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Rita Braga homenageia o fado e apresenta novos caminhos para o estilo em “Fado Tropical”


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Sara Rafael

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Rita Braga mergulha na tradicional música lusitana em Fado Tropical (2026), quinto álbum e também seu primeiro projeto cantado 100% em português — nos demais, ela alterna o idioma para o inglês. Entre pesquisa histórica e liberdade criativa, a artista portuguesa costura passado e presente. 

Assim, sonoramente, o disco também bebe da música eletrônica, rock, jazz e pop. Também atravessa épocas e territórios, chegando até ao Brasil na clássica “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, reinterpretada por ela e o conterrâneo JP Simões.

As 11 faixas são divididas entre composições autorais de Rita e canções clássicas: “Levantei arquivos sonoros, imagens, textos e partituras de fado que datam do século XIX às primeiras décadas do século XX”, explica Rita.

“Para dar nova vida a esses materiais, mesclei o fado antigo com variados gêneros musicais para chegar a algo novo”, finaliza. O resultado é um trabalho que dialoga tanto com a tradição quanto com uma escuta contemporânea, o gênero ganha novas texturas — da marimba ao ukulele — sem perder sua carga dramática e narrativa. 

Para isso, contou com a banda formada por Bruna Moura (violoncelo), Ryoko Imai (marimba, violoncelo, cajón, “junk percussion”, bombo e castanholas), Suse Ribeiro (saxofone), João Cabrita (saxofone), Aníbal Andrade (lap steel), Rui Rodrigues (percussão), Tó Trips (Dead Combo) e Paulo Furtado (guitarra).

Rita explica que existe uma linha narrativa ao longo do disco: começa refletindo sobre a morte em “Um Quarto de Hora” e “Cinza e Pó” e termina no renascimento em “Sou Miúda” e “Vita Nuova”. 

Fã da mídia física, a artista abriu que, na edição em vinil, ela incluiu um verso explicando cada uma dessas canções e suas histórias. 

Confira Fado Tropical faixa a faixa: 

"Fado da Meia-Noite": a faixa que abre o disco começa com o som de um relâmpago e chuva tropical, além de pássaros. É um dos dois temas instrumentais, nos quais pedi à percussionista Ryoko Imai para tocar na marimba uma peça para guitarra portuguesa de 1920. A ideia é como a abertura de um filme, e no final entra o sax barítono, que faz a transição para o tema seguinte.

"Fado do Passado": é um tema composto no final da década de 1920 e baseia-se na interpretação de Ercília Costa com o guitarrista Armandinho (tenho três versões dela no disco – Ercília foi a primeira fadista internacional, que fez digressões no Brasil, Argentina e Estados Unidos mas está bem esquecida). É um tema antigo, mas que foi escrito sobre o fado ainda mais antigo, evocando Maria Severa e Cesária, fadistas que se tornaram lendas, ativas nas décadas de 1840 e 1860 (das quais não existe registo sonoro ou de imagem)… adoro a letra, que começa assim: “Cantado por meretrizes, chorando sua quimera, o fado criou raízes na garganta da Severa”…

"Chão de Estrelas": procurei incluir um tema antigo brasileiro que se aproximasse de um fado e não consegui resistir a esse clássico, com o dramatismo contido de Sílvio Caldas e letra maravilhosa de Orestes Barbosa. O sotaque de Sílvio Caldas e dos cantores da época da rádio no Brasil para mim soa muito próximo do português aqui de Portugal e acho isso interessante. Fiquei muito feliz com o dueto com JP Simões, um cantor português que admiro há muitos anos, desde que era adolescente e ouvia o seu grupo, Belle Chase Hotel (foi a nossa primeira colaboração), com o bonito arranjo de violoncelo e marimba de Bruna Moura e Ryoko Imai. Creio que é a primeira versão de Chão de Estrelas feita em Portugal, e a ideia foi fazer essa ponte entre os dois países — e lembrando que existe uma teoria atual que diz que o fado teve origem no Brasil.

"Fado Tango": foi o primeiro single a revelar do disco, e é também um tema que conheci pela fadista e atriz Ercília Costa. Neste disco, tentei chegar a uma nova sonoridade de forma arrojada artisticamente, ao pegar em fados antigos, despi-los da instrumentação convencional e introduzir uma marimba no lugar da guitarra portuguesa, um violoncelo fazendo notas longas e graves e o ukulele. A forma de cantar, no entanto, é inspirada no estilo da época de Ercília (anos 1920/30). No final há ainda um solo de saxofone, que dá uma ambiência talvez mais de cabaret. Tem um vídeo muito lindo que acompanha o tema, realizado pela artista Joana Linda.

"Um Quarto de Hora": este é o primeiro de dois temas no disco nos quais compus a música para letras de fados do século XIX, cuja música não sobreviveu. A melodia e a estrutura soam a um fado tradicional; no entanto, pelo conteúdo da letra (os últimos quinze minutos da vida de um fadista e o que ele deseja após a sua morte), convidei o saxofonista João Cabrita para fazer um arranjo no estilo de uma marcha funerária, com Ryoko Imai a tocar o bombo. Tem ainda a participação, novamente, de JP Simões, que faz de narrador (o tema é meio falado e meio cantado). A letra deste tema é extremamente dramática, e o arranjo também.

"Cinza e Pó": o segundo exemplo de música minha para um poema de um fado perdido do século XIX. No entanto, aqui saí de uma melodia típica do fado para algo mais “folk”. O saxofonista João Cabrita disse que soava a uma mistura de fado com Tom Waits, adorei o comentário. A percussionista Ryoko Imai inventou um setup de “junk percussion”, como se fosse o som de esqueletos a dançar em desenhos animados (algo que se vê no vídeo que acompanha o tema); Suse Ribeiro adicionou outras percussões e eletrónica, e há ainda o convidado especial Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) na guitarra.

"Sou Miúda": este é um fado da década de 1930, e foi o primeiro sucesso da fadista Hermínia Silva, de quem sou fã (era também atriz de revista e de cinema, inventava inúmeros personagens, chegou a fazer um disco de “Yé Yé” misturado com fado na década de 60). A letra é bem engraçada, e, no meio de várias ideias de produção, pedi a João Cabrita para fazer um arranjo de saxofones no estilo de alguma música dos Balcãs, como nas bandas sonoras dos filmes de Emir Kusturica (por Goran Bregovic). É uma mistura inusitada, mas que, para mim, resultou bem.

"Fado Menor": o segundo tema instrumental do disco, também a partir de uma peça escrita para guitarra portuguesa (de 1925), tocada em marimba, com harmonia no ukulele e acompanhamento de violoncelo. Um dos convidados do disco, Tó Trips, fez um comentário ótimo: que soava a uma banda sonora de um filme do grande realizador italiano Fellini.

"Vita Nuova": é o tema mais recente do disco. Em 2023 fui convidada a fazer música para este poema de Catarina Santiago Costa, e a versão ao vivo foi estreada no MAP — um festival em Lisboa de “Mostra das Artes da Palavra”. A música que fiz, sem querer, soou-me um pouco como um fado, e convidei uma violoncelista e percussionista para me acompanharem (foi com ukulele, marimba e violoncelo). Gostei muito do resultado, e musicalmente foi o tema que inspirou esta nova direção, antes de mergulhar nas pesquisas históricas.

"Fado Sem Pernas": a terceira versão de Ercília Costa no disco. A letra é toda sobre a guitarra (portuguesa; no caso, era Armandinho que tocava, que foi quem desenvolveu esse acompanhamento típico no fado como se escuta ainda hoje). No entanto, convidei o guitarrista Tó Trips, que deu uma forma muito pessoal e peculiar, misturando elementos de fado com rock e outros estilos. Foi também a nossa primeira colaboração: sugiro que aí no Brasil ouçam a música dos Dead Combo, o duo instrumental que ele tinha com Pedro Gonçalves no contrabaixo.

"Rua do Capelão": o tema final é o fado mais conhecido que entra no disco, ainda hoje muitas vezes interpretado. Estreou-se no primeiro filme sonoro português (A Severa, de Leitão de Barros, 1930), com letra de Júlio Dantas, um escritor “ultra-romântico”. Puxei aqui a sonoridade para o Havaí e para discos do chamado estilo “Exotica” dos anos 50/60, como os de Martin Denny, percussionista californiano: com marimba, vibrafone, sons de pássaros, lap steel… a mistura de fado com música havaiana pode parecer inusitada; no entanto, há ali muitas influências portuguesas. 

O meu instrumento, o ukulele, foi inventado no Havaí por músicos da ilha da Madeira, que lá chegaram no século XIX; e o músico que desenvolveu o estilo da guitarra havaiana (“slide”) e fez mais gravações e digressões nos anos 1910 e 20 difundindo a música do Havaí, Frank Ferera, era descendente de portugueses e conhecido como o “Portuguese Cowboy”. Ele é praticamente desconhecido em Portugal, e no disco é mais uma forma de tributo a artistas esquecidos e também de criar pontes culturais entre vários países e estilos musicais. Por fim, ao cantar este tema inspirei-me numa versão muito linda de Aurora Miranda, irmã de Carmen Miranda, numa cena numa casa de fados no filme The Conspirators (1944).

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