Redd Kross By Gilber Trejo 1 (1)

Redd Kross: banda que inspirou Tarantino, criou looks marcantes e virou cult underground vem ao Brasil


Por:

Damy Coelho

Fotos: Gilber Trejo/Divulgação; Reprodução site oficial

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Comemorando 46 anos de história, com álbuns notáveis na bagagem — como Neurotica (1987) e Phaseshifter (1993) — o Redd Kross desembarca pela primeira vez no Brasil nesta sexta (26/06), no Cine Joia, em São Paulo. Se você não conhece, deveria: o grupo californiano é formado pelos irmãos Jeff e Steven McDonald (guitarra e vocal/baixo, respectivamente), que se juntam a Dale Crover (bateria, ex-Nirvana) e Jason Shapiro (guitarra). Steven e Dale, inclusive, também tocam no Melvins.

O público brasileiro ainda pode ter o gostinho de assistir ao elogiado Born Innocent: The Redd Kross Story, documentário que figura na programação do In-Edit Brasil e estreia na véspera do show (25/06) com presença da banda [saiba mais aqui].

A banda favorita de sua banda favorita

É difícil colocar o Redd Kross em uma única caixinha. Ao longo da carreira, o grupo transitou pelo punk hardcore cru de Born Innocent (1982), pelo power pop melódico e exuberante de Neurotica (1987) e Phaseshifter (1993), além do brilho glam e das referências pop de Third Eye (1990), entre tantos outros caminhos.

Não é raro ouvir a definição de que eles são a "banda favorita de sua banda favorita". Alguns fãs declarados são Kim Gordon e Thurston Moore, do Sonic Youth, e Keith Morris, do Black Flag.

Exaltado por um público fiel (geralmente fãs de grunge e powerpop), o Redd Kross ainda carrega um caráter underground, o que os deixa na posição privilegiada de tocar a carreira como bem entenderem.

Isso se reflete numa trajetória que recusa qualquer lugar-comum: do EP de estreia gravado às pressas na cena hardcore californiana ao álbum homônimo lançado em 2024 com 18 faixas de power-pop impecável (conhecido como "Red Album"), os irmãos McDonald não deixaram de fazer exatamente o que queriam. E funcionou.

"Ouvir música há tantos anos faz com que tudo vá se infiltrando no que a gente faz", resume Jeff em entrevista à Noize.

Quase 50 anos de estrada

Pode não parecer que o Redd Kross tenha uma história tão longa, mas eles começaram (muito cedo): Steven tinha 11 anos e Jeff, 15. São impagáveis as fotos de Steven segurando um baixo maior que ele durante um dos primeiros shows do grupo — na mesma época, em 1979, os irmãos já abririam para o Black Flag.

Ao longo desses anos, os McDonald escaparam de qualquer manchete polêmica que citassem uma "briga entre irmãos no rock" (talvez porque elas já estivessem reservadas a outros irmãos, os Gallagher). Pelo contrário, a relação deles parece bem tranquila. "Eu e Jeff nos comunicamos por telepatia. Depois de tanto tempo, não precisamos nem falar para nos entendermos", garante Steven.

"No fundo, os benefícios de termos essa vida compartilhada superam os problemas; nenhuma discussão é tão grave assim. Moramos a cinco minutos um do outro há décadas. A gente nunca deixou de ser amigo", diz.

Nas ideias de Tarantino

Outro aspecto que surpreende no histórico do Redd Kross é a relação com o cinema, mais especificamente com Quentin Tarantino. Isso porque Jeff já trabalhou com o diretor numa locadora, veja só.

Reza a lenda que o diálogo sobre a Madonna que abre Cães de Aluguel veio de uma conversa que Tarantino teve com ele. E mais: a banda quase entrou na trilha sonora de Pulp Fiction com "Blow You a Kiss in the Wind", mas foi substituída por "Girl, You'll Be a Woman Soon" na versão de Urge Overkill — que virou hit em vários países, inclusive aqui no Brasil. Pois é.

Do Black Flag ao Blackpink

No Redd Kross, o selo fashion caminhou junto com a música. O clipe de "Annie's Gone", do Third Eye, é um bom exemplo: é glam, colorido, irreverente e kitsch. Brinco com eles que, para mim, os mais bem-vestidos do rock naquele início dos anos 90 eram eles e Jarvis Cocker, vocalista do Pulp, e eles riem. "A gente comprava roupas juntos em brechós!", brinca Jeff.

"Quando começamos, tocávamos para públicos punk rock e estávamos cansados do uniforme do movimento", conta. "Aí descobrimos que dava para encontrar roupas incríveis dos anos 1960 e 70 em brechós, e éramos os únicos com coragem de usá-las. Criávamos visuais enormes e chamativos e chocávamos o nosso público punk, o que era sempre divertido", finaliza.

Detalhe: durante nossa entrevista, Jeff estava usando uma camisa do Blackpink.

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Além das músicas, os irmãos conquistam também pelo carisma, o que deve ficar claro nos shows (e na entrevista que você lê abaixo). André Barcinski, que está trazendo os californianos para o Brasil com a produtora Maraty, comenta: "O nome Redd Kross é uma instituição da música alternativa. É uma banda de importância muito, muito grande. E o fato deles, em quase 50 anos, nunca terem vindo para a América do Sul é uma surpresa. É uma alegria muito grande poder trazer esses caras", diz ele. Alegria maior é a nossa.

Confira o bate-papo completo com Jeff e Steven McDonald:

O Redd Kross tem muitos estilos diferentes — power pop, punk, e por aí vai. Isso é natural no processo criativo de vocês? Podem dividir um pouco desse processo conosco?

Steven: Jeff tem sido o principal compositor da banda durante a maior parte da nossa carreira. Então essa é realmente uma pergunta para ele. Jeff, quando você senta para escrever uma música, pensa no gênero antes?

Jeff: Não. Eu simplesmente sento e toco. Às vezes começo tocando uma música que amo — pode ser qualquer coisa — e ela vai se transformando em outra coisa. Toda nossa biblioteca musical está sempre na cabeça na hora da criação. Ouvimos música há tantos anos que tudo vai se infiltrando no que fazemos.

Em 2024, vocês lançaram um álbum novo, um documentário e um livro. Como é olhar para trás e ver esse legado de mais de quarenta anos?

Steven: É muito bacana. A gente começou tão jovem que talvez estejamos fazendo essa retrospectiva alguns anos mais cedo do que a maioria. Mas sou muito grato, porque é uma história maluca — muita coisa divertida, algumas lições duras e, no fim, todo mundo chegou em um bom lugar. Estamos tão animados com o futuro quanto com o passado.

Jeff: Desde que o álbum homônimo saiu, já faz dois anos que vivemos imersos nessa história: fazendo imprensa pelo documentário, falando sobre o livro, tocando o disco novo. Esses shows no Brasil são os últimos da turnê do Red Album, então depois a gente vai ter que voltar ao presente.

Vocês são irmãos e tocam juntos há décadas. Como é essa relação de manter uma banda assim por tantos anos, sem nunca protagonizar um clima de tensão como fazem, tipo, os Gallagher? (risos)

Steven: Você está querendo criar uma tensão entre nós?(risos)

Jeff: (risos) Nos comunicamos por telepatia — depois de tanto tempo, não precisamos nem falar para nos entendermos. Mas, às vezes, os fios se cruzam e a gente pode ficar bem estressado um com o outro. No fundo, os benefícios de ter essa vida compartilhada superam os problemas. É um bom indicativo de que não é tão grave assim.

Steven: Quer dizer, nós moramos a cinco minutos um do outro. A gente nunca deixou de ser amigo.

Trabalhar com qualquer outra pessoa já tem seus desafios — e aí você adiciona toda a história de ter sido criado pela mesma família. Uma mágoa antiga pode aparecer do nada quando você está só tentando decidir um setlist. Mas se você está aberto a estar errado de vez em quando, dá para navegar.

E outra coisa que vale dizer: Jeff e eu nunca fomos testados da forma como alguns desses outros exemplos famosos foram. Quando penso no que os irmãos Gallagher passaram juntos... é impressionante que eles tenham feito aquela turnê agora.

Vocês sempre tiveram um visual muito marcante, o que transparecia nos clipes e na forma de se vestirem. Vocês tinham alguma inspiração fashion, especialmente no início ali dos anos 1990?

Jeff: Quando começamos, tocávamos para públicos punk rock. Estávamos cansados do uniforme do estilo. Aí, descobrimos que dava para encontrar roupas incríveis dos anos 1960 e 70 em brechós, e éramos os únicos com coragem de usá-las. Criávamos visuais enormes e chamativos e chocávamos o nosso público punk, o que era sempre divertido.

Com o tempo, ficou mais difícil chocar as pessoas só com uma boa aparência. Então nessa turnê dos últimos dois anos, passamos a usar roupas iguais — looks que criamos para o clipe de "Candy-Colored Catastrophe". Depois desses shows no Brasil, elas vão ser aposentadas. A calça da minha já está rasgada na virilha, então torço para que sobreviva até lá (risos).

Steven: Quando éramos jovens, depois dos shows, a gente mergulhava naquelas caixas de doação que ficam nos estacionamentos de supermercado. Encontrávamos as coisas mais absurdas.

Guardei quase todas as roupas de palco de todas as fases da banda — estão na garagem, em caixas de plástico transparentes. De vez em quando vejo um terno que usei em 1991 ou algo dos anos 80. Tenho sorte de ter espaço para guardar tudo isso. São peças de museu.

Se vocês passassem uma tarde numa loja de discos aqui no Brasil, o que comprariam?

Steven: Somos fãs de Os Mutantes desde os anos 80. Nós já até tocamos músicas deles algumas vezes! [risos].

Como somos uma revista de vinil, não posso deixar de encerrar com essa pergunta: vocês ainda ouvem LPs?

Jeff: Compro discos desde criança e ainda tenho todos guardados. O problema é que, quando éramos pequenos, só tínhamos um toca-discos barato. Então, posso ter algum vinil raro e valioso completamente riscado — porque a gente ouvia sem parar. Para mim, disco é para tocar, não para guardar.

Steven: Ouvir discos foi uma educação estranha e maravilhosa. Lembro de ouvir os Beatles, os Sex Pistols e Rumours (1977) do Fleetwood Mac, um atrás do outro. Talvez seja exatamente isso que nos ajudou a misturar gêneros na música.

Lembro de ficar olhando para a capa a tarde inteira, lendo a ficha técnica. Hoje a informação deveria ser mais fácil de encontrar, mas você tem que garimpar em páginas cheias de pop-ups. É frustrante.

Redd Kross no Brasil

26 anos do In-Edit Brasil e 40 anos da London Calling Discos

Data: 26 de junho de 2026 (sexta-feira)

Local: Cine Joia

Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade (São Paulo/SP)

Abertura da casa: 19h | Início dos shows: 20h

Ponto de venda físico: Loja 255 (Galeria do Rock/SP). Pagamento via Pix

Por:

Damy Coelho

Fotos: Gilber Trejo/Divulgação; Reprodução site oficial

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