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Paulete Lindacelva conecta a house music com diferentes territórios ancestrais 


Por:

Ana Laura Pádua

Fotos: Rafaelly Godoy

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A música de Paulete Lindacelva nasce do encontro entre diferentes territórios, tempos e heranças culturais. Há mais de uma década atuando como DJ e produtora, a artista desenvolve uma pesquisa sonora que atravessa a house music, as diásporas negras e as relações entre memória, identidade e pertencimento.

O primeiro capítulo chegou em 2024 com Guarabira, Chicago, trabalho que aproximou as origens da artista, na Paraíba, do berço da house music nos Estados Unidos. Em 2025, foi a vez de Ácido Brasil, EP que voltou o olhar para São Paulo, transformando a capital paulista em personagem central de sua narrativa sonora.

A trilogia ganhou um novo trabalho em maio deste ano, com o lançamento do EP Filha de Abya Yala, Herdeira de Kemet. O título já é, por si só, um manifesto: ele propõe um encontro entre duas matrizes ancestrais, Abya Yala, nome utilizado por povos originários para se referir ao continente americano antes da colonização, e Kemet, denominação ancestral do antigo Egito.

“O fio condutor entre os três EPs é o território. Nesse caso, o Egito entra para mim no campo do imaginário, de uma terra que é milenarmente conhecida por reis e rainhas, por muita abundância. Em paralelo, a gente tem Abya Yala, que é o território onde a gente está”, explica Paulete. “Por aqui a gente tinha povos que também eram tão abundantes quanto. Os dois espaços são culturalmente vitoriosos.”

Composto por sete faixas — entre elas, duas vinhetas —, o novo trabalho reúne colaborações com Vermelho, Renanzeth, além de percussão e trombone de Bica e sax de Soma. Na produção musical, a artista aprofunda ainda mais a parceria com o DJ e produtor Gabto, co-idealizador do selo Perfecto Estado e presença constante em sua trajetória.

Sonoramente, as composições articulam diferentes musicalidades e apontam caminhos de reconexão com raízes africanas, indígenas e asiáticas presentes na América Latina. A diversidade de referências se manifesta em arranjos que dialogam com ritmos como cumbia, reggae, soul, samba, shaabi e oyun havalari. Incorporando também  a presença da flauta turca, instrumento característico da música da Anatólia, o som amplia o campo de diálogo entre tradições musicais de diferentes territórios.

“Acho que todos esses estilos musicais têm uma relação forte com a cultura negra em geral. Cresci nas periferias do Recife, frequentava o Clube Bela Vista... E, por lá, tocava clássicos icônicos de cumbia, de merengue, de guaracha, cubanos, colombianos, peruanos. Eu acho que tudo surgiu da escuta e da minha territorialidade”, relembra.

Conexão Recife-Paris-Bogotá

A percussão foi a porta de entrada de Paulete para a música. Na adolescência, ela integrou alguns grupos percussivos, mas foi ao conhecer o Maracatu — expressão artística que entrelaça som, dança e ancestralidade — que se apaixonou de vez.

Nos últimos cinco anos, as viagens e turnês passaram a ocupar um papel importante na pesquisa artística de Lindacelva. Ao circular por diferentes países, a produtora ampliou seu contato com culturas, narrativas históricas e patrimônios que ajudaram a aprofundar suas reflexões sobre identidade e pertencimento.

Uma das experiências mais marcantes aconteceu no Museu do Ouro, em Bogotá, onde teve contato com exposições dedicadas à relação dos povos originários da região com o metal. A visita despertou questionamentos sobre conhecimento ancestral, tecnologia e os processos de apagamento da história latino-americana.

Em seguida, vieram passagens por museus europeus, como o Louvre, em Paris, e também o British Museum, na Inglaterra. Em meio aos acervos, Paulete se surpreendeu ao encontrar obras indígenas e pré-colombianas que dialogavam diretamente com referências culturais do continente americano.

“Vendo esse monte de coisa, você fica abismada, porque a gente peca muito ao saber pouco da história da América Latina. Sou filha de um lugar que tem historicidade e eu tenho que me orgulhar muito por isso.”

Para a artista, essa herança vai muito além dos monumentos ou das riquezas minerais frequentemente associadas às civilizações ancestrais. Ela destaca também os conhecimentos desenvolvidos pelos povos originários e sua capacidade de transformar o território. “Não só no sentido do ouro, da prata, da arquitetura, mas aqui, acredita-se que o Brasil tinha a criação do cupuaçu, que seria um fruto modificado pelos indígenas. Para mim, isso é tecnologia.”

Arte em expansão

Além da sonoridade e das pesquisas que atravessam o EP Filha de Abya Yala, Herdeira de Kemet, a arte da capa também carrega e amplia o diálogo entre heranças culturais. O processo começou com um ensaio fotográfico realizado pela fotógrafa e figurinista Rafaelly Godoy. A partir dessas imagens, Paulete e o artista Renanzeth desenvolveram uma proposta visual que expandisse os significados presentes no trabalho.

Mais do que explorar cores, texturas e elementos metálicos, a intenção era criar uma ponte simbólica entre África e América. Para isso, Renanzeth decidiu talhar a fotografia em alumínio, evocando a ideia de uma moeda e suas camadas de valor, circulação e memória. Já na contracapa, se inspirou na tradição da fotopintura, linguagem visual bastante presente em diferentes territórios da América Latina.

“Ele decidiu talhar a foto no alumínio para trabalhar com a ideia de moeda e, para a contracapa, a gente trabalhou com a ideia de foto-pintura. Aí unimos essas duas coisas porque é muito América Latina. Qualquer pessoa por aqui provavelmente já viu uma foto-pintura com as bordas em metal”, explica Paulete.

O chamado do house

Paulete Lindacelva é um dos nomes em ascensão da música eletrônica e presença constante em pistas e festivais. Mas, embora sua trajetória esteja profundamente ligada ao eixo eletrônico — tanto como artista quanto como pesquisadora —, suas referências musicais transitam por muitos outros territórios.

O interesse por diferentes sonoridades faz parte do seu cotidiano e também alimenta sua criação artística. Entre rodas de samba, encontros regados ao reggae e outras experiências musicais, Paulete constrói uma escuta ampla, que ultrapassa os limites da dance music e encontra espaço para múltiplas influências.

“Sou uma pessoa da música eletrônica, mas gosto do que navega fora do aspecto da dance music. Frequento samba, gosto de reggae. Então, quando você começa a produzir, você vê que há caminho, que é possível, que você consegue juntar com pessoas legais e fazer acontecer.”

Embora suas referências musicais sejam amplas, foi no house e na disco music que Paulete encontrou uma linguagem capaz de conectar diferentes dimensões da sua trajetória. “O house que me fez viajar pelo mundo. É uma sonoridade que evoca a espiritualidade e que traz em si tudo o que é mais abundante da cultura negra. Desde a dança, a poesia, a performance”, finaliza.

Por:

Ana Laura Pádua

Fotos: Rafaelly Godoy

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