
Em Uma Ode a Dorival Caymmi (2025), Adriano Grineberg quer preservar e reverenciar a importância de Dorival Caymmi para a música popular brasileira. Com produção própria, ao lado de Edu Gomes, Adriano apresenta releitura de sete faixas que marcaram o repertório do baiano.
Adriano dá seu toque especial para as canções, com um jeito mais eletrônico, para “A Jangada Voltou Só”, “O Bem do Mar”, “Samba da Minha Terra”, “Quem Vem pra Beira do Mar”, “Canção da Partida”, “Maracangalha” e “Adeus”. Danilo, filho de Dorival, ainda participa da faixa de abertura.
“Caymmi sempre falou da vida com a delicadeza de quem escuta o vento. Suas canções são como águas que mostram, que acolhem, que ensinam o tempo de cada coisa”, diz Grineberg. Nos feats, entram Alaíde Costa, Lazzo Matumbi e Nasi, do Ira!.
Apaixonado pela pesquisa e experimentação musical, Adriano conta com outros quatro álbuns: Key Blues (2010), Blues for Africa (2013), 108 (2019), Xamã (2023) e Eufótico (2024). Em seus três primeiros trabalhos, o artista foca no blues, mas, desde o pós-pandemia, ele deságua na MPB.
Esta não é a primeira vez que Adriano revisita o legado de Dorival. Em Eufótico ele traz no repertório nove releituras de clássicos do baiano, como “A Lenda de Abaeté”, “Promessa de Pescador”, “O Vento” e “Morena do Mar”.
Em sua obra, Dorival Caymmi passou do samba às modinhas. O “compositor da praia e do mar" dedicou grande parte do seu trabalho à cultura praieira e marinheira baiana. Suas músicas retratam o cotidiano dos pescadores e a beleza do oceano, como a famosa parceria com Jorge Amado em "É Doce Morrer no Mar" (que também ganhou releitura de Adriano).
Ouça e leia Uma Ode a Dorival Caymmi faixa a faixa:
"A Jangada Voltou Só": a faixa se apresenta como uma abertura de portal. A voz e a flauta transversal de Danilo Caymmi anunciam a Ode ao seu pai — aquele que nos revelou, em som e poesia, o mistério e a coragem da busca pela sobrevivência dos pescadores. Um gesto que ecoa em nós como metáfora de todos que se lançam ao mar da vida mesmo diante da possibilidade do não retorno.
"O Bem do Mar": a poesia de Caymmi sempre se mostrou como imagem. Ao longo do processo, procurei traduzir essas imagens em sonoridade, atravessando as dimensões e camadas do seu universo. Aqui, o sentimento se apresenta na forma de dualidade: o que parte para o mar e sente a saudade de quem fica; e aquele que permanece em terra, mas guarda no peito o infinito do mar.
"Samba da Minha Terra": um m encontro grato com o irmão de jornada Lazzo Matumbi, que coloriu o nosso samba com sua sensibilidade e ancestralidade. Lazzo trouxe nuances diversas, conectando o universo afro-baiano com as minhas raízes bluesy — ritmos e sonoridades que marcam profundamente a minha trajetória.
"Quem Vem pra Beira do Mar": mais um encontro luminoso do projeto, dessa vez com Alaíde Costa. Em estúdio, criamos juntos essa versão, trazendo as memórias de sua infância no Rio de Janeiro entrelaçadas às minhas pesquisas sobre ritmos de povos do Norte da África — como os tuaregues — presentes em outros momentos da minha caminhada musical.
"Maracangalha": o piano, no meu sotaque blueseiro de New Orleans, dialoga com a versão instrumental gravada por Ary Barroso nos anos 1950. Dessa fusão surgem muitos carnavais possíveis — do Brasil e do mundo — tecidos por batuques, alegria e a presença espirituosa do kazoo, instrumento característico do Mardi Grass.
"Canção da Partida": o último convidado do álbum é um amigo de longa data: Nasi. Tocamos juntos em muitos projetos, incluindo a banda Ira!, entre 2004 e 2007. Aqui, optamos pela estética da work song, tão presente nas nossas conexões musicais. Trazemos referências de cantores como Blind Lemon Jefferson, Big Bill Broonzy e Robert Johnson — ecos de um blues que também habitava Caymmi, seu admirador declarado.
"Adeus": a derradeira faixa encerra, pelo próprio título, um ciclo de três anos em estúdio, registrando 16 canções de Caymmi divididas em dois álbuns. Criamos uma atmosfera lo-fi com elementos jazzísticos, como o vibrafone e o trompete de Paulo Viveiro. É uma homenagem delicada a Nana Caymmi, cuja presença inspirou profundamente esta gravação.






