
Enquanto compunha o disco Coisas Naturais (2025), a mineira Marina Sena tinha certeza de que os sons da América Latina deveriam fazer parte de seu percurso. Guiada pelo pop urbano, ela trabalhava na letra do reguetón “Doçura”, colaboração com o trio Çantamarta, quando esbarrou em um detalhe: na estrofe enviada pelo granadino Benito Casado, o colombo-venezuelano Luis Lozano e o cordobes Omar Roldán, havia uma menção ao coronel Aureliano, o mais célebre personagem do romance Cem Anos de Solidão.
Tomados pela coincidência, não demoraram a perceber que a obra, publicada em 1967 pelo escritor e jornalista Gabriel García Márquez, era a favorita dos quatro. Ao recordar-se da leitura, Sena reconhecia nas descrições do povoado de Macondo uma alegoria dos infinitos rincões da América Latina, entre os quais, certamente, se inclui a cidade de Montes Claros, Minas Gerais. Ela serviu como pano de fundo para momentos intensos de seu processo pessoal de amadurecimento.
“Montes Claros, para mim, sempre teve ar de Macondo", reflete a cantora. “Existe uma coisa inexplicável na cidade, algo mágico, quase como uma casa de espelhos onde as histórias se repetem de formas diferentes, mas sempre com a mesma intensidade. O realismo fantástico de Cem Anos de Solidão sempre me fascinou porque ele fala sobre a vida como uma narrativa que se mistura com o sobrenatural, com o encantado. E traz magia para as histórias que são tão nossas como de qualquer latino-americano.”
Em mais de 400 páginas, adaptadas no último ano para as telas da Netflix em uma ambiciosa série, o livro encapsula as glórias e a ruína das sete gerações da família Buendía. Conforme avança, desvela as raízes musicais de seu autor, um homem de origem simples e que, mesmo rodeado pelos maiores líderes políticos e intelectuais de seu tempo, expunha uma profunda ligação com culturas e espaços marginalizados da Colômbia, esse magnético de cores, contradições e melodias.
“Dizem que uma pessoa só pode viver onde estão seus livros. Eu vivo onde estão meus discos”, afirmou García Márquez em uma das entrevistas concedidas para a biografia El viaje a la Semilla (1997), de Dasso Saldívar. Fã de boleros e certo de que a música é um elemento de formação cultural, soube de sua vitória no Prêmio Nobel de Literatura, em outubro de 1982, e começou, de pronto, a listar as 120 pessoas que o acompanhariam em comitiva até a cerimônia de entrega, três meses mais tarde. Entre músicos de vallenato, cantores e bailarinos compatriotas, buscou driblar o frio da cidade de Estocolmo e dos próprios suecos, desacostumados com a energia do então chamado “tercer mundo”.
Ao discursar entusiasticamente sobre a solidão que atravessa nosso continente, um recorte que, a despeito do eurocentrismo, norteia toda sua obra, convocou uma voz ainda inédita para cantar aos convidados. A Academia Sueca de Letras haveria de se curvar a Totó La Momposina — outra referência agregada pelo Çantamarta e sua estética moderna, construída entre beats e vocais quase místicos, ao trabalho com Marina Sena.
Quando se apresentou para Gabo, às vésperas de fazer uma arrancada pelos palcos de maior prestígio mundo afora, la Momposina colocou em evidência a alma sui generis da cultura afro-latina e caribenha. Mais do que homenagear o único escritor colombiano a conquistar dita honraria, expôs o protagonismo de sua pátria na literatura do amigo, bem como o vínculo que este alimentava para com a música.
Condutor de um emaranhado de referências extra literárias, Gabo endereçou aos cantos vallenatos, variação do son e do merengue dominicano, um norte para sua formação narrativa. É natural que o leitor encontre pistas desse ímpeto, que se deu ao ponto de fazê-lo enxergar Cem Anos de Solidão como uma canção interminável, transposta em páginas. “Originalmente, as letras desse gênero musical relatavam acontecimentos reais. Os compositores passavam pelas cidades do interior, ouviam histórias e, uma vez musicadas, saíam por aí divulgando-as pela região”, explicou o Nobel à revista Opina, em 1984.
Foi na infância, vivida no povoado de Aracataca, quando teve seu primeiro contato com tocadores de acordeón, seres itinerantes e que tinham um jeito de narrar parecido ao de sua avó materna, Tranquilina. Eis aí um dos vários pontos de intersecção com a trajetória de Marina Sena, apreciadora das artes regionais, menos visibilizadas.
Como trovadores do cotidiano, tais músicos pavimentaram o caminho para figuras como o cigano Melquíades, outro personagem estrutural que, no enredo do já mencionado livro, visita a misteriosa Macondo e muda para sempre o curso da história desta “aldeia de vinte casas feitas de barro e taquara, às margens de um rio de águas diáfanas”.
O faro que García Márquez tinha para transformações e o frescor ainda vigente de seus livros, tão caros aos amantes e estudiosos das letras modernas e contemporâneas, podem ser lidos como a tônica fundamental para tornar música e literatura objetos de simbiose, mesmo anos após sua morte.
Tendo a Colômbia uma cena musical centrada, a princípio, em gêneros regionais, o Nobel passou a escrever e inspirar dezenas de canções que transcendem, inclusive, os limites geográficos. Suas narrativas contemplam desde o rock do argentino Charly García até a salsa do panamenho Rubén Blades, que lhe dedicou, na década de 1970, o disco Agua de Luna (1987). Está composto apenas por faixas que fazem referência a contos de seu ídolo.
Mais recentemente, ao se debruçar sobre desilusões e encontros telepáticos, Kali Uchis também acabou por encontrar na literatura garcíamarqueana o nome para batizar um de seus mais elogiados trabalhos: o título Del amor y otros demónios (2020) vem do romance clássico, que encadeia ao amor as armadilhas do sagrado e do profano.
No presente, é a música urbana, com que flerta Sena e o Çantamarta, que capitaneia um movimento que, mesmo quando se esquiva de citar frontalmente García Márquez, remonta o mítico discurso sobre a solidão latino-americana, bem como sua tentativa de encontrar nela a própria potência.
É o que acontece, por exemplo, nos discos do trio Diamante Eléctrico, que mergulha no existencialismo para destacar os mistérios de Bogotá. Outros nomes são o grupo Chocquibtown, referência da cena afro-pop caribenha; e a própria Karol G, que faz de sua versatilidade algo incontornável.
Nem mesmo a maior popstar latino-americana foi imune a reverenciar os encontros de Gabo com a música. A barranquillera Shakira tinha apenas 21 anos quando foi procurada pelo mesmo, sob a justificativa de que gostaria de escrever sobre ela. Após a publicação de um perfil na revista Cambio, em 1999, tornaram-se grandes amigos. “Nada do que se diga ou deixe de dizer sobre ela poderá mudar seu destino de artista grande e imparável”, cravou García Márquez à ocasião, contra qualquer prognóstico.
Deste vínculo, surgiram duas canções originais que compuseram a trilha sonora do filme O Amor nos Tempos do Cólera (2007) — mais um sintoma da relação que, por décadas, o autor firmou com outra mídia, o cinema. Na companhia do compositor brasileiro Antonio Pinto, Shakira escreveu “Hay Amores” e “Despedida”, esta última indicada ao Globo de Ouro.
Anos mais tarde, quando Cem Anos de Solidão chegou à Netflix, a máxima de trabalhar com latino-americanos em seus projetos atingiu um novo ápice. Na tentativa de impulsionar as emoções dos Buendía, foram os colombianos Camilo Sanabria e Juancho Valencia os encarregados de criar as 36 faixas, que conferem o estofo desta atmosfera mágica, marcada pela complexidade de um Caribe que, talvez, só caiba na obra de Gabo.
Ao olhar para trás, o que o autor sempre parece ter escancarado foi o desejo de reverenciar, pública e enfaticamente, a diversidade de sons existente em seu país — um caminho para resistir ao academicismo, mantendo-se interessado por essa força motriz que é a cultura popular. De forma simples, Marina Sena parece evocar esta fórmula para construir seu próprio império, que parte das entranhas das Minas Gerais com a pretensão de ser do mundo.
*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #161 que acompanha o disco Coisas Naturais, de Marina Sena, lançado pelo Noize Record Club.








