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Aos 80, Alceu Valença desafia o tempo e fala do amor pelos palcos e pelos Beatles


Por:

Bruno Mateus

Fotos: Leo Aversa/Divulgação

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Conversar com Alceu Valença é como embarcar em um trem em alta velocidade. A cada pergunta, ele se anima e uma nova história se abre, puxando outra, que logo deságua em uma lembrança, uma canção, um personagem ou uma cidade de qualquer lugar do mapa. Não há tempo exato, nem fronteira. “Está tudo interligado, passado, presente e futuro”, ele diz. Alceu fala rápido, é preciso estar atento: ele embaralha memórias sem perder o fôlego, a cadência e o verbo. Girando num imenso carrossel, Alceu Valença olha a vida com os olhos de poeta. 

Entrevistá-lo também é pegar um avião que sai de São Bento do Una, sua cidade natal, localizada a cerca de 215 km do Recife, e, depois de um cavalo de pau, parte desembestado rumo à Paris do exílio voluntário do fim dos anos 1970, tempos brabos de ditadura. Na capital francesa, gravou Saudade de Pernambuco (1979) e não demorou a voltar ao Brasil para começar a enfileirar discos e canções que o fariam ser reconhecido como grande arquiteto da música popular. 

Se pudesse escolher, Alceu Valença passaria o tempo todo no palco. Para celebrar os 80 anos, completados no dia 1º de julho, o pernambucano se embrenhou em uma turnê que teve seu desfecho dois dias depois do aniversário e passou por 10 capitais brasileiras – Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Florianópolis, Brasília, Recife, Fortaleza, Curitiba, Belém e Belo Horizonte.

É provável que 80 Girassóis ainda volte a rodar o país no primeiro semestre de 2027. O repertório é arrebatador: “Anunciação”, “Tropicana”, “Belle de Jour”, “Como Dois Animais”, “Coração Bobo” “Papagaio do Futuro”, “Táxi Lunar”, “Espelho Cristalino” e por aí vai. 

No fim de outubro, mais precisamente no dia 28, o cantor e compositor estará em Dublin para iniciar mais um giro pela Europa. Até 15 de novembro, Alceu passará também por Portugal, Bélgica, Holanda, Inglaterra, França, Suíça, Alemanha e Noruega:

“Já fiz muito mais do que isso. Para mim, é um prazer. O palco me dá saúde, alegria, me dá tudo que você pensar. Palco é comunhão, é troca de energia entre o povo e o artista”. 

Do forró ao frevo, da psicodelia tropical nordestina ao baião, o trovador experimentou e mesclou gêneros diversos em suas canções. Também já fez cinema, uma de suas paixões, ao dirigir, roteirizar e assinar a trilha sonora de A Luneta do Tempo (2016). Outro amor é a literatura. Leitor voraz desde muito moço, se apaixonou pelas palavras de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa. Em 2015, lançou seu próprio livro de poesias, O Poeta da Madrugada (Chiado Editora).

Foi numa tarde de quarta-feira, antepenúltimo dia de julho, que Alceu Valença atendeu o nosso telefonema. Entramos em uma viagem de 40 e poucos minutos – mas, como o tempo, quando se está ao lado do pernambucano, não se prende aos números do relógio ou do calendário, isso pode durar a eternidade de um segundo.  

Onde você está agora, Alceu?

Estou em Olinda, diante dos flamboyants aqui do quintal da minha casa. Aí me lembrei de [recita os versos iniciais de ‘Chuva de Cajus’]: ‘ela virá no verão com as chuvas de cajus, os flamboyants estão sangrando nestas tardes tão azuis’. Acabei de fazer o Festival de Garanhuns, voltei para cá e daqui já estou indo para Ribeirão Preto participar do João Rock. Quando tem show, eu adoro, não gosto de ficar parado. 

O que não faltou para você em 2026 foi show, e também não vai faltar até o fim do ano. Na turnê europeia, que começa no fim de outubro, serão 11 apresentações em 19 dias, em 11 cidades de nove países. Como você se prepara para um giro dessa intensidade?

Não tenho o menor problema, já fiz muito mais do que isso. Para mim, é um prazer.

O palco me dá saúde, alegria, me dá tudo que você pensar. Palco é comunhão, é troca de energia entre o povo e o artista. Rapaz, eu adoro. 

Qualquer show para mim é show. Se estou cantando em Londres ou Natal, em Goiânia, Brasília, Rio de Janeiro ou Salvador, é tudo a mesma coisa. O palco me alimenta total. Posso estar até cansado, porque os deslocamentos são difíceis, mas quando chego ao palco, me vem uma energia da porra. Continuo andando, caminhando. Ando todos os dias. Faço, no mínimo, 10 mil passos por dia, e, no máximo, 17 mil. Dessa maneira me preparo. Também faço pilates, quando tenho tempo. Depois da entrevista, vou andar, caminhar por Olinda em um local escondido para ninguém me ver.

À época do lançamento de Sem Pensar no Amanhã (2021), você me disse que criou uma espécie de roteiro cinematográfico para selecionar as canções que entrariam no disco. Com as turnês funciona assim também? Como você escolhe o repertório?

É o mesmo roteiro da turnê 80 Girassóis. Eu sempre faço isso. Ninguém nota, mas no inconsciente as pessoas vão sentindo. Quando eu canto ‘Girassol’, em seguida canto uma segunda música que fala de flor, então pode ser ‘Estação da Luz’, ‘Ciranda da Rosa Vermelha’ ou ‘Flor de Tangerina’. Vou juntando flores no meu jarro. 

Agora, se eu canto uma música como ‘Agalopado’, em que eu falo sobre mitologia popular, posso emendar com ‘Que Grilo Dá (Rock de Repente)’, [começa a cantar]: ‘Malazartes, sou o riso e o desastre do meu Brasil popular (...) Engolindo o homem-aranha, que grilo que dá’. Depois, se eu entrar, por exemplo, com uma música de Luiz Gonzaga, tem uma conexão e pode ser com “Bobo da Corte”. Se eu canto um frevinho-canção, depois passo para um frevo lírico e aí vem um frevo rasgado depois. 

Você chegou aos 80 anos recentemente. Você é daquelas pessoas que se preocupam com aniversário, organizar festa, aquela coisa toda? Fica ansioso para as comemorações?

Minha mulher, Yanê, preparou uma surpresa para mim e chamou 200 pessoas. Me pegou de surpresa total, foi aqui em Olinda, na Casa Estação da Luz. Deu um trabalho muito grande essa festa, viu? Eu tinha que falar com todo mundo. Quando deu 23h, eu saí fora e o povo ficou lá na farra. 

A rua ficou tomada e, de surpresa, veio desfilar também um bloco chamado Pitombeira dos Quatro Cantos. Veio gente pra caramba. Na festa, eu vi muita gente amiga, parentes. Tinha que ficar passando cinco minutos para falar com um, cinco minutos para falar com outros… Foi cansativo e divertido. Eu queria mesmo era fazer show. Sempre que faço aniversário eu quero fazer show. Posso estar em Ouro Preto, Petrolina, Londrina, Curitiba, Natal, Lisboa… Não importa, sou um cara do palco. Eu gosto é de palco.  

Mas não dou bola para idade. Olha só: 8 ou 80 é a mesma coisa.

O tempo é um tema muito presente em sua obra e inspirou várias canções: “A Luneta do Tempo”, “Embolada do Tempo”, “Samba do Tempo”, “O Tempo e o Vento”, “Do Tempo Que Me Querias” e “Sem Pensar no Amanhã”, para citar algumas. Como você lida com a passagem do tempo?

O tempo me transporta para várias épocas. Se eu me lembrar, por exemplo, de Paris, (começa a recitar os versos de “Samba do Tempo”) ‘O tempo se dilata como um fio/ Cordão, elástico, caminho/ Estrada que nos transporta (...) Segue o tempo e ninguém nota/ Seus caminhos, suas rotas/ Por onde o tempo seguiu/ Depois quer viver tudo que viu/ Vai bater na mesma porta/ De onde um dia saiu’. 

[Como se nada, Alceu emenda para os versos de “Era Verão”]: "Era verão na cidade de São Sebastião/ Do meu Rio de Janeiro/ Fevereiro se rendia/ Se entregando por inteiro/ Seu azul, seu mormaço, amasso." Essa é uma reflexão, uma memória de quando eu estive no Rio de Janeiro. 

Eu fui jogador de basquete, joguei pela seleção pernambucana juvenil e fomos disputar um campeonato em Ponta Grossa (PR), mas paramos no Rio de Janeiro por problemas no avião. Foi uma loucura. Depois de anos e anos daquela viagem eu estava caminhando pelo Jardim de Alah, no Rio, me lembrei daquele episódio e escrevi ‘Samba do Tempo’. 

Você morou em Paris em 1979 e já fez vários shows na cidade ao longo das últimas décadas. Tem alguma recordação, alguma lembrança daqueles tempos em que você viveu na capital francesa?

Quase sempre volto a caminhar pelas mesmas ruas que caminhei em 1979. Sempre passo pela Place de la Contrescarpe, onde me encontrava com amigos. Fiz muitos amigos em Paris, andei muito com intelectuais, conheci muita gente. Eram pessoas mais humanistas, que pensavam em um mundo melhor, apesar de viverem muito bem. Tenho essa saudade de Paris. 

Fui muito bem acolhido – eu, Paulo Rafael (guitarrista, arranjador e parceiro de Alceu por mais de 40 anos, morto em agosto de 2021) e Ana Elisa (então empresária e namorada do cantor). Foi tudo muito bom, um tempo mais utópico. Criei uma relação muito forte com o violão, tocava o dia todo. Gravei ‘Saudade de Pernambuco’ lá. 

Por falar na vitrola do seu pai lá no sertão, outro dia vi uma entrevista em que você dava graças a Deus por não ter tido vitrola em casa, senão teria caído na música dos Beatles e isso te afastaria da cultura popular que tanto te influenciou.

Conheci a música dos Beatles por meu filho, já na época do CD. Se tivesse ouvido antes eu tinha me lascado, porque é muito bom. A melhor coisa para mim foi não ter ouvido músicas internacionais naquela época. 

Eu ouvia música com sanfona de oito baixos, cordelistas, violeiros, repentistas no meio da rua, na Feira de São Bento. Ô saudade! Eu também ouvia as toadas no rádio. Aí tem uma coisa: meu avô materno, Adalberto de Oliveira, tocava bandolim e o Agenor, tio Nonô, tocava violino. Pelo lado paterno, meu avô Orestes tocava violão, viola, bandolim. 

Eles não eram profissionais, mas aquilo ficou na minha cabeça. Eu via saraus, na vitrola do meu avô tocava [Alceu começa a cantar ‘Serra da Boa Esperança’, de Lamartine Babo]: ‘Serra da Boa Esperança/ Esperança que encerra/ No coração do Brasil/ Um punhado de terra’. Eu tinha quatro, cinco anos. Tudo isso ficou na minha cabeça. Meu tio, Geraldo Valença, um poeta da porra, depois de anos e anos eu musiquei um poema dele. Chamava ‘Junho’: ‘Eu sei que é junho (...) Com seu capuz escuro e bolorento/ As setas que passaram com o vento/ Zunindo pela noite no terreiro’. 

Como o ambiente musical da sua família influenciou sua relação com a música?

Vovô por parte de pai tocava viola, aquele som ficou na minha cabeça, mas papai não queria que eu fosse artista. Ele me tirava de perto de música, nunca tive professor. Ele tinha uma certa razão. 

Um tio meu, Rinaldo, que depois ficou meu parceiro, tocava muito bem violão, cantava bem, compunha. Ele chegou a acompanhar Orlando Silva, mas tentou a carreira e não deu em nada. Papai tinha medo que eu enveredasse pelo caminho da música e acontecesse o mesmo. 

Mas não teve jeito, o filho do Décio Valença virou artista. 

Antes de virar artista, eu me formei em direito e aí ele tomou muito gosto. Eu lia muito. Aos 14 anos, lia tudo de Fernando Pessoa, aquela poesia ficou na minha cabeça. Depois veio [Carlos] Drummond, aquela coisa maravilhosa. 

Bom, mas passei no vestibular e papai queria que eu seguisse a profissão de advogado. Cheguei até a fazer um estágio, mas na primeira oportunidade fiquei a favor da outra parte. Caí fora do escritório, que era de um primo meu. 

Você citou Fernando Pessoa e Drummond. Sua obra tem um aspecto literário muito forte. As letras são poemas e também vejo algo de Guimarães Rosa.  

Falo de Drummond e de Guimarães Rosa em ‘Agalopado’: ‘Se acaso eu chorar, não se espante/ O meu riso e o meu choro não têm planos/ Eu canto a dor, o amor, o desengano/ E a tristeza infinita dos amantes/ Don Quixote liberto de Cervantes’. Sim, quase todas as minhas letras têm poesia. 

Pode tirar a música que ela vira um poema. [Declama os versos de ‘Na Primeira Manhã’]: ‘Na primeira manhã que te perdi/ Acordei mais cansado que sozinho/ Como um conde falando aos passarinhos/ Como um bumba-meu-boi sem capitão’ (...) Fiz um canto demente, absurdo/ O lamento noturno dos viúvos/ Como um gato gemendo no porão/ Solidão’. 

Mesmo depois de tantos anos de carreira, sair em turnê pelo Brasil e pelo exterior ainda te causa alguma ansiedade, frio na barriga?

Ainda não me causou ansiedade.

Vou fazer muitos shows ainda, vai ser ótimo, tudo bacana. Às vezes eu ficava pensando: “será que vai dar? Será que vou aguentar?”. E sempre deu tudo certo.

Foram várias turnês, inclusive no exterior. 

Eu nem fico olhando onde vou tocar. Vai ser bom demais. Eu tenho uma lembrança doce de tudo e de todos esses lugares onde vou tocar na turnê de agora, só não tenho de Oslo. Com Lisboa eu tenho uma relação muito bonita, com Coimbra também. Cidade linda. Depois vou para o Porto, onde compus ‘P da Paixão’ – comecei em Porto Alegre e terminei lá. Depois, vou para Amsterdã, a Holanda dos moinhos e da invasão holandesa em Pernambuco. 

Daí eu vou para Berlim, onde, antes da queda do muro, eu já tinha feito um show. E aí me lembro de Paris, tenho uma relação linda com a cidade, conheço tudo lá. Quero ir ao Jardim de Pernambuco, mas não sei se agora vai dar tempo. Lá fui fotografado para o disco Saudade de Pernambuco. Da Bélgica me lembro de uma turnê que começou e depois passou por lá. A Holanda está muito dentro de mim. Fiz ‘Mágico’ lá, uma música que marcou muito minha carreira. Está na memória. 

É bom voltar para os cantos que você ama. 

Você tem uma memória impressionante, declama suas poesias sem pestanejar, tem tudo na ponta da língua. O que você faz para manter a mente tão fresca, lúcida e sempre em movimento?

Tenho uma memória muito forte. Certa vez fui com meu avô para uma cidade chamada Salobro, no interior da Bahia. Lá, tinha uma fábrica de queijo e me lembro que eu vi, passando por um riacho, as marcas de um pneu de caminhão. Anos e anos depois escrevi “Porto da Saudade”: “Faz tanto tempo, tempo é rua Soledade/ Leia saudade quando escrevo solidão/ Quis o destino tortuoso dos ciganos/ E as aventuras dos pneus de um caminhão/ Que atravessava o riacho de Salobro (...)”. 

Está tudo interligado, o passado, o presente e o futuro. Tenho essa memória forte por não parar de pensar, de refletir... 

Sei todas as minhas letras. Outra coisa também é boa para a memória: caminhar. Imagina ficar em casa o tempo todo. Fica olhando para lá, olhando para cá. Você olha, olha… Quando você está caminhando uma pessoa passa perto de você, depois passa um carro, você tem que estar atento, tem que saber em qual rua está. Caminhar é uma coisa maravilhosa para a saúde mental e para a memória. Ler também é muito bom. Hoje eu ganhei um livro de filosofia. Vou começar a ler.

Por:

Bruno Mateus

Fotos: Leo Aversa/Divulgação

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