morto, e qual tinha sido a gravidade do choque. Durante aquela madrugada, na sala de espera do hospital, eu coloquei no ouvido o instrumental desse som e escrevi essa letra. Já dá pra perceber que, nos shows, essa bate diferente, tem um poder catártico fora de série. E difícil segurar as lágrimas ao vivo, cantando ao lado de pessoas que lembram de momentos como esse. Essa música mexe muito comigo, até porque em 2021 eu cheguei perto de cometer suicídio, então gritar a plenos pulmões “EU QUERO VIVER” é uma afirmação de luta pela vida, de vontade de continuar e de agradecer por cada dificuldade que foi, ou que está sendo superada. Talvez essa seja a música mais importante da história do RANCORE.

PRECIOSAS CORES”:Essa música faz uma homenagem e uma citação ao Mestre Irineu. Eu canto uma melodia ensolarada, doce, que lembra uma cantiga de roda infantil, e que somada a esse instrumental torto e dissonante cria um contraste muito interessante. É uma música dançante, que remete ao pós-punk dos anos 80 com timbres experimentais atmosféricos de noise pop. Poeticamente eu faço uma relação com o poder da criação: “sol, lua, estrela, a terra, o vento o mar, são preciosas as cores que eu plantei pra lhe ofertar”. Aí cabe a interpretação de texto: quem plantou essas preciosas cores? “Passou, você por mim, mas nem me viu, ou será que viu?”. Uma parte interessante do texto também é a relação tempo-espaço, e a sensação que o tempo é capaz de acelerar e desacelerar dependendo qual a percepção da sua consciência naquele momento.

“A NASCENTE”: Minha esposa estava grávida e fomos eu, ela e meu primogênito juntos no exame de ultrassom. Quando iniciou a consulta, a médica colocou um microfone no ventre onde crescia minha filha e as batidas do coração da neném foram amplificadas nas caixas de som. Nisso, meu filho, com 3 anos de idade na época, de maneira espontânea se levantou da cadeira e começou a dançar no ritmo do pulsar do coração da irmã dele, como se aquelas batidas fossem um bumbo de bateria. Essa cena foi muito marcante e me inspirou a escrever esse refrão: “Eu ouvi seu coração bater, pulsei no seu ritmo, e dancei pela madrugada até a Aurora raiar”. Aurora nesse caso é o nome da minha filha, mas pode simbolizar também o nascer de um novo dia dentro da poesia. Nas estrofes fiz um paralelo com a responsabilidade que a paternidade nos traz: mesmo com tanta escuridão, violência e mazelas na sociedade, não podemos esmorecer e perder as esperanças pois temos crianças com toda a vida pela frente pra criarmos. É um paradoxo complexo. 

“SEXO SELVAGEM”: Essa foi a música que nos fez acreditar que poderíamos fazer um disco. A primeira a ser feita das dez e com certeza um grande norte ao longo do processo de composição de BRIO. Nossa banda tem um público muito heterogêneo. Pessoas de todos os tipos frequentam nossos shows pra celebrarem juntas, e isso acredito que seja o maior trunfo da nossa banda: “(…) bêbados e sóbrios, crentes e ateus, o joio e o trigo o bem, bom e os maus juntos na pista de dança do vácuo cósmico”. Lembro que na época eu estava obcecado por física quântica, lendo e ouvindo tudo o que eu encontrava sobre o tema. Opostos que se complementam na dualidade da existência. Quando cito o bem, o bom e oS mauS, é uma brincadeira com a língua portuguesa; no caso quando coloco no plural seriam dois mesmo o mal e o mau (opostos de bem e bom), sacou? Enfim, essa música tem uns "easter eggs" pra quem prestar bem atenção. O show do RANCORE me lembra um sexo selvagem, é quente, voraz, tem muito amor, mas também uma bela dose de rispidez, selvageria, suor, saliva… 

“CARA DE LOUCO”: História verídica. Muitas vezes ouvi que eu tenho cara de louco. Talvez eu seja mesmo, e prefira ser em meio a essa “(…)sociedade doente, certezas delirantes, psicose em massa, teatrinho macabro, armadilha armada(…)”. Afinal “quem é de verdade e quem é de mentira nesse baile de máscaras?”. Na época, eu estava lendo artigos sobre guerras de quinta geração e achei auspicioso citar esse tema pras pessoas pesquisarem e entenderem o que está acontecendo à nossa volta. Instrumental e melodia muito influenciados por bandas de punk 77: Cólera, Olho Seco, Restos de Nada, com um que de surf music também. A favorita do Alê!

“UNHAS E DENTES”: A música mais curta do disco, a que me deu mais trabalho e uma das minhas favoritas. Eu escrevi folhas e folhas de caderno até chegar no resultado final. Foram mais de 20 folhas de rascunho até chegar nesse resultado. Mistura de influências musicais e egrégoras espirituais. O poder dos guardiões místicos nos caminhos do auto-conhecimento. Cito o enigma da esfinge “decifra-me ou devoro-te” e também o Hermes Trismegisto “é verdade, sem mentira, certo muito verdadeiro, os lábios da sabedoria só se abrem aos ouvidos do entendimento”. A poesia faz uma conexão entre a minha jornada no punk rock e no xamanismo, duas pilastras que estruturam a minha vida e por consequência a minha argumentação.

“VALSA DO IMPREVISÍVEL”: Wu Wei (无为), é o princípio central do taoísmo que defende viver em harmonia com o fluxo natural da vida (o Tao), agindo sem forçar resultados, sem resistência e sem tensões artificiais. Não significa inação ou preguiça, mas sim realizar ações com naturalidade e espontaneidade. Junto com esse conceito acrescentei jogos de palavras brincando com com passado, presente e futuro. É um momento mais sensível do disco, nos remete a pureza da infância, a memórias valiosas e também a imensidão da existência e das possibilidades…Minha esposa, mãe dos meus filhos, amor da minha vida, canta comigo nessa música, o que traz um toque mais profundo ainda pra essência dessa obra. Sonoramente me chama muita atenção a parte instrumental no final, uma sinfonia contemporânea liderada pelas guitarras. Bom demais pra viajar!

“CORDÃO DE OURO”: A última música a entrar pro disco. Minha vida estava um caos e eu não conseguia ter tempo pra escrever essa letra. Aí marquei estúdio de gravação, no último dia possível, falei pro pessoal que a letra estava pronta — mas, na verdade, eu não tinha tido tempo pra fazer. Na estrada indo pra São Paulo, direto pro estúdio de gravação, fui compondo. Quando cheguei na porta do estúdio ela estava pronta. Enquanto eu gravava, o Caggegi baixista da banda, chorava de emoção. Ali, eu percebi que tinha algo especial acontecendo. Foi um momento mágico no estúdio. Na poesia, eu quis trazer o poder do substantivo, de símbolos que possibilitam variadas interpretações. Uma das coisas que pensei ao fazer essa letra é as nossas relações pessoais. Quando dois amantes se encontram em uma rota de colisão, é a hora que eles vão decidir se aquele relacionamento será um diamante ou um carvão. Ambos são feitos do mesmo elemento, o carbono, porém tem uma durabilidade e valor muito diferentes. Qual tipo de relação nas nossas vidas é tão forte que “nem mesmo o tempo pode apagar”?

“EXPANSÃO”: Escolhemos terminar o disco com nossa música mais pesada. Com certeza o povo que gosta do liberta e do yoga, stress e cafeína, vai se identificar. A sonoridade mais pesada que já fizemos em toda nossa discografia — gritaria hardcore, com uma mensagem de libertação da Matrix que sempre quer nos escravizar. Esteja pronto, sempre atento...Até quem dormia, agora já despertou!

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Thaís Ferreira

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