
Há mais de duas décadas, Stacey Kent constrói uma das trajetórias mais consistentes do jazz contemporâneo. Dona de mais de 2 milhões de discos vendidos, centenas de milhões de streams e uma indicação ao Grammy, a norte-americana volta agora com A Time For Love (2026), álbum que traz releitura de “Carinhoso”, clássico de Pixinguinha.
O novo trabalho aposta em uma formação enxuta ao lado do saxofonista Jim Tomlinson — parceiro musical e marido da artista — e do pianista Art Hirahara. O resultado é um disco profundamente emocional. “O mundo precisa de amor”, resume Stacey. “Fico feliz em fazer parte dessa história de dar, receber e viver o amor. Sem ele, a vida não seria tão rica”.
A atmosfera minimalista do álbum nasceu da relação construída entre os três músicos ao longo de mais de vinte anos de parceria. Stacey explica que havia um desejo antigo de registrar algo mais íntimo, sustentado pela conversa musical entre voz, piano e saxofone. “Existe um diálogo entre nós três que é muito importante. Queríamos fazer algo baseado nessa intimidade”, conta.
“É um pouco próximo do mundo do João Gilberto, de poucos elementos, às vezes sozinho com o violão, mas com muita profundidade.”
Apaixonada por listas
A escolha do repertório também partiu de um processo afetivo. Stacey mantém listas permanentes de músicas em seu celular — canções que gostaria de cantar algum dia, no palco ou em disco. “Tenho listas e listas e listas”, conta, rindo. “Todas as músicas desse álbum já estavam lá. O difícil foi encontrar o momento certo para reuni-las num disco que fizesse sentido como um todo.”
Entre essas escolhas, “Carinhoso” ocupa um lugar especial. A cantora afirma que sempre soube que gravaria a composição de Pixinguinha algum dia. “Eu adoro canções que parecem um convite”, explica. “Essa ideia de alguém falando consigo mesmo, falando com um amante, falando diretamente com quem escuta.” Ela cita especialmente os versos “vem sentir o calor dos lábios meus” como exemplo dessa intimidade que busca transmitir. “É sensual, acolhedor. Eu adoro esse tipo de canção.”
A relação de Stacey Kent com a música brasileira atravessa boa parte de sua carreira e vai muito além do choro. Ao longo dos anos, ela colaborou com artistas como Marcos Valle, Roberto Menescal e Danilo Caymmi. Fluente em português, ela diz que sua conexão com o idioma surgiu antes mesmo da ideia de cantar profissionalmente.
“O Português é sensual e musical”
“Quando descobri a música brasileira, senti imediatamente: ‘estou em casa’”, relembra. “Era algo muito pessoal para mim.” Apaixonada por literatura e línguas, Stacey estudou português por interesse na poesia e na sonoridade do idioma. “É a língua mais linda do mundo”, afirma. “Tem algo físico na forma como as palavras acontecem na boca. É sensual, íntimo, musical.” O português, segundo ela, ocupa espaço também fora da música. “Falo português em casa com Jim, com amigos em Portugal e no Brasil”, conta. “Tenho muita sorte de conseguir viver dentro dessa língua.”
Mesmo em um cenário dominado por algoritmos, velocidade e consumo fragmentado, Stacey mantém uma visão otimista sobre o futuro do jazz e da descoberta musical. Para ela, a curiosidade continua maior do que qualquer lógica de plataforma. “As pessoas sempre vão encontrar música”, afirma. “Pode ser num restaurante, num filme, numa conversa entre amigos.”
Aos 58 anos, a cantora afirma viver uma relação mais madura — e mais intensa — com a própria arte. “Musicalmente, tenho uma fome que nunca pode ser satisfeita”, diz. “Acordo inspirada todos os dias. O que vou descobrir hoje? Isso nunca termina.”




