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Retratos Sonoros: Lorena Dini coloca a sensibilidade nos pormenores da imagem


Por:

Lorena Dini

Fotos: Lorena Dini

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Costumo brincar que, antes da imagem existir, ela é um desejo. Um desejo meu e da pessoa com quem estou criando junto. Vê-la pronta é a realização disso. Como sou formada em arquitetura, a minha forma de comunicação sempre foi visual. A moda, por exemplo, abre um leque de possibilidades de novos imaginários, em que novos personagens surgem a cada campanha ou editorial.

Já a música vem de outro lugar: o dos retratos. Amo fotografar pessoas que me inspiram. O momento com o artista é sobre como eu vejo aquela pessoa, mas também é uma troca. Me inspiro muito na música; ela me traz as cores e as texturas da imagem. Como aquele som reflete dentro de mim? Acho bonito trabalhar com músicos porque a inspiração vem da própria música.

Acho que o meu trabalho é parecido com a concepção musical. Fiz um livro (Parei o tempo e pensei em você, 2024) com muitos retratos de músicos. Ele traz minhas memórias e o meu universo – a forma como vejo o mundo. O processo de compor aquelas imagens, formatar o livro, vejo como um processo parecido com o dos compositores ao fazerem um disco. Qual é a história que você quer contar? Ao entender a ordem daquelas fotos, como elas fazem sentido dentro daquilo, é como conceber uma unidade do álbum. Isso me enche os olhos.

Nesses últimos anos, fiz muitas capas e fotos para artistas como Vanessa Moreno, Dani Black, Lulu Santos, 5 a Seco, Maro, Nando Reis, Di Melo, Silvia Perez Cruz, Lianne La Havas, Milton Nascimento… Desde nomes não tão famosos até os nossos grandes nomes. É um mundo que comecei por curiosidade, de ir atrás de uma coisa que me inspirava, e hoje é uma parte importante do meu trabalho.

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O retrato é um retrato do nosso tempo, do tempo do cantor. Quase todos que me procuram, eu tento entender o momento da pessoa. Ao se lançar um disco, você se coloca no mundo de novo, tem uma nova chance de se apresentar para o mundo. Pode ser o vigésimo trabalho, mas ainda assim será o retrato do tempo de agora. O bonito disso tudo é que se torna uma troca íntima.

Enxergo como uma grande responsabilidade a forma como vou traduzir a música para uma imagem, então é importante olhar para cada mínimo detalhe. Cada processo é diferente. Tento fazer uma decupagem do que estou escutando e vou pincelando as palavras que me remetem à pessoa. Tem gente que já chega com ideias pré-estabelecidas, mas, na maioria das vezes, buscam a minha visão. Existe o desafio de conseguir unir a minha visão de moda ao universo musical.

A semiótica existe na própria maneira como a gente se porta. Quando chego em um ambiente novo, nem abri a minha boca, mas a minha roupa já me apresenta; ela já revela se estou ou não conectada à moda, qual é o meu estilo. Querendo ou não, são coisas que comunicam quem você é, são códigos universais.

Na fotografia, eu também preciso desses códigos: seja na maquiagem ou no penteado, se a imagem terá ou não um sorriso, se será um sorriso por trás dos olhos. São pequenas coisas que estruturam todo o processo. No momento, estou desenvolvendo um projeto voltado à moda e aos códigos da sociedade. Imagino como uma exposição ou livro, porque gosto do impresso. Ao tirar a imagem do digital, aquilo vira um objeto que expressa a sua linha de pensamento.

Quando a fotografia está impressa, ela ganha outra dimensão: você entende quais são as cores que eu busquei. Na internet, não tenho controle sobre a cor que a pessoa vai ver, se a pessoa tem o celular com luz branca ou amarela, ou sobre a intensidade dessa luz. No livro, dependendo da gramatura da página, você tem uma quantidade de tinta que se comporta de certa maneira, há a textura do papel, o cheiro da tinta. É como tirar a fotografia do banal. Abrir um livro é um convite a se transportar para um lugar diferente.

Por:

Lorena Dini

Fotos: Lorena Dini

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