
No dicionário, uma das definições de intérprete é “aquele que interpreta ou realiza algo”. Mais poético, Camões, em Os Lusíadas, sugeriu que o intérprete seria uma espécie de mensageiro, já que nomeou Mercúrio, o porta-voz dos deuses aos humanos, como “mensageiro divino”. Na música, como sabemos, o intérprete é aquele que dá voz à mensagem de um compositor e a transmite ao público.
Hoje, o prestígio do intérprete anda meio abalado. A despeito de grandes nomes como Gal Costa ou Maria Bethânia, há muitos artistas no mainstream que preferem ser reconhecidos como compositores, buscando sua própria voz e, com isso, uma espécie de “selo de autenticidade artística”. Ainda bem, há aqueles que não precisam ter esse receio — é o caso de Paulo Miklos: desde os Titãs e nos seus quatro discos da carreira solo, o músico assinou com a própria caneta diversas composições, incluindo sucessos como “Flores” (com Gavin, Belotto e Mello), “Por que eu Sei que é Amor” (com Sérgio Britto) e “A Paz é Inútil para Nós”.

“Nos Titãs, meus companheiros por vezes compunham músicas e pediam para eu cantar”, lembra o artista, enquanto tomamos um café na região central de São Paulo. Se levarmos em conta que ele também constrói uma carreira como ator em novelas, séries e filmes como O Invasor e Saudosa Maloca (interpretando, veja só, Adoniran Barbosa), interpretar, seja em cena ou em canções, para ele sempre foi muito natural.
Agora, o artista leva o dom da interpretação para outro patamar com seu quinto álbum, Coisas da Vida, primeiro disco totalmente como intérprete. Nele, há canções de Criolo (“Não Existe Amor em SP”), do próprio Adoniran Barbosa (“Saudosa Maloca”), Cazuza (“O Tempo Não Para”), para além da autointitulada de Rita e Roberto. Todas as versões ganharam um upgrade com os arranjos orquestrais de Otávio de Moraes e Rafael Ramos.
Miklos conta que decidiu dar um toque próprio a cada uma das canções, fazendo do disco uma espécie de playlist pessoal. "Escolhi fazer um disco de intérprete mesmo. Cada uma das músicas que eu escolhi tem uma historinha particular, de uma situação ou de uma época”, diz ele. Sejam lembranças de amores passados ou da primeira música que tirou no violão.
O primeiro single, “Sal da Terra” é um desses casos. A faixa de Beto Guedes e Ronaldo Bastos marcou Miklos desde quando ele assistiu a um show de Guedes com uma ex-namorada e disse ter “saído de lá flutuando”. A escolha para entrar no disco vem da mensagem da canção, cada vez mais atual. “Tem esse tom de convocação, né? ‘Vamos precisar de todo mundo… um mais um é sempre mais que dois’. Acho tão bonito porque cresci nessa geração que queria mudar o mundo. E continuo pensando da mesma forma”.
Pensando além
O repertório de Coisas da Vida também passa uma mensagem de esperança e reflexão sobre o futuro, numa escolha pincelada a dedo por um artista que, no auge de seus mais de 40 anos de estrada, preferiu continuar olhando para o futuro. Isso se reflete também na busca por se conectar com uma nova geração através da música. Ele disse estar por dentro da nova música brasileira feita por artistas como Francisco, el Hombre, Sophia Chablau e Papisa, com quem colaborou ano passado no single “Maremoto / São Paisagens, Novas Descobertas”.
O disco ainda tem versões inusitadas, como “Xibom Bombom”, hit de axé do grupo As Meninas - que ele disse ter cantado, instintivamente, após acordar do coma induzido em uma UTI em 2024. Esse trânsito por outros estilos musicais não é novidade ou tabu para Miklos. Ele se recorda de quando foi tocar em Salvador nos anos 90, em plena febre do axé, e foi fazer uma brincadeira que acabou se tornando uma gafe: “Eu subi no palco e mandei 'ê, faraô' [diz, cantando o verso eternizado pelo Olodum]. Na hora, o público fez cara feia [risos]. Porque eu não podia estar ali, num show de rock, em Salvador, e mandar um axé. As pessoas não queriam ouvir aquilo! [risos]". Eis mais uma prova de que o preconceito musical nunca foi uma tônica na carreira do artista.
No repertório, tem até “Evidências”. Miklos gosta de lembrar que a canção, hoje considerada uma espécie de “hino nacional informal do Brasil” , na caneta de José Augusto e Paulo Sérgio Valle, era uma canção romântica. Foi só quando ganhou o Brasil com Chitãozinho e Xororó que se tornou um bastião da música sertaneja.
"Esse disco tem um quadro muito diverso, tanto no tempo quanto nos gêneros musicais”, conta ele. "Essa é a magia do intérprete, né? Criar um universo próprio para a canção. Com esse trabalho, acho que consegui isso."




