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Após “O Agente Secreto”, Gabriel Leone estreia na música com lado B da MPB


Por:

Vitória Prates

Fotos: Marina Zabenzi

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Torcendo para o Agente Secreto no Oscar? Então aproveite os dias que antecedem a premiação para dar play em Minhas Lágrimas (2026), estreia de Gabriel Leone — o Bobbi, do filme de Kleber Mendonça Filho — no universo da música. 

Com produção de Marcus Preto (jornalista que faz parte da curadoria do Noize Record Club) eTó Brandileone (do 5 a Seco), Minhas Lágrimas ainda traz participações de Ney Matogrosso (“Êta Nois”) e Juliana Linhares (“As Portas do Meu Sorriso”). O repertório de MPB reúne canções “lado B” de grandes artistas brasileiros, uma escolha conceitual de Gabriel como intérprete  

As dez faixas trazem composições imortais de Antônio Cícero, João Bosco e Waly Salomão (“Assim Sem Mais”), Celso Adolfo (“Nós Dois”), Djavan (“Segredo”), Guinga e Paulo César Pinheiro (“Bolero de Satã”), Guilherme Arantes (“Antes da Chuva Chegar”), Ivan Lins e Vitor Martins (“Choro das Águas”), Luhli e Lucina (“Êta Nois”) , Paulo Vanzolini (“Cara Limpa”) e Paulinho Tapajós e Fagner (“As Portas do Meu Sorriso”).

Apesar de serem referências da MPB, as faixas passeiam por arranjos de rock, como o artista explicou durante um bate-papo com a Noize. Vale destaque para “Minhas Lágrimas”, composição de Caetano Veloso que nomeia o álbum. “Muitas dessas músicas conheci visitando lojas de discos com o Preto, e me apaixonei pelas canções”, conta

Aos 32 anos, Leone nutre uma relação com a música, que também passa por sua carreira no cinema. O carioca já deu vida a Roberto Carlos em Minha Fama de Mau (2019), Eduardo em Eduardo e Mônica (2021) e Odilon em Meu Álbum de Amores (2022).

Foi, inclusive, durante as filmagens de Meu Álbum de Amores, que Leone começou a desenhar Minhas Lágrimas. Marcus Preto trabalhou no longa e, impressionado com o talento musical do ator, o incentivou a seguir carreira na música. 

Atualmente, está em cartaz com Hamlet - Sonhos que Virão, adaptada da obra de William Shakespeare, no Cine Copan, em São Paulo [ingressos aqui]. Em entrevista à Noize, Leone comenta desafios e delícias da produção do álbum, próximos passos e paralelos entre a carreira de ator e de músico.

Quais paralelos você enxerga entre se preparar para um disco e um filme? Em que momentos o lado ator ajuda o músico, e vice-versa?

Bom, vou começar falando da música em relação ao ator. A música me ajuda mais do que como ator; ela me ajuda como pessoa, como ser humano, como homem. A música faz parte da minha vida todos os dias, desde que eu me entendo por gente. Então é difícil separar a música de quem eu sou e, consequentemente, do ator que eu sou.

Curiosamente, eu não tenho nenhum processo específico de uma música para um personagem, ou uma playlist para personagem. Para mim, a música está ligada ao meu desejo, ao que estou sentindo, ao que me preenche, ao que estou precisando escutar naquele momento, independentemente do personagem.

É algo muito pessoal, muito essencial para mim. Por outro lado, quando penso em como o ator contribuiu com o cantor, com o músico, eu diria que 100%. Como eu não tinha uma experiência de canto fora dos personagens — minha experiência estava muito ligada aos trabalhos que fiz no teatro, no audiovisual, ou a coisas pontuais, singles, participações em shows — eu ainda não tinha experimentado de fato uma obra, um álbum. Essa voz do cantor eu ainda não tinha explorado.

E aí, como algo conceitual, como linguagem do disco, foram justamente o Marcos Preto e o Tó que me fizeram a proposta de desconstruir um pouco a técnica vocal de canto que eu tenho e aproveitar a minha experiência enquanto ator: a minha voz de ator, a minha interpretação de texto, a forma como eu preencho e dou vida às imagens.

Isso acabou condicionando inclusive os tons das músicas, trazendo tudo mais próximo da minha voz falada e da forma como eu interpreto. Então, o meu lado ator foi totalmente um fio condutor para esse disco. Especialmente pensando que essas músicas são todas de MPB, com letras muito profundas, densas, cheias de imagens poéticas. A gente queria trazer essa carga de interpretação, usar o meu lado ator a favor disso. Para mim, foi um processo muito interessante utilizar essa ferramenta que eu tenho como ator para dar vida a essas músicas.

O que foi mais desafiador e o mais prazeroso no processo do álbum?

Eu acho que o mais desafiador tem a ver com a resposta anterior, com esse processo de encontrar a minha voz. A gente juntou uma banda só de feras e gravou as dez músicas do disco. A gente gravava duas músicas por dia, duas bases por dia, então fizemos tudo em cinco ou seis dias, no máximo.

Como processo, eu me propus a algo específico: enquanto a banda estava gravando e a gente estava encontrando os arranjos e as formas das músicas, em vez de eu gravar uma voz guia para cada música e deixar rodando, todas as vezes que a banda tocava, gravava ou ensaiava, eu estava cantando.

Cantei todas essas músicas milhares de vezes ao longo desse processo. Para mim já era uma experiência de encontrar, de experimentar a minha voz nessas canções. 

Tinha muito presentes as versões originais, não só no sentido do arranjo, mas também das interpretações, das intenções e das divisões de frase. Então foi muito interessante — e muito importante — ter esse detalhe de estar junto da banda, cantando em absolutamente todos os takes, para também ir me contagiando pelos nossos novos arranjos. Como falei anteriormente, por esses novos tons que a gente estabeleceu para as músicas, e também para encontrar o meu jeito, a minha personalidade de interpretar cada uma daquelas canções.

Foi desafiador porque partimos de um ponto — como eu disse — de uma experiência de canto muito ligada ao teatro musical. E a gente partiu justamente desse lugar para desconstruir um pouco isso, para encontrar a minha voz em outro lugar.

Não foi reinventar a minha voz, absolutamente, mas entender de que forma ela se encaixava da melhor maneira possível em cada uma daquelas músicas. Bom, foi um processo muito novo, muito único para mim, a preparação do disco, porque foi o primeiro projeto artístico pessoal que eu realizei.

Os projetos de audiovisual e de teatro dos quais participei — por mais que eu escolha fazer parte deles — até hoje não foram coisas que eu idealizei desde o início, sabe? Nesse sentido, a Som Livre foi muito generosa comigo por ter comprado a ideia do jeito que eu apresentei, sem nenhuma interferência artística, sem nenhuma cobrança ou expectativa de metas.

Então, o disco é isso: era um desejo antigo, um sonho antigo, que eu realizei desde o princípio do jeito que eu imaginava. 

É lógico que, assim que eu trouxe Marcos Preto e Tó, os dois produtores, eles colaboraram absolutamente desde o princípio comigo para estabelecer os caminhos que a gente ia seguir com o disco. Mas, ainda assim, foi um processo de preparação diferente de tudo que eu já tinha vivido.

Porque, por mais que tenha em comum aquele frisson, o frio na barriga de quando você está começando algo novo, algo em que está muito envolvido e que quer muito fazer, nesse caso ainda tinha algo a mais, justamente por ser um projeto pessoal, por ter sido uma ideia minha, um desejo meu.

Como você construiu o repertório do álbum? Quais artistas te influenciaram nesse trabalho?

A música é algo absolutamente fundamental e é uma presença constante na minha vida.

Bom, todas as músicas que foram selecionadas nesse repertório são de artistas que me influenciaram, que são formadores do meu gosto musical — do meu caráter, eu diria. Todas essas canções foram escolhidas porque são de autores e compositores que mexem muito comigo, e essas músicas especificamente também mexem muito comigo. Acho as versões originais absolutamente espetaculares.

Agora, uma coisa interessante que aconteceu foi que a gente não tinha estabelecido nada previamente, no sentido da sonoridade do disco ou de para onde essas versões caminhariam. Como eu falei, a gente tinha uma grande página em branco, uma possibilidade de criar e caminhar para o lugar que a gente mais curtisse.

Acho que essa é uma das virtudes do disco, inclusive. É um disco muito múltiplo, desde a escolha do repertório até a forma como a gente encaminhou cada uma dessas músicas. Curiosamente, como a gente não tinha decidido isso previamente, acabou acontecendo algo interessante. Da mesma forma que a MPB é muito formadora do meu gosto musical e do meu conhecimento musical, o rock também é. Eu tive banda de rock, amo rock de todos os tipos.

E, de alguma forma, o disco caminhou um pouco para sonoridades e timbres de rock. Não só o rock pesado, o rock “bate-cabeça”, mas também o blues, o blues rock. Enfim, às vezes um som mais ambiente, mas com peso, pontualmente com distorção.

A gente brincava, inclusive, que eu sempre encontrava alguma música do Led Zeppelin que tinha algum paralelo com aquilo que a gente estava gravando.

Algumas baladas também, como todo bom disco de rock tem. Foi engraçado isso, porque, enquanto a gente estava no processo de achar os arranjos junto da banda, de criar e compor esses arranjos ali, muitas vezes me vinham referências de rock. Então acho que foi interessante esse encontro de canções tão múltiplas e diversas entre si, todas de MPB, mas que, de alguma forma, acabaram caminhando um pouquinho — cada uma à sua maneira — para o rock.

A música sempre esteve presente na sua vida, e agora é concretizada em forma de álbum. Por que este foi o momento certo de lançar Minhas Lágrimas?

Esse foi o momento certo porque foi um momento de necessidade de botar para fora, de transbordar sentimentos, de dar vazão. Eu já estava há tantos anos querendo realizar esse projeto, querendo realizar algum projeto com música, que eu nem tinha certeza exatamente do que seria.

Acho que existia, de alguma forma, uma falta de coragem — talvez revestida de uma falsa ideia de que, para ser um trabalho autoral, eu teria que compor essas canções. E acho que houve um estalo, uma virada de chave de pensar: “Eu preciso realizar isso, preciso botar tudo isso para fora”.

Quando eu vi, já tinha um disco pronto em nível de repertório. Então acho que foi isso. É difícil de explicar, mas, de forma geral, tem muito a ver inclusive com o título do disco. “Minhas lágrimas” não são lágrimas necessariamente de tristeza ou de choro. São lágrimas no sentido de sentimentos, no sentido de estar vivo, de extravasar, de dar vazão, de botar para fora. Acho que esse foi o principal impulso do disco

O álbum foi produzido por Marcus Preto e o Tó Brandileone e traz participações de Ney Matogrosso e Juliana Linhares. Como se deu esse encontro entre vocês? O que cada um trouxe de essencial para a construção do álbum?

Conheci Marcos Preto em um trabalho audiovisual que tinha música. Ele era produtor musical junto com Pupillo em um filme chamado Meu Álbum de Amores, que fizemos. No filme, eu canto músicas compostas originalmente para a trilha pelo Arnaldo Antunes e pelo Odair José. Já no segundo dia em que estive com o Preto, quando começamos a conversar sobre música, falar sobre como colecionávamos discos, enfim, ele me perguntou quando a gente iria gravar o nosso disco.

Ele falou recentemente uma coisa bonita para mim: não é que no ano passado nós decidimos gravar o disco — a gente sempre esteve nesse processo. Acho que todas as músicas desse disco passam, de alguma forma, por essa nossa amizade de oito anos, que está absolutamente ligada à música.

Seja a gente saindo sempre que dá para comprar vinil, seja trocando música no dia a dia, apresentando coisas um ao outro — ele me apresentando bem mais do que eu a ele. Muitas das músicas que estão no disco eu conheci entrando numa loja de discos com ele, ou a partir de um álbum que ele me mostrou, ou ainda de um disco que nós dois amamos em comum.

Então ele tem esse lugar: é um dos meus melhores amigos e foi fundamental não só como produtor musical do disco, mas também como esse parceiro, esse amigo musical de vida.

A Juliana eu não conhecia pessoalmente, mas o Preto produziu lindamente o primeiro disco solo dela. Enquanto a gente gravava e ainda estava trabalhando nos arranjos de “As Portas do Meu Sorriso”, que originalmente é um dueto entre Fagner e Paulinho Tapajós, sentimos a necessidade de manter essa ideia do dueto.

O arranjo caminhou para um lugar em que eu só conseguia escutar a voz da Juliana. Achei que seria lindo tê-la ali, entrando com aquela potência vocal, uma oitava acima. Seria algo emocionante, arrebatador, arrepiador — e foi exatamente como ficou. Ela foi muito generosa em topar e fez uma gravação linda. Eu amo o resultado dessa música.

O Ney é um amigo querido, um amigo de vida. Eu o conheci no documentário sobre o Milton Nascimento, Milton e o Clube da Esquina, do qual participei como apresentador. Foi ali que a gente se conheceu — eu o entrevistei.

Anos depois, cheguei a iniciar um processo para fazer uma série como ator sobre os Secos & Molhados, em que eu interpretaria o Ney. Foi nesse período que nos aproximamos mais. Infelizmente a série acabou não acontecendo, foi cancelada, mas o que ficou de bom foi a nossa relação, a nossa amizade.

Tenho um carinho enorme por ele. E uma dessas músicas que estavam no repertório é uma canção linda de um disco dele, Etanóia. A gente escolheu essa música para estar no álbum e eu não tive dúvida em convidá-lo para me dar a honra de fazer esse dueto comigo.

Ele ama essa música, então foi um dos momentos mais emocionantes de todo o processo do disco. Para todos nós — eu, Marcos Preto e Tó — que somos grandes fãs do Ney, estar com ele no estúdio e gravar juntos foi algo muito, muito especial.

Com Minhas Lágrimas no mundo, quais seus próximos passos? Podemos esperar shows logo mais? Como você imagina traduzir o universo do disco para a experiência ao vivo?

Bom, agora a gente está a dias do lançamento e, nesse momento, já tivemos alguns retornos de compositores que estão no disco. E todo mundo ficou muito feliz, muito surpreso com as versões e com o trabalho que a gente fez. Agora é isso: chegou o momento de botar o disco no mundo. A gente já lançou o single, mas agora o álbum sai na íntegra. Em breve também teremos um LP, algo que faço questão de ter, a mídia física.

Nesse momento, em relação ao meu lado musical, a gente vai trabalhar o disco. Estamos fazendo essa divulgação e, claro, vão ter shows. A gente quer apresentar esse trabalho e esses arranjos ao vivo. Na verdade, estou realizando um projeto pessoal, com todo o meu amor e dedicação. Então é isso: vamos trabalhar o disco, vão ter shows, mas, na verdade, eu não tenho nenhum próximo passo definido

O que quero dizer é que deixo as portas absolutamente abertas para o que tiver que acontecer — seja o desejo e a vontade mútua de gravar um próximo projeto ou não.

Pode ser algo que aconteça mais para frente, daqui a algum tempo, ou pode ser que nada aconteça. Eu estou muito tranquilo. Acho que o foco agora é esse momento de colocar no mundo esse registro, essas minhas lágrimas, e deixar as coisas acontecerem, sentindo tudo com calma, sem pressa e sem pressão.

Se você tivesse que resumir esse álbum em uma imagem ou cena, qual seria?

Me vem uma imagem de um coração tatuado. Acho que esse disco tem essa densidade, nessas canções que falam de sentimentos, que falam de algo pulsante. E a tatuagem tem essa coisa da pele, da marca que fica. Então me veio essa imagem.

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Vitória Prates

Fotos: Marina Zabenzi

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