
Bella e o Olmo da Bruxa é um pequeno fenômeno dentro de uma pequena cena. Composta atualmente por Pedro Acosta, Felipe Pacheco, Júlia Garcia e Ricardo De Carli, a banda porto-alegrense vem trabalhando o segundo álbum, Afeto e Outros Esportes de Contato (2025).
Trata-se de um passo largo da banda que se firma como uma das novidades mais excitantes do rock alternativo brasileiro — inclusive fora da fronteira. A banda apresenta o disco na Triple Fontera Tour, turnê com os argentinos da Buenos Vampiros que passa pelo sul do Brasil, Uruguai e Argentina, começando por La Plata nesta quinta-feira (23/04).
É difícil precisar em qual guarda-chuva sonoro Bella e o Olmo da Bruxa está inserida — o que é ótimo em um cenário que rotula qualquer banda emergente como shoegaze. Os membros do grupo gostam de usar o termo “rock triste” para designar não só a sua arquitetura sonora como também a estrutura de sentimento a qual pertencem. É possível inserir Bella e Olmo da Bruxa no contexto do renascimento emo.
Com influências de seus conterrâneos da Fresno e outras tantas bandas do gênero, uma constante no som da Bella são as vozes que ondulam entre o sussurro e o grito, as letras de tom distímico e sotaque gaúcho, as explosões de distorção, músicas de refrões esfuziantes que ora cedem lugar para canções menos lineares, enfim, uma salada da postura enérgica oriunda do punk clássico com o gosto avinagrado da sinuosidade harmônica e melódica dos desdobramentos modernos do post-punk.
O talento de Pedro Acosta e Felipe Pacheco como compositores desabrocha na capacidade de compreender os fundamentos melódico-sentimentais da tradição estética à qual pertencem sem deixar de testar novas estruturas de composição. Há um salto de qualidade na produção em relação ao primeiro álbum.
O trabalho de criação e arranjo está mais complexo e passeia por diferentes gêneros — desvios bem-vindos do sustentáculo comum do rock alternativo, tais quais a balada acústica "Deus, Gay"; o revestimento eletrônico em "Vou Me Matar" e "Mesmo Assim," as famigeradas twinkly guitars do midwest emo em "Pra Ti, Guria", até mesmo uma inusitada e exitosa incursão ao pagode em "Teu Pra Vida Toda / Uma Rosa Sem Espinhos". Destaque também para "Bem no Seu Aniversário", que ganhou clipe.
Porém, mais do que qualquer destacamento técnico, o grande mérito de Bella e o Olmo da Bruxa é capturar as sensibilidades de seu público de uma maneira direta e calorosa. Nos shows da banda, a idade da plateia oscila entre os extremos da juventude: cabeludos e calvos, magrelos e barrigudos, pombinhos apaixonados e solteirões crônicos dividindo a mesma experiência por motivos diferentes.
O apelo adolescente é evidente. Bella canta sofregamente sobre desencontros amorosos, flerta com a ideação suicida característica da nossa época (vou me matar / no meio da semana que vem / na verdade não vou não / mas esse pensamento sempre me convém, em "Vou Me Matar"), move signos do itinerário amoroso que todos nós já vivenciamos (no caderno anotado / quanto tempo já passou, em "Bem No Seu Aniversário").
Não obstante, existe algo na contramão da nostalgia em Bella e o Olmo da Bruxa, como se eles se negassem a engajar nas fórmulas esgotadas do caetanismo retrofuturista, recusando matar amanhã o inimigo velhote que morreu ontem, trilhando o caminho da sinceridade que não é simplória, da ironia que não é cinismo, da vulnerabilidade que não é retraimento, da capacidade seminal do rock de exprimir angústias tão universalmente particulares.
Em suma, reconforta o coração dos vovôs-garotos saber que nos rincões do país, nos bares sujos e abafados, há terreno fértil no rock para o germinar de novas bandas e novos públicos, sendo honesto consigo mesmo e com seus apreciadores. Os shows marcados Brasil afora anunciam a boa nova: Bella e o Olmo da Bruxa é mais uma prova da cena que resiste a se homogeneizar nas tendências algorítmicas, compreendendo que há uma linguagem do futuro para além do eterno pretérito imperfeito da atualidade, sabendo que nada muda sem deixar algumas de suas partes para trás.




