
Ney Matogrosso foi pioneiro em diversos aspectos da carreira. Trabalhar com compositoras é um exemplo. “Bandido Corazón”, faixa que dá nome ao álbum lançado originalmente em 1976, é uma composição de Rita Lee. Desde então, foram diversas colaborações com outras artistas.
A prática, no entanto, não se tornou comum entre outros homens. Um levantamento feito pelo Ecad a pedido da União Brasileira de Compositores (UBC) em 2022, revelou que, entre as músicas mais tocadas nos segmentos de rádios e shows, apenas 8% foram escritas por mulheres.
Apesar do Brasil ser um país de grande autoras de músicas, como Jocy de Oliveira, Dolores Duran, Jovelina Pérola Negra, Joyce Moreno, Roberta Campos, Pitty, Liniker e muitas mais, não é sempre que elas são reconhecidas.
A carioca Chiquinha Gonzaga, por exemplo, foi pioneira na música brasileira. Compositora de faixas como “Ô Abre Alas” — considerada a primeira marchinha de carnaval — e “Lua Branca”, ela escreveu mais de 200 canções e foi a primeira mulher a reger uma orquestra. Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola de samba e escreveu músicas como “Alguém Me Avisou” e “Sonho Meu”.
Essas artistas, no entanto, não recebem o mesmo reconhecimento de seus colegas do gênero masculino, que também demonstram alguma resistência em gravar canções compostas por mulheres. No ranking de músicas mais tocadas nos streamings do Pro-Música Brasil — que leva em consideração os dados de Spotify, Apple, Napster, Deezer, Amazon e YouTube — as dez canções mais bem colocadas no período de agosto de 2025 são compostas por homens.
A cantora, compositora e membro da UBC Fernanda Takai entende que a predominância masculina é um sintoma de uma indústria dominada por eles. Ela ainda ressalta a pouca quantidade de mulheres atuando em áreas técnicas, como produtoras, engenheiras de áudio, de luz, ou até mesmo empresárias.
“Acho que essa a gravação de uma letra, de uma música feminina, por homens, reflete isso bem, sabe? Parece que essa carta das mulheres ainda é muito sozinha, tem uma mulher entre dez. Até tem homem que pensa de um jeito mais avançado por uma igualdade maior, mas não vê aquela carta. Vê dez outras ofertas de música e meio que deixa aquilo ali do lado,” reflete.
Maria Beraldo, cantora, compositora e produtora, entende que a rejeição de composições femininas por parte dos cantores se dá também pela forma como a sociedade enxerga as mulheres. “As mulheres são vistas como objeto de consumo e não como pessoas que pensam".
“Os homens não gravam composições de mulheres porque o pensamento, as narrativas escritas por mulheres, não são valorizadas na nossa cultura, na nossa sociedade, no nosso sistema político-econômico. Então, quando a gente compõe uma música, estamos colocando o nosso ponto de vista, contando a nossa história e isso nunca foi interesse dos detentores do poder”.
A catarinense conta que é mais procurada por pessoas que querem “hackear esse sistema, sair um pouco dessa lógica” do mercado sempre dominado por homens. “Acho que nunca me chamam só pelo fato de eu ser mulher. Daí, alguns grupos começam a pesquisar e aí eu sou uma das pessoas que eles encontram,” explica a artista que também faz trilhas de cinema e compôs canções para o espetáculo musical Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso (2025).
Para Maria, ainda estamos longe de dar às compositoras brasileiras a mesma valorização que os homens recebem. “Não é que não havia compositoras nessa geração de Chico [Buarque], Caetano [Veloso], [Gilberto] Gil, etc. Sempre houve. E é um trabalho que a gente faz, pesquisar e descobrir quem são essas mulheres e descobrir o repertório delas".
Uma puxa a outra
“Fomos figuras muito solitárias até um certo tempo. Acho que a partir dos anos 2000 com a internet, com as mulheres se colocando em outras matérias, politicamente, sociologicamente, nas questões de trabalho, nas empresas, de remuneração, isso também ajuda a arte, sabe? E a arte ajuda esse mundo normal, digamos assim,” comenta Fernanda.
“Eu fui buscando mais esse os meus semelhantes,” diz Maria. “Tenho me protegido com a comunidade. Acho que no meu primeiro álbum, Cavala (2018), isso foi um passo muito grande. "Busquei estar com pessoas que valorizam o meu pensamento e cujos pensamentos eu valorizo. A gente vai se fortalecendo. Então, eu tenho andado cada vez mais em grupos de pessoas queer, pessoas lésbicas e então e mulheres, então, eu estou realmente muito fortalecida nesses grupos".
Ela entende que há um movimento de cooperação e proteção mútua entre as mulheres, apesar da lógica de competição incentivada pelo mercado. “No meio no qual eu circulo, estamos operando em outra lógica,” conta Maria. Até a equipe com a qual trabalha é formada majoritariamente por mulheres.
Entre as iniciativas para incentivar a composição feita por mulheres, a UBC promoveu um Song Camp com dez artistas que se uniram para pensar em música e se dedicar à arte. “Ter um ambiente seguro tecnicamente favorável e outras pessoas com as quais você possa ter diálogo, apesar de todas as diferenças, sempre a gente vai conseguir ter um resultado positivo,” reflete Fernanda.
Para ela, ter consciência sobre o pouco espaço para as compositoras é um fator determinante para que o cenário mude. A cantora, inclusive, conta que chamou diversas mulheres que conheceu nos últimos anos para seu próximo trabalho solo.
“No Song Camp que a UBC fez, eu fui diretora e conheci dez artistas incríveis. Algumas eu já conhecia, mas cheguei mais perto. Falei: ‘Vou chamar mais mulheres para escreverem comigo,’ e, nessa empreitada pessoal, olha só, eu tenho cinco novas parceiras,” conta.
A líder do Pato Fu vê o futuro com bons olhos. “Cada passo que a gente conquista ano a ano, ainda que pequeno, é muito positivo. A própria inscrição de novas associadas na UBC e em outras associações também. Tem o interesse das mulheres em festivais como CoMA, Formemus, Sonora, que é um festival de mulheres. A vontade que a gente tem de melhorar esses números é muito grande".
Gerações mais conscientes
Representante da nova MPB, o músico carioca Zé Ibarra gravou em seu disco mais recente, AFIM (2025), canções de Maria Beraldo e de Sophia Chablau. Fernanda entende que o cantor é uma pessoa sensibilizada para a questão, por estar acostumado com a convivência com grandes compositoras e instrumentistas desde o início da carreira. “É bom que ele tenha sucesso com essa atitude dele, porque outras pessoas vão falar ‘olha só, ele fez uma coisa que é legal para todo mundo só para ele".
Maria afirma que é preciso fazer recortes antes de afirmar que as novas gerações se preocupam mais com as questões de gênero. “Acho que dentro de um certo recorte, do qual eu faço parte, há, sim, essa preocupação”, reflete.
Ouvir o que as mulheres compõem é parte de um processo que inclui também ler nossas escritoras e ouvir o que as mulheres têm a dizer, reflete a artista. “As mudanças que temos de fazer são muito profundas, até chegarmos em algum lugar de fato, Mas pelo menos estamos conversando sobre isso".





