
O estúdio de pesquisa e comunicação 300Noise é um dos representantes brasileiros na programação do Primavera Pro, conferência internacional voltada aos profissionais da indústria musical que acontece paralelamente ao Primavera Sound Barcelona, de 3 a 5/6.
Criado em 2019 na Zona Norte de São Paulo, o 300Noise se volta para o mercado musical independente e para outras formas de consumo musical que fujam dos algoritmos e das imposições do mainstream. Antes de se consolidar como estúdio de pesquisa, o coletivo produziu eventos e, durante a pandemia, migrou para as redes para produzir podcasts, projetos multimídia e pesquisa musical. "Nossa abordagem sempre foi uma soma de expertises e distintas áreas de atuação de nossa equipe. Buscamos leitura sobre música e cultura que fugia da lógica que costumávamos acompanhar e consumir", define o estúdio.
Essa perspectiva levou a equipe a investigar fenômenos frequentemente ignorados pelas ferramentas tradicionais de monitoramento do mercado, especialmente aqueles que acontecem fora dos ambientes digitais.
Pelas estradas
A partir disso, nasceram pesquisas instigantes, como aquela voltada aos pendrives de música que acompanham as viagens dos caminhoneiros. O nicho, que era frequentemente ignorado pela grande mídia, passou a ganhar a atenção da indústria a partir dos anos 1970, com produção de programas de TV como o Carga Pesada, da Rede Globo. Ao estruturar a trilha sonora para a série, o produtor Guto Graça Mello notou que a música sempre acompanhava esses profissionais, passando especialmente pelo sertanejo "de raiz" e pela música romântica tocada nas rádios do interior do país. Na mesma época, a cantora Sula Miranda vendia discos de sertanejo sob o rótulo de "Rainha dos Caminhoneiros", com seu repertório de sertanejo romântico.
Com o maior acesso a músicas de diferentes regiões, o repertório ouvido nas boleias é muito mais amplo. Pela falta de acesso à internet nas estradas, o algoritmo das plataformas de streaming não se torna uma opção viável, o que faz com que esses profissionais encontrem nos pendrives vendidos nas estradas uma forma mais humana de curadoria musical, calcada num gosto pessoal prévio, já que os pendrives — já amplamente popularizados para divulgar artistas de tecnobrega e forró, por exemplo —, são segmentados por estilo musical.
Para mapear o que toca nas estradas do país, os pesquisadores da 300Noise mergulharam na pesquisa de campo, entrevistaram caminhoneiros e também ouviram os DJs responsáveis pela curadoria musical desses pendrives. Nesta entrevista, Felipe Alves, diretor da 300Noise, nos conta mais sobre a pesquisa que sai das estradas brasileiras e encontra um dos maiores festivais do mundo, em Barcelona. Leia abaixo:
Por que vocês decidiram mapear pendrives dos caminhoneiros?
No contexto da plataformização da música e dependência de uma lógica algorítmica, a 300Noise começou a voltar sua atenção para aquilo que escapava desse ecossistema. Seja como forma de resistência ou como diversificação de oportunidades, entendemos que o papel das mídias analógicas não deve ser ignorado no mercado.
Em um cenário em que palavras bonitas como “construção de comunidade” são utilizadas por agências para florear relatórios, decidimos nos debruçar sobre um ecossistema que está invisível nos dados coletados em rede.
Originalmente, pendrives de caminhoneiros nasceram para suprir diversas questões de um grupo de profissionais, como a falta de sinal, jornadas longas e a solidão. Não se trata apenas de música, mas da reconfiguração de uma lógica.
Acreditamos que olhar para os pendrives e seu papel dentro da comunidade dos caminhoneiros é importante para entendermos que a música não é consumida de uma única maneira e como podemos buscar soluções dentro da indústria entendendo cenários distintos e pessoas com necessidades diferentes.
Como foi o método de pesquisa que vocês utilizaram? E quais regiões foram mapeadas?
Partimos do conteúdo disponibilizado na internet para começar o mergulho no universo desses pendrives. Ou seja, consumindo diversas horas de conteúdo dos nomes mais influentes desse meio. Passamos pelo Dj Wagner, mas também pelo Pilha e André Zanella, Nilton e outros. Para além da desk, buscamos um contato maior com a própria comunidade dos caminhoneiros nas redes, em grupos, comunidades, arquivos virtuais, como o do Flogão, e influenciadores focados nesse nicho. Nesse ponto, já familiarizados com a linguagem, a estética e uma certa mitologia da classe, partimos para as lojas e o comércio dos pendrives.
Mapeamos varejistas virtuais populares, mas também páginas dentro das redes sociais e sites próprios para a venda desses produtos, seja de maneira exclusiva, ou junto a adereços para caminhões. Encontramos perfis focados nesses produtos em diversas partes do Brasil e, principalmente, fora das capitais. Foram mais de 100 pendrives espalhados por 14 lojas. Por fim, fomos para as estradas para entender a lógica dos pendrives em postos e paradas, utilizando a Fernão Dias.
Na etapa das entrevistas, dialogamos com caminhoneiros da região de São Paulo pelas redes sociais e em chamadas telefônicas. Coletamos áudios, mensagens e buscamos entender as mudanças dentro da cultura do pendrive, o comportamento da classe através da faixa etária e o impacto dos pendrives com narração dentro da comunidade.
Quais as maiores surpresas que vocês tiveram nessa pesquisa?
Diversas coisas são interessantíssimas no universo de pendrives musicais.
Existem seleções de estações de rádio, com a utilização da logomarca, inclusive. Quando olhamos para isso, começamos a entender que faz todo o sentido um produto que simula a audição de uma programação que não está disponível nas estradas, seja pelo limite de cobertura da estação, ou pelas interferências encontradas ao longo das BRs.
Seleções focadas em paradas de redes sociais, como o TikTok, também nos ajudam a entender o hibridismo entre o virtual e o objeto físico. Esse fator aparece também quando analisamos os artistas que aparecem na embalagem do produto e a presença de inteligência artificial, ocupando o espaço de uma colagem de rostos conhecidos, ou um Photostock de um rancho.
Ao falarmos com caminhoneiros, fica nítida também a forma como as seleções dos pendrives operam no campo sentimental. Tópicos como saudade do lar e solidão são constantemente trazidos para a conversa sobre o papel da música na rotina da profissão.
Quais são os gêneros musicais mais ouvidos? E quais artistas de outros gêneros foram grandes surpresas pela grande quantidade de audições?
A música caipira é uma das protagonistas dos pendrives analisados. Diferenciando-se do sertanejo contemporâneo, esses pendrives focam em um diálogo com a vida rural, utilizando palavras como “peão”, “viola” e “modão”. Há um apelo ao imaginário de uma vida no campo atrelada à simplicidade e ao contato com as raízes. Quando colocamos esse estilo em comparação com as seleções de Sertanejo, podemos entender que a linguagem utilizada nos títulos busca falar de músicas que são “hit” e “top”.
A música gospel foi o segundo gênero musical mais encontrado em nossa pesquisa nos pendrives. Além do forte mercado e artistas que esporadicamente se enquadram entre os charts de plataformas de streaming, há também nos pendrives um conteúdo de meditação e contemplação, como música de harpa.
Por fim, é importante falar do flashback, um estilo que aparece muito nas consagradas seleções dos Djs que se popularizaram no meio. Os anos 80 não só são importantes para falar sobre o papel de canções mais “energéticas” para trabalhadores que passam horas nas estradas sem descanso, mas para aprofundar o perfil e faixa etária do próprio caminhoneiro que circula nas BRs.
As pesquisas do estúdio estão disponíveis no site www.300noise.com.br, onde é possível encontrar trabalhos sobre festivais de música, projetos e um acervo de selos e gravadoras do século passado, além dos textos publicados no Substack do estúdio.






