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Redescobrindo Tenório Jr. 50 anos depois: o músico que a ditadura tentou apagar


Por:

Guilherme Serrano

Fotos: Acervo

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Francisco Tenório Cerqueira Júnior, mais conhecido como Tenório Jr. ou simplesmente Tenorinho, nasceu em 4 de julho de 1940 no Rio de Janeiro, cidade na qual circulou pelos mais prestigiados palcos, bares e estúdios entre os anos 1960 e 1970. Pianista de talento singular e referência na cena do samba-jazz e da bossa nova, teve sua trajetória interrompida em 1976, pela então emergente ditadura militar argentina. 

Nascido e criado em Laranjeiras, o filho de Francisco Tenório Cerqueira e Alcinda Lourenço Cerqueira começou sua formação musical na infância, estudando acordeão e violão. Não demorou para dominar também o piano, instrumento pelo qual ficaria conhecido no circuito da música popular.

Ganhou notoriedade tocando na noite carioca. Sobretudo no Beco das Garrafas, importante ponto de encontro da cena musical da época, que experimentava as fusões entre jazz, bebop, samba e bossa nova. Por lá, além de Tenório, passaram nomes como Milton Banana, J.T. Meirelles, Raul de Souza e Roberto Menescal.

Foi a partir dessa turma que se formou Os Cobras, grupo que lançou o disco O LP em 1964. No mesmo ano, a trupe compôs o núcleo de músicos que acompanharam Tenório Jr. em Embalo, seu primeiro e único álbum solo e um marco na música instrumental nacional.

Daí em diante, Tenorinho deixou sua marca registrada em discos icônicos da música brasileira, a exemplo de Lô Borges (1972), conhecido como “o disco do tênis”; Quarteto Em Cy (1972); Índia (1973), de Gal Costa; Academia de Danças (1974), de Egberto Gismonti e Minas (1975), de Milton Nascimento.

Em 1976, o pianista embarcou em uma turnê pela Argentina e Uruguai, acompanhando Vinicius de Moraes e Toquinho. O baterista Mutinho e o contrabaixista Azeitona também faziam parte do time de músicos que passou por Buenos Aires, Punta del Este e Montevidéu.

Em 18 de março, o grupo fez o último show da tour, no Teatro Gran Rex, na capital argentina. Após a apresentação, Tenório Jr. saiu do hotel Normandie, onde estavam hospedados, e nunca mais foi visto. Dias depois, a então presidente argentina, Isabelita Perón, sofreu um golpe que deu início à ditadura no país. Por aqui, os militares também ocupavam o poder, o que freou a repercussão do sumiço de Tenório.

O caso permaneceu sem solução por quase 50 anos, até que em setembro de 2025, a embaixada brasileira em Buenos Aires enfim confirmou a identificação dos restos mortais do artista. Confundido com um militante político, Tenório Jr. foi detido por agentes do serviço secreto argentino e executado com cinco tiros.

Seu corpo foi encontrado em 20 de março de 1976 em um terreno baldio próximo a Buenos Aires. Agora, Tenorinho volta a ocupar o centro das atenções não pela tragédia, mas pela força de sua música. O reconhecimento oficial de sua morte encerra um capítulo doloroso, ao mesmo tempo em que renova o interesse por sua obra. Com o relançamento de Embalo, sua arte ganha nova vida, e o legado de um dos pianistas mais talentosos da história de nossa música é reafirmado.

Por:

Guilherme Serrano

Fotos: Acervo

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