
Em meados dos anos 1940, em Kingston, capital jamaicana, DJs começavam a equipar suas caminhonetes com geradores, turntables e caixas de som para tocar discos americanos de R&B e incentivar pequenas festas nas ruas. A propagação foi rápida e, na década de 1950, as pilhas de enormes caixas já tinham se tornado o formato padrão para festas e criado alguns dos personagens mais queridos e reverenciados da cultura jamaicana, como Count Matchuki e Coxsone Dodd, parte do importante Tom the Great Sebastian, e o DJ Duke Reid, do rival Trojan.
O resto, sabemos, é história, e o importantíssimo sound system, como mais tarde ficou conhecido esse formato de tocar e consumir música, passou a migrar para ritmos mais locais como o dub, o reggae e o ska. Sua influência foi tão grande que ultrapassou fronteiras nacionais e continentais nas décadas que se seguiram: não demorou para que o Reino Unido começasse a ter seus próprios sound systems durante os anos 1960 e 1970 e até o formato de DJ e MC, que proporcionou a criação do hip hop em Nova York no começo dos anos 1970, parece ser de alguma forma derivado da tradição jamaicana.
Também no início da década de 1950, o Brasil (mais especificamente, a Bahia) começava a gestar uma de suas manifestações culturais mais populares e marcantes. Dodô e Osmar Macedo adaptaram sua Fobica – apelido que surgiu do apelido "Ford Bigode", do carro Ford Modelo T – ligando sua bateria a dois instrumentos de cordas. Na época, era apenas uma dupla elétrica, mas no ano seguinte o duo foi acompanhado por Temístocles Aragão e assim surgiu o clássico trio elétrico. O próximo passo foi empilhar caixas de som no carro, criando então uma composição análoga à do sound system, porém sobre rodas.
Os dois formatos foram importantes incentivos culturais e econômicos e revolucionaram a forma como a população local ouviria e se relacionaria com a música pelas próximas décadas, além de representar uma importante tomada popular das ruas. Dependendo do ângulo em que você olhar para suas histórias, é possível achar mais similaridades do que disparidades.
Da Bahia para o resto do Brasil
Apesar do primeiro desfile oficial da Dupla Elétrica ter acontecido em 1951, o ano oficial da invenção do trio elétrico é 1950. 2020, então, marca o aniversário de 70 anos do formato em meio a uma nova e forte cena da música pop baiana. Cerca de uma década antes da invenção do trio, era dado o primeiro passo em direção a essa nova música popular local, com a criação da guitarra baiana – também um trabalho de Dodô e Osmar.
Hoje amplamente conhecida, a guitarra baiana nasceu como uma mistura de cavaquinho, violão e bandolim, e foi feita com o objetivo de criar um instrumento que pudesse ser amplificado em alto volume sem gerar microfonia. Seu primeiro protótipo ficou conhecido como "pau elétrico" ou "cavaquinho elétrico". "Essa coisa de fazer em casa o instrumento, de improvisar, criar um dispositivo eletrônico, um captador, colocar as cordas e fazer o som, vem muito de uma questão da originalidade do brasileiro, de se virar com o que tem e construir coisas que se tornam relevantes culturalmente, popularmente", fala à Noize o músico Fábio Batanj, luthier de guitarra baiana.
Assim que Osmar e Dodô desfilaram pela primeira vez com o instrumento em 1951, a iniciativa foi amplamente copiada e o termo "trio elétrico" passou a ser entendido como qualquer veículo carnavalesco com instrumentos amplificados. Hoje, eles estão espalhados por muitos estados, mas essa cena ficou restrita à Bahia por um bom tempo. Por muitos anos, a guitarra baiana e suas frequências agudas eram as grandes estrelas dos trios, que só foram incorporar a voz microfonada em meados dos anos 1970. Mais especificamente em 1975, quando Moraes Moreira (recém ex-Novos Baianos) cantou no trio de Dodô, Osmar e seu filho, Armandinho Macedo.
A popularização nacional andou de mãos dadas com a ebulição dos artistas baianos que tornaram-se protagonistas da música popular brasileira. Caetano Veloso, que lançou a sua "Atrás do Trio Elétrico" em 1969, foi um deles. "Hoje, a gente trata [o trio elétrico] como uma coisa que todo mundo conhece, mas estamos falando de uma época em que, na real, [Caetano] estava falando pra geral que não sabia o que era", comenta Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem. "Esses caras foram os que difundiram toda estrutura e essa estrutura cresceu muito para ser o que é hoje".
Com o auge da axé music na Bahia, o trio elétrico viveu seu momento de glória nos anos 1990. Hoje, são parte imprescindível do Carnaval não apenas na Bahia, mas em muitos outros estados e seu formato é utilizado para os mais diversos tipos de manifestações públicas e festas de rua.
Som dos expropriados
Enquanto o trio elétrico abria caminhos na Bahia, em 1957, em Kingston, um jovem de 19 anos que atendia pelo nome de Prince Buster montou um sound system chamado Voice of the People (ou "Voz do Povo"). Conhecido de Coxsone, Prince Buster passou alguns anos acompanhando e ajudando o produtor a conduzir o grande Tom the Great Sebastian antes de angariar conhecimento o bastante para começar seu próprio sound system.
“Foi o primeiro sound system a ter um nome que fez mais do que apenas falar sobre o operador ou sobre música e dança. Homens do som como Reid e Coxsone estavam à vontade com o status quo, mas eu queria que o meu sound system fosse um lugar onde os pontos de vista do povo pudessem ser ouvidos, pois eles não estavam sendo ouvidos em outros lugares", contou o artista no prefácio do livro Bass Culture: When Reggae Was King, publicado pelo jornalista britânico Lloyd Bradley em 2000.
Para Prince Buster, cujo sound system passou a ser um dos mais populares de Kingston durante os anos 1960 e que se tornou um dos artistas de ska mais importantes da Jamaica, a história dos sound systems é mais que uma história da música jamaicana, é também uma história de colonialismo, imigração, perseguição policial, prosperidade e decepção pós-independência jamaicana, turismo em massa, tecnologia. "Muitas vezes, apenas metade da história é contada, e o pano de fundo, os transtornos e mudanças pelas quais a ilha da Jamaica passou pouco antes e desde a independência são esquecidos diante de tanta música", escreveu, ainda em 2000, o artista, que faleceu em 2016.
E de fato foi muita, muita música: assim que os discos norte-americanos foram deixados para trás, os soundsystems se tornaram um fenômeno social, cultural e econômico gigantesco que proporcionou que os ritmos jamaicanos – reggae, dub, ska, rocksteady – ganhassem espaço para florescer seus graves, criar novos ícones culturais e, como bem disse Prince Buster, dar voz às suas próprias necessidades. Uma nova identidade jamaicana começava a ser criada.
"O aspecto definidor dos sound systems como o cerne da vida do gueto era o fato de serem culturais, em vez de serem apenas uma cultura", conta Lloyd Bradley em Bass Culture. "Em um ambiente em que qualquer expressão artística ou social indígena – ou seja, negra – emergente era desencorajada, drasticamente diluída em nome da sofisticação artística ou desinteressada para atrair turistas brancos, o sound system foi criado por e para os expropriados da Jamaica".
Reafricanização
Esse som para expropriados criou figuras que extrapolaram sua contribuição artística e passaram a representar ícones de pensamentos e lutas populares. A maior delas, sem dúvidas, é Bob Marley. Símbolo da cultura rastafari e das raízes do reggae jamaicano, o artista, que faleceu há 39 anos, se tornou um produto de consumo mundial ao longo dos anos 1970 e 1980.
Sua influência se espalhou para ao norte e ao sul da América, inclusive no Brasil. Em 2014, o historiador Cláudio Luiz Pacheco Júnior publicou sua tese de conclusão de curso, que analisa a importância do artista para os movimentos negros brasileiros em diversos estados. "Bob expõe a sua condição ambivalente na sociedade jamaicana, assim como o percebemos em sua condição social – semelhante ao afro-brasileiro – e que ele apela ao ímpeto do afrodescendente destas sociedades", escreveu.
E não foi apenas a influência social de Bob Marley que chegou ao Brasil: sua música também passou a conquistar discípulos. Foi o caso do baiano Edson Gomes, que em 1988 lançou seu primeiro álbum, Reggae Resistência. Nos anos que se seguiram, enquanto a Bahia seguia encantada e dominada pelo gigante axé, o cantor, hoje considerado o maior nome do reggae brasileiro, seguiu fiel ao ritmo jamaicano. "Antes de ouvir um disco de Peter Tosh e 'No Woman No Cry', de Marley, eu já tinha minhas letras de protesto, que usava num grupo de sambão. Ao descobrir o reggae, vi que era o veículo ideal para aquela mensagem", disse o artista em entrevista à Folha de S. Paulo em 1998.
Mas antes ainda de haver um artista baiano fazendo sucesso exclusivamente com o gênero jamaicano, o carnaval soteropolitano viu o nascimento de blocos como Ilê Aye, Muzenza e Olodum, que foram responsáveis pela popularização de um novo ritmo tipicamente baiano, o samba-reggae. "Houve uma mudança política, histórica, a partir da cultura negra, uma espécie de 'reafricanização' de Salvador", conta a jornalista e doutora em comunicação e cultura Nadja Vladi.
"A Jamaica sempre foi tema, era tema do Muzenza, era tema do Olodum", diz Regivan Santa Bárbara, parte do Ministério Público, um sound system baiano. "A Jamaica sempre teve essa relação mística com a Bahia, que foi se estreitando mesmo que a maioria dos baianos que falam da Jamaica, como nós, não conheçam a Jamaica." Para ele, há uma relação espontânea que nasce pela semelhança entre essas culturas periféricas da América: “A Bahia especificamente tem uma relação muito forte [com a Jamaica] porque as coisas se parecem muito. As festas de largo aqui já tem sound system, caixas de som montadas, só não se denominam sound system, é só o som do cara que vende o cravinho ou que tem uma barraca de cachaça. E, na maioria das vezes, tocam reggae”.
Guitarra e grave
Em 2009, desfilou pela primeira vez no carnaval baiano um grupo que se propôs a evidenciar as relações entre Salvador e Kingston. A proximidade já estava no nome: o "baiana" (de guitarra baiana) e o "system" (de sound system) formam o BaianaSystem, que na mistura dessas duas culturas consagrou-se, talvez, como o maior nome da música do estado na última década.
"O sound system tem muito essa coisa de usar as bases, os riddims, com as vozes em cima. E a guitarra baiana tinha essa coisa de ser como uma voz. Aí o conceito do Baiana veio pensando nisso", fala Beto Barreto a Noize: "Tanto é que eu e Russo, até hoje, ficamos no diálogo, pergunta e resposta. A gente volta a pensar na guitarra como uma voz, com melodias e tudo". "O BaianaSystem coloca a guitarra baiana dentro de um contexto novo, moderno, que ao mesmo tempo em que é cultural é dançante", comenta Fábio Batanj.
Mas além de ressignificar a guitarra baiana, o grupo também trouxe um elemento essencial da música jamaicana ao carnaval de Salvador: o grave. Apesar de já existir o grave e o subgrave nos instrumentos percussivos, como aponta Regivan, o grave não fazia parte da assinatura dos trios do carnaval de Salvador até ser incorporado pelo BaianaSystem. "Tanto é que uma das coisas mais incríveis do Baiana é você ficar próximo do trio elétrico para sentir aquele grave batendo dentro de você, é uma experiência única no carnaval de Salvador", fala Nadja.
A pesquisadora, que em 2016 escreveu o artigo Grave, mais grave!: Um passeio pelos territórios sonoros e afetivos do projeto BaianaSystem, fala sobre a importância da mistura do Baiana para o surgimento de uma nova cena. "O Baiana faz uma relação com a música popular de Salvador, como samba-reggae e arrocha, com uma roupagem mais transnacional, de dub, reggae, bases eletrônicas. É uma espécie de cosmopolismo estético que inspirou uma série de artistas a fazer misturas similares". Só nos últimos anos, é possível citar grupos ÀTTØØXXÁ e Aláfia e artistas como Luedji Luna.
Para Nadja, a reverência do Baiana continua a firmar a importância da cultura jamaicana para pessoas por todo o Brasil. "Há similaridade dessas culturas do Caribe com uma cultura negra brasileira, não somente a baiana – em Pernambuco, no Maranhão", fala. "A Jamaica é, sem dúvida nenhuma, um lugar importantíssimo para música negra das Américas".




