
Você já se perguntou por que tem um pequi nas capas dos principais discos do Beto Guedes, um dos heróis do Clube da Esquina? Sim, um pequi. O selo alaranjado que orna capas icônicas como A Página do Relâmpago Elétrico (1977) e Amor de Índio (1978) é uma homenagem ao fruto, comum no cerrado brasileiro, especialmente em regiões de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Tocantins. Quem conta essa história é o próprio Beto Guedes. Spoiler: tem a ver com uma maçã que virou marca famosa lá fora — não é a do Steve Jobs, obviamente, mas a dos Beatles.
Mas vamos começar do começo: tudo vem de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, cidade onde Beto nasceu. O pequi, fruto típico da culinária da região, foi transformado pelo músico em uma espécie de assinatura visual, em referência direta ao selo da Apple Records, gravadora criada pelos Beatles em 1968.

Beto Guedes, como dá para perceber, é um grande fã do quarteto. Quando adolescente, já em Belo Horizonte, formou uma banda cover com Lô Borges, Yê Borges e Marcio chamada The Beavers - "pra ficar o mais parecido possível com 'The Beatles'", disse ele em entrevista ao canal da UBC.
Depois, foi impactado profundamente pela fase psicodélica da banda, o que se reflete especialmente na sonoridade de A Página do Relâmpago Elétrico — sem contar o título de seu sexto álbum, Alma de Borracha (1996), que (não por coincidência) também é a tradução de Rubber Soul.
Sem pequi não dá
Assim, o pequi funcionava como uma espécie de versão mineira — e bem-humorada — da famosa maçã: se os Beatles tinham uma maçã estampada como selo e nos rótulos dos discos, Beto tinha um fruto que lembrava a sua casa.
E a escolha por homenagear a sua Montes Claros, "terra do pequi", não foi apenas estética, como comprova esse causo mineiro: o clássico disco Sol de Primavera (1979) só não ganhou o selo do pequi porque foi gravado em outubro, fora da temporada da fruta (que, pra quem estiver se perguntando, acontece entre novembro e janeiro). Não seria de bom tom.
O tempo passou e Beto Guedes, mesmo não usando mais o selo, seguiu fiel ao fruto: ano passado mesmo foi atração principal da Festa Nacional do Pequi, que rolou em Montes Claros.
O artista completa 75 anos em 2026 e sua obra, como se vê, segue despertando curiosidade e atraindo novas gerações. Um bom exemplo é “Amor de Índio”, parceria com Ronaldo Bastos e obra de Beto mais executada no Brasil nos últimos cinco anos, segundo levantamento do Ecad. Em seguida, vem “O Sal da Terra”, também composta com Ronaldo Bastos — e regravada em 2026 por Paulo Miklos.
Reza a tradição que o pequi é uma fruta polêmica: o famoso arroz de pequi, tradicional em diferentes regiões do Centro-Oeste, costuma receber o atestado de “ame ou odeie” pelo cheiro marcante. Mas, nas mãos de Beto Guedes, o pequi virou marca de uma obra que atravessou gerações — e ajudou a transformar um fruto do cerrado em um dos símbolos mais reconhecíveis da nossa discografia.





