
Comemorando 46 anos de história, com álbuns marcantes na bagagem — como Neurotica (1987) e Phaseshifter (1993) — o Redd Kross desembarca pela primeira vez no Brasil nesta sexta (26/06), no Cine Joia, em São Paulo.
O público ainda vai ter o gostinho de assistir pela primeira vez por aqui o elogiadíssimo Born Innocent: The Redd Kross Story, documentário que figura na programação do In-Edit Brasil e estreia na véspera do show (25/06) com presença da banda [saiba mais aqui]. No palco, os irmãos se juntam a Dale Crover (bateria) e Jason Shapiro (guitarra). Steve e Dale, inclusive, também tocam no Melvins.
Exaltada por um público fiel (geralmente fãs de grunge e powerpop), a banda ainda carrega um caráter underground, o que a posiciona na privilegiada missão de tocar a carreira como bem entender.
Isso se reflete numa trajetória marcada por recusas sistemáticas ao lugar-comum: do EP de estreia gravado às pressas na cena hardcore californiana ao álbum homônimo lançado em 2024 com 18 faixas de power-pop impecável (conhecido como "Red Album"), os irmãos McDonald não deixaram de fazer exatamente o que queriam. E funcionou.
Um pouco de tudo
Difícil colocar o Redd Kross em uma caixinha, como fazem os críticos musicais. Muitos declararam que se trata da "banda favorita de sua banda favorita", por já terem sido exaltados por gente como Kim Gordon e Thurston Moore (Sonic Youth) e Keith Morris (Black Flag). Outros mostram que eles surfaram por vários estilos: do punk hardcore cru de Born Innocent (1982) ao powerpop melódico e exuberante de Neurotica (1987) e Phaseshifter (1993), passando pelo brilho glam e referências pop de Third Eye (1990), só para citar alguns exemplos. "Nós dois ouvimos música há tantos anos que tudo vai se infiltrando no que a gente faz", diz Jeff em entrevista à Noize.
Das características que mais impressionam na banda, porém, está o caráter precoce do Redd Kross: são impagáveis as fotos de Steven segurando um baixo quase maior que ele, durante um dos primeiros shows do grupo, na mesma época em que abriram para ninguém menos que o Black Flag em 1979. Ele tinha 11 anos e Jeff, 15.
Mas teve uma coisa da qual eles conseguiram escapar: as manchetes com polêmicas de brigas entre irmãos no rock (que parecem já estar todas reservadas a outros irmãos do rock, os Gallagher, do Oasis). "Nos comunicamos por telepatia. Depois de tanto tempo, não precisamos nem falar para nos entendermos", garante Steven. "No fundo, os benefícios de ter essa vida compartilhada superam os problemas. É um bom indicativo de que não é tão grave assim: moramos a cinco minutos um do outro há décadas. A gente nunca deixou de ser amigo."
Do EP homônimo gravado em 1980 ao duplo lançado em 2024 , o arco narrativo do Redd Kross é o de uma banda que sobreviveu ao hardcore, ao alt-rock dos anos 90, ao hiato dos anos 2000 e à pandemia sem perder a irreverência.
Do Black Flag ao Blackpink
No Redd Kross, o selo fashion caminhou junto com a música. O clipe de "Annie's Gone" é um bom exemplo: é glam, colorido, irreverente e kitsch. Brinco com eles que, para mim, os mais bem-vestidos do rock naquele início dos anos 90 eram eles e Jarvis Cocker, vocalista do Pulp, e eles riem. "A gente comprava roupas juntos em brechós!", brinca Jeff (que, durante a entrevista, usava nada menos que uma camisa do Blackpink).
"Quando começamos, tocávamos para públicos punk rock e estávamos cansados do uniforme do movimento", conta. "Aí descobrimos que dava para encontrar roupas incríveis dos anos 1960 e 70 em brechós, e éramos os únicos com coragem de usá-las. Criávamos visuais enormes e chamativos e chocávamos o nosso público punk, o que era sempre divertido".

Além das músicas, os irmãos conquistam também pelo carisma, o que deve ficar claro nos shows. André Barcinski, que está trazendo os californianos para o Brasil com a produtora Maraty, comenta: "O nome Redd Kross é uma instituição da música alternativa. É uma banda de importância muito, muito grande. E o fato deles, em quase 50 anos, nunca terem vindo para a América do Sul é uma surpresa. É uma alegria muito grande poder trazer esses caras", diz ele. Alegria maior é a nossa.
Confira o bate-papo completo com Jeff e Steven McDonald:
O Redd Cross tem muitos estilos diferentes — power pop, punk, e por aí vai. Isso é natural no processo criativo de vocês? Podem dividir um pouco desse processo conosco?
Steven: Jeff tem sido o principal compositor da banda durante a maior parte da nossa carreira. Então essa é realmente uma pergunta para ele. Jeff, quando você senta para escrever uma música, pensa no gênero antes?
Jeff: Não. Eu simplesmente sento e toco. Às vezes começo tocando uma música que amo — pode ser qualquer coisa — e ela vai se transformando em outra coisa. Toda nossa biblioteca musical está sempre na cabeça na hora da criação. Ouvimos música há tantos anos que tudo vai se infiltrando no que fazemos.
Em 2024, vocês lançaram um álbum novo, um documentário e um livro. Como é olhar para trás e ver esse legado de mais de quarenta anos?
Steven: É muito bacana. A gente começou tão jovem que talvez estejamos fazendo essa retrospectiva alguns anos mais cedo do que a maioria. Mas sou muito grato, porque é uma história maluca — muita coisa divertida, algumas lições duras e, no fim, todo mundo chegou em um bom lugar. Estamos tão animados com o futuro quanto com o passado.
Jeff: Desde que o álbum homônimo saiu, já faz dois anos que vivemos imersos nessa história: fazendo imprensa pelo documentário, falando sobre o livro, tocando o disco novo. Esses shows no Brasil são os últimos da turnê do Red Album, então depois a gente vai ter que voltar ao presente.
Steven: Parece que, nesses últimos dois anos, foi o início do próximo capítulo da banda. Nessas horas, lembro do Sparks, a banda com a qual toquei por cinco anos. Eles sempre foram muito dedicados a nunca olhar para trás, só criar coisas novas. Mas quando fizeram uma retrospectiva, foi muito positivo para a carreira deles. Acho que estamos fazendo a nossa versão disso.
Vocês são irmãos e tocam juntos há décadas. Como é essa relação de manter uma banda assim por tantos anos, sem nunca protagonizar um clima de tensão como fazem, tipo, os Gallagher? (risos)
Steven: Você está querendo criar uma tensão entre nós?(risos)
Jeff: (risos) Nos comunicamos por telepatia — depois de tanto tempo, não precisamos nem falar para nos entendermos. Mas, às vezes, os fios se cruzam e a gente pode ficar bem estressado um com o outro. No fundo, os benefícios de ter essa vida compartilhada superam os problemas. É um bom indicativo de que não é tão grave assim.
Steven: Quer dizer, nós moramos a cinco minutos um do outro. A gente nunca deixou de ser amigo.
Trabalhar com qualquer outra pessoa já tem seus desafios — e aí você adiciona toda a história de ter sido criado pela mesma família. Uma mágoa antiga pode aparecer do nada quando você está só tentando decidir um setlist. Mas se você está aberto a estar errado de vez em quando, dá para navegar.
Eu também peguei uma referência de perto: durante cinco anos, observei a dinâmica dos irmãos Mael no Sparks, que encontraram uma forma muito funcional de se relacionar.
E outra coisa que vale dizer: Jeff e eu nunca fomos testados da forma como alguns desses outros exemplos famosos foram. Quando penso no que os irmãos Gallagher passaram juntos... é impressionante que eles tenham feito aquela turnê agora.
Vocês sempre tiveram um visual muito marcante, o que transparecia nos clipes e na forma de se vestirem. Vocês tinham alguma inspiração fashion, especialmente no início ali dos anos 1990?
Jeff: Quando começamos, tocávamos para públicos punk rock. Estávamos cansados do uniforme do estilo. Aí, descobrimos que dava para encontrar roupas incríveis dos anos 1960 e 70 em brechós, e éramos os únicos com coragem de usá-las. Criávamos visuais enormes e chamativos e chocávamos o nosso público punk, o que era sempre divertido.
Com o tempo, ficou mais difícil chocar as pessoas só com uma boa aparência. Então nessa turnê dos últimos dois anos, passamos a usar roupas iguais — looks que criamos para o clipe de "Candy-Colored Catastrophe". Depois desses shows no Brasil, elas vão ser aposentadas. A calça da minha já está rasgada na virilha, então torço para que sobreviva até lá (risos).
Steven: Quando éramos jovens, depois dos shows, a gente mergulhava naquelas caixas de doação que ficam nos estacionamentos de supermercado. Encontrávamos as coisas mais absurdas.
Guardei quase todas as roupas de palco de todas as fases da banda — estão na garagem, em caixas de plástico transparentes. De vez em quando vejo um terno que usei em 1991 ou algo dos anos 80. Tenho sorte de ter espaço para guardar tudo isso. São peças de museu.
Se vocês passassem uma tarde numa loja de discos aqui no Brasil, o que comprariam?
Steven: Somos fãs de Os Mutantes desde os anos 80. Nós já até tocamos músicas deles algumas vezes! [risos].
Como somos uma revista de vinil, não posso deixar de encerrar com essa pergunta: vocês ainda ouvem LPs?
Jeff: Compro discos desde criança e ainda tenho todos guardados. O problema é que, quando éramos pequenos, só tínhamos um toca-discos barato. Então, posso ter algum vinil raro e valioso completamente riscado — porque a gente ouvia sem parar. Para mim, disco é para tocar, não para guardar.
Tínhamos aquele toca-discos empilhador, então colocava três ou quatro discos de cada vez. A gente dividia um quarto quando criança, e eu lembro de uma noite ouvindo o segundo disco do New York Dolls, Too Much Too Soon (1974). Tinha um arranhão e a música ficou pulando a noite toda enquanto a gente dormia. Se você ouvir aquele disco hoje, naquele trecho o áudio fica bem apagado... não pula mais, mas a informação sumiu.
Steven: Ouvir discos foi uma educação estranha e maravilhosa. Lembro de ouvir os Beatles, os Sex Pistols e Rumours (1977) do Fleetwood Mac, um atrás do outro. Talvez seja exatamente isso que nos ajudou a misturar gêneros na música.
E segurar a capa enquanto o disco tocava — isso era o máximo de interação que tínhamos com aquele universo. Era como se fosse nosso Instagram, só que estimulava a imaginação de um jeito completamente diferente. Eu ficava olhando para a capa a tarde inteira, lendo a ficha técnica. Hoje a informação deveria ser mais fácil de encontrar, mas você tem que garimpar em páginas cheias de pop-ups. É frustrante.
Redd Kross no Brasil
26 anos do In-Edit Brasil e 40 anos da London Calling Discos
Data: 26 de junho de 2026 (sexta-feira)
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade (São Paulo/SP)
Abertura da casa: 19h | Início dos shows: 20h
Venda online: fastix.com.br/events/red-kross
Ponto de venda físico: Loja 255 (Galeria do Rock/SP). Pagamento via Pix





