
Não é de hoje que o engajamento dos fandoms brasileiros vira pauta. Mas, depois da reeleição de Lula no último domingo (25/10), numa virada histórica sobre Flávio Bolsonaro — atribuída à mobilização online, à juventude universitária, aos idosos e também, claro, aos fandoms — muito se fala sobre a responsabilidade que esses grupos tiveram nas eleições.
O próprio presidente Lula reconheceu esse papel: “Começo a minha fala dizendo ‘companheiros e companheiras’ ou começo dizendo ‘fandoms do Brasil’? Obrigado pela iniciativa de vocês”, disse ele durante uma manifestação na Avenida Paulista no dia 11 de outubro.

Toda essa mobilização dos fã-clubes no período eleitoral chamou a atenção da imprensa internacional. Uma matéria da Variety viralizou nesta segunda (27/10), especialmente pelo título, que atribuía a vitória de Lula a um “conselho” de Taylor Swift aos fãs, para que a juventude tomasse a frente nas pautas. Sendo Taylor Swift essa cantora que tem índices de popularidade tão grandes quanto sua rejeição, muitos internautas criticaram o título da publicação, que pareceu dar os louros de uma imensa mobilização nacional a um artista estrangeiro.
Ídolos que se posicionam politicamente ou em defesa das minorias, como muitos cantores pop (a própria Taylor incluída), de fato, podem influenciar seu público. Mas atribuir só a eles essa mobilização é menosprezar a força de organização dos fãs — especialmente dos brasileiros.
Please, come to BraSil!
Desde a popularização das redes sociais, o brasileiro soube ocupá-las, seja fazendo memes ou se manifestando massivamente em cada uma delas. Os fandoms que viralizaram o chavão "please come to Brazil" já indicam essa capacidade de fazer barulho e chamar a atenção lá fora.
Um bom exemplo é o curta Come to Brasil, documentário da norte-americana Lina Abascal lançado em julho pela Rolling Stone. A produção acompanha quatro superfãs cariocas de Beyoncé, Madonna, Lady Gaga e Taylor Swift para entender como essa paixão reúne pessoas em torno de um objetivo comum [você pode assisti-lo abaixo].
Eleições pop
Outra reportagem internacional, assinada por Felipe Maia no The Guardian, mostra que mais de 600 grupos de fãs brasileiros se uniram em apoio a Lula logo depois do primeiro turno, quando Flávio saiu na frente. Diante do risco que uma vitória bolsonarista representava para os direitos das minorias, essas páginas colocaram suas contas a serviço da campanha do candidato do PT no segundo turno. A articulação chegou à alta cúpula da chapa: em 11 de outubro, representantes dos fã-clubes se reuniram com o vice-presidente Geraldo Alckmin, num encontro transmitido ao vivo pelos canais da Dia TV e da Mídia Ninja no YouTube.
A lista desses fandoms ia de Billie Eilish, BTS — que se apresenta nesta semana em São Paulo — Lady Gaga, Katseye, Harry Styles e Selena Gomez até artistas brasileiros, como Anitta, Marina Sena e Ludmilla.
Todo esse movimento começou no Info Billie Brasil, uma das maiores comunidades de fãs da cantora no país, e virou o Fandoms Pelo Brasil, página que orienta fãs de pop a se mobilizarem politicamente. O esforço rendeu resultados: um dos primeiros ídolos internacionais a se mobilizaram pró-Lula foi o irmão de Billie, Finneas, que postou em seu story uma foto "fazendo o L" com as mãos, a pedido do fã-clube brasileiro. Com o tempo, outras estrelas internacionais, de Mark Ruffalo a Justin Bieber, apoiaram a causa.
“Nossa frustração com a eleição se transformou em algo enorme", contou V., uma dessas fãs, ao The Guardian. Isso porque muitos fãs saíram das redes sociais e tomaram as ruas. No último ato antes do segundo turno, na Avenida Paulista, bandeiras do PT dividiam espaço com cartazes com fotos de Billie Eilish, BTS, Marina Sena, Anitta e até de “Taylula”, uma Taylor Swift criada em IA usando o chapéu panamá do presidente.
O poder do engajamento
O estúdio de comunicação 300Noise, sempre à frente, já estava de olho nesse poder de mobilização dos fandoms. O coletivo lançou, pouco antes das eleições, uma pesquisa que trata os fandoms como movimentos de forte engajamento social. A equipe mergulhou em grupos de WhatsApp e entrevistou administradores de páginas de fãs brasileiros de pop, rock, k-pop e rap para entender como eles se organizam. A conclusão é que essas comunidades funcionam com lógicas parecidas às de partidos políticos.
O resultado foi um “Manual de Guerrilha” [baixe aqui], feito para ajudar outros fandoms a se organizarem. Para o coletivo, a mobilização em torno de um ídolo, quando bem articulada, também pode trazer conquistas para o próprio fã, como cobrar melhorias para os consumidores que, afinal, são quem movimenta esse mercado.
“O que a gente quer é que essas comunidades conversem entre si, que elas entendam melhor o funcionamento das coisas, que se posicionem melhor no mercado” - Felipe Alves, fundador e diretor do 300noise.
O que aconteceu nestas eleições foi uma soma de fatores que geraram um engajamento histórico aliando diferentes setores progressistas, de artistas à juventude, além de uma campanha nas redes sociais coordenada pelo deputado André Janones e apoiada por outros políticos populares nas redes, incluindo Erika Hilton (PSOL-SP) e Ana Elisa (PT-MG).
Nessa soma de fatores, os fãs, claro, tiveram um importante papel. É como bem resumiu Raíssa, uma fã de Beyoncé, ao The Guardian: "Muita gente não acompanha política, mas segue fã-clubes e perfis de fãs, então acho que os fandoms podem levar esse tipo de discussão para mais pessoas”. Assim, o chamado “come to Brazil” sai das redes sociais e ocupa as ruas (e as urnas), convidando os fãs a também serem peça fundamental do jogo político.








