Oscar Scheller w PinkPantheress courtesy of Oscar Scheller (1) (1)

Quem é o produtor queridinho do pop alternativo que conquistou Lily Allen, Kelela e PinkPantheress


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Divulgação

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* por Fredy Alexandrakis

Se você é fã de pop alternativo, já deve ter ouvido alguma música composta ou produzida por Oscar Scheller. O britânico começou sua carreira há mais de uma década, criando suas próprias canções de pop e R&B, mas logo percebeu ter um “cérebro de produtor musical” e passou a atrair colaboradores. Aos 35 anos, vive seu momento de maior sucesso e visibilidade, com participações em alguns dos lançamentos mais importantes de 2025 e 2026: a mixtape Fancy That (2025), da PinkPantheress; West End Girl (2025), quinto álbum de estúdio de Lily Allen (atração confirmada do Primavera Sound São Paulo 2026); e new avatar, recém-lançado quarto álbum da Kelela. 

Scheller é o nome por trás do remix de "Stateside", de PinkPantheress com a sueca Zara Larsson, que dominou o TikTok com um som nostálgico, inspirado pelo pop dos anos 2000 e pelas bonecas Bratz. Ele diz não saber qual sua “marca registrada” como produtor, mas é provavelmente a afinidade pela música dos anos 1990 e 2000 que o uniu com PinkPantheress: Scheller foi o primeiro a colaborar com a estrela Gen Z, que começou fazendo sucesso na internet com canções que ela mesma produzia no software GarageBand.

Desde então, Pink vem se consolidando como uma das maiores vozes do pop contemporâneo, com hits nas paradas da Billboard, como Boy’s a Liar pt. 2 (feat. Ice Spice). “Tem sido incrível ver essas artistas crescendo e amadurecendo”, diz Scheller. Outras das suas parcerias incluem Ashnikko, Rina Sawayama, Shygirl, Brooke Candy, TWICE, NewJeans e Natanya.

Em entrevista à Noize, Scheller comenta seu processo criativo e o papel da nostalgia na sua música, confessa admiração por Arthur Verocai e sugere possível parceria com Pabllo Vittar. Confira abaixo.

Seus projetos mais recentes compartilham algumas influências musicais, mas também são bastante distintos. Como é seu processo colaborativo? Depende do artista?

Depende. Todas as pessoas com quem trabalho têm uma identidade muito forte, elas sabem quem são. A PinkPantheress compõe canções muito rápido, então eu trabalho mais nos beats e arranjos. Com a Kelela, foi um trabalho profundamente colaborativo, ficamos trocando ideias no estúdio e construindo tudo juntos. Então, varia, mas tudo é bastante colaborativo e musical. Boa parte do trabalho do produtor é mais técnica do que musical, mas eu me atraio mais pelo aspecto criativo da coisa.

Seu remix de "Stateside" foi um grande hit no TikTok. Essa faixa tem uma pegada nostálgica, brincando com o pop dos anos 2000, mas ainda trazendo algo de novo. Como você emprega a nostalgia sem perder a originalidade?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, porque a nostalgia tem muita força na cultura. Estamos sempre olhando para trás e romantizando o passado. Sempre há um elemento de nostalgia em qualquer produto cultural que gera identificação, porque as pessoas se atraem pela familiaridade e pela segurança. Acho que a forma de inovar é não tentar recriar o passado, mas incorporar o espírito da coisa e colocar nela seu toque pessoal, fazendo algo um pouco diferente ou errado.

Você não pode apenas seguir a receita, precisa adicionar novos ingredientes também. Se não, vira apenas um revival, e isso não é inovar.

É um desafio, mas acho que a PinkPantheress sabe fazer isso sem muito esforço. Ela é muito boa em combinar influências diferentes, fazendo uma colagem. Acho que é por isso que trabalhamos tão bem juntos e com tanta frequência. Nós dois temos esse desejo de puxar influências de vários lugares e criar “receitas” novas.

Tem sido interessante ver a Kelela explorar um som mais próximo do rock nos seus novos singles do álbum new avatar, afastando-se um pouco da música eletrônica. Como isso aconteceu?

Ela achou que eu só produzia música eletrônica, até que veio a meu estúdio e viu que eu tinha guitarras, baixos, muito equipamento analógico. Ela me perguntou se eu tocava, e respondi que sim; fiz parte de várias bandas e cresci ouvindo muito indie rock. Aí ela me contou sobre suas experiências em bandas, conversamos sobre discos que têm essa ênfase na guitarra, ouvimos Incubus, Joni Mitchell, Pinback, várias coisas diferentes. Acho que nosso objetivo se tornou encontrar nosso próprio espaço dentro disso. Foi como dois mundos colidindo. "Idea 1"foi a primeira música que compusemos a partir disso.

Não quero falar muito por ela, mas para a Kelela foi quase como reivindicar sua própria autoria e agência sobre um som que, historicamente, foi muito dominado pela branquitude. Para mim, foi quase o oposto: cresci ouvindo muita música negra — hip-hop e R’n’B, principalmente — e só bem depois que passei a escutar mais música de guitarra.

Sempre quis me expressar nesse campo do R&B, mas sentia que não era o meu lugar. Então, tivemos essa experiência meio espelhada, ambos nos sentimos um pouco incompreendidos, quase como se não tivéssemos “permissão” para trabalhar com esses gêneros musicais. Foi bem terapêutico, na verdade, pudemos colocar todas as referências que nós dois amamos nesse novo álbum.

Charli XCX é outra artista pop que tem experimentado com uma sonoridade mais próxima do rock. Você acha que ela tinha alguma razão quando disse que “the dancefloor is dead” [“a pista de dança morreu”] e o negócio agora é rock? Essa é a nova tendência?

Eu acho que o rock nunca sumiu. Talvez as pessoas estejam um pouco cansadas do bate-estaca, e agora desejam um som mais sujo e autêntico.

Não que a dance music seja inautêntica, mas há um elemento percussivo que é diferente no rock, é mais catártico. Guitarra e vocal são dois elementos que sempre funcionaram muito bem juntos. Talvez seja o zeitgeist: as pessoas querem algo mais próximo daquilo que ouviam na adolescência, aquela música mais revoltada, mais introspectiva do que escapista.

West End Girl foi um disco importante para Lily Allen, que adentra uma fase madura da sua carreira, servindo de inspiração para artistas mais jovens, como a própria PinkPantheress. Qual o impacto da Lily Allen sobre o pop de hoje?

Ela teve um impacto enorme sobre jovens artistas. Ela sempre se dedicou a se expressar de uma maneira tão honesta e destemida, que hoje se reflete na produção de artistas como Lola Young, Olivia Rodrigo ou da própria PinkPantheress... Ela foi uma grande pioneira e um exemplo para muitas mulheres.

Sua música mistura diferentes gêneros, mas o foco é sempre na composição. Penso nela como uma compositora em primeiro lugar. Ela é mestre em contar histórias nesse estilo meio confessional, meio coloquial. Ela é brilhante. É legal vê-la receber a aclamação que merece.

PinkPantheress incluiu três artistas brasileiros no seu disco de remixes (incluindo a Anitta). Você tem alguma conexão com a música brasileira?

Sim! Eu não sou o maior especialista, admito, mas o disco homônimo do Arthur Verocai [de 1972] é um dos que eu levaria comigo para uma ilha deserta. Esse está no meu top 10 discos de todos os tempos, escuto o tempo todo. Gosto muito do que está acontecendo com o baile funk, como o MC Bin Laden, adoro esse lado mais dançante também. É muito empolgante o que vem sendo feito no Brasil, acho que estou devendo uma visita. A Pabllo Vittar entrou em contato comigo recentemente, então talvez role uma colaboração, quem sabe...

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