
Em 2026, a indústria da música entra em um novo período marcado por avanços tecnológicos, mudanças no consumo e um mercado cada vez mais globalizado. O sucesso de Bad Bunny é um exemplo deste último: o porto-riquenho já liderou o ranking global do Spotify por três anos consecutivos (2020, 2021 e 2022) e acumula bilhões de streams no mundo. No Brasil, a audiência cresceu ainda mais após a apresentação no Super Bowl e os shows em São Paulo, em fevereiro.
A presença de músicas em diferentes idiomas nos rankings internacionais cresceu de forma consistente: em 2025, faixas em cerca de 16 línguas não-inglesas apareceram no Top 50 global do Spotify, mais que o dobro registrado no início da década. O fenômeno é impulsionado por cenas locais que ganharam projeção mundial, como o pop latino, o K-pop, o afrobeats, incluindo até o funk brasileiro.
Enquanto isso, o som que pipoca nas plataformas é quente, dançante e, às vezes, romântico. Dados do Spotify apontam que o funk, juntamente com o pagode, subiu nos streamings no último ano, e a tendência é que aumente ainda mais nos próximos meses. Segundo a Reuters, os mercados chamados "emergentes" são os que mais crescem: em 2024, por exemplo, a receita musical cresceu em 22,5% na América Latina.
Paralelamente à expansão digital, formatos físicos seguem demonstrando vitalidade, especialmente o vinil. Em alguns dos principais mercados musicais do mundo, as vendas de LPs continuam crescendo ano após ano — no Reino Unido, por exemplo, ultrapassaram 7,6 milhões de unidades em 2025. O interesse é puxado sobretudo por ouvintes mais jovens e colecionadores, reforçando o valor do disco como objeto cultural.
O ecossistema musical também favorece a ascensão de artistas independentes, o que se reflete também no surgimento de selos que abrigam e impulsionam essas carreiras. Além disso, não dá pra escapar do assunto — ou do tabu — da vez: a inteligência artificial. Ferramentas capazes de gerar bases, melodias e até vozes sintéticas a partir de comandos de texto já fazem parte do cotidiano de produtores e compositores, ampliando as possibilidades criativas, ao mesmo tempo em que acendem debates sobre direitos autorais, uso de catálogos e remuneração de artistas.
No Brasil, o avanço da inteligência artificial na música tem provocado reação do setor artístico. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal realizou uma audiência pública para discutir direitos autorais na era digital, reunindo entidades da indústria e músicos preocupados com o uso de obras e vozes para treinar sistemas de IA. Artistas como Caetano Veloso, Marisa Monte e Marina Sena defenderam regras claras para proteger direitos autorais em tempos de novas tecnologias.
Buscamos especialistas no mercado musical para nos contarem outras tendências que eles vêm observando para o futuro da música. Confira as principais projeções de Chinaina (Multishow), Monique Dardenne (WME), Guilherme Guedes (Globo), Carolina Alzuguir, (Spotify Brasil) e, Dedé Teicher (jornalista e instrumentista).
Foco no independente - Chinaina, músico e apresentador
“Esse é o ano dos novos artistas independentes. Temos uma nova cena diversa e muito interessante que precisa de espaço nos lineups dos festivais e programas de TV e rádio. De uns anos pra cá, já vemos o mercado olhando um pouco pra essa meninada e espero que nesse ano as portas se abram mais.”
Ritmo quente - Carolina Alzuguir, head de música no Spotify Brasil
“Temos observado um crescimento consistente de faixas influenciadas pelo dancehall no ecossistema do funk, especialmente na vertente conhecida como funkhall. Essa fusão vem ganhando cada vez mais espaço, principalmente em períodos como o verão, quando há uma procura maior por sonoridades com estética mais “quente” e dançante. A tendência é que esse movimento continue em 2026, ampliando ainda mais o alcance desse subgênero.”
A novidade encontra a tradição - Dedé Teicher, apresentadora e música
“Uma coisa bonita tem se repetido na música brasileira: o encontro da novidade com a história. Evinha redescoberta via samples do BK’, Gil dialogando com Alok, Emicida evocando os Racionais, Luísa Sonza se unindo a Menescal e Toquinho. Mais do que reinventar a roda, o tempo pede diálogo, troca de figurinhas geracional e respeito a quem pavimentou o caminho. Como diz Marcelo D2: quanto mais atrás se puxa o arco, mais longe vai a flecha. E 2026 promete muitas flechas no ar.”
Beat do futuro - Guilherme Guedes, jornalista e apresentador
“Vejo espaço para um interesse crescente em ritmos jamaicanos como o reggae, em versões atualizadas e repaginadas, e o reggaeton, em regiões caribenhas. Também vejo que há muita procura por uma música eletrônica rápida, pesada e intensa; mas também vejo uma reação a esse movimento através de sonoridades e propostas mais orgânicas, em contraposição, inclusive, ao aumento na produção de música feita por IA.”
Hi-fi em casa - Monique Dardenne, co-fundadora do WME
“A tendência dos listening bars começa a invadir as casas. Boas caixas de som, toca-discos, coleções de LPs, revistas, livros de música e arte voltam a ganhar destaque nesses cantos da casa. Mais do que um espaço, o listening room é um convite para transformar a audição em ritual: desacelerar, ouvir um álbum do começo ao fim, perceber texturas e detalhes que as micro-caixas de som simplesmente não entregam.”









