
“Vivo uma sensação de completude, de estar em paz e aceitar quem sou. É um tempo de autoconhecimento e reencontro. Todo o percurso musical é um ciclo que me conduz de volta a mim mesma”, explica Nay Porttela sobre o álbum Alvorada (2025).
Este é o terceiro álbum autoral da goiana — a discografia completa ainda traz Garoa (2024) e Viradela (2023). Sua última produção tem uma narrativa clara: contar a história de uma mulher que se apaixona pelo outro e por si mesma.
A produção, os pianos e a percussão foram assinados pela própria, sempre acompanhada da viola da infância. “Quero que quem ouça o álbum sinta que está entrando em um tempo mais lento. Cada segundo ouvido carrega história e significado.
Nay também é intérprete de clássicos da música brasileira. Suas releituras renderam os álbuns Nay Vibes Bahia (2025) - com canções que homenageiam o estado, como de Gilberto Gil - Nay Vibes (2022) - repertório plural de banda Eva a Alceu Valença - Nay Vibes Forró (2020) - com clássicos do gênero -.
O único feat do álbum fica por conta da japonesa Yuga. Sobre a escolha internacional, Nay explica: “Demonstra continuação do meu compromisso em expandir os horizontes culturais da minha arte, criando um som que ressoa o Brasil em todo o mundo”, afirma ela.
Leia (e ouça) Alvorada (2025) faixa a faixa abaixo:
“Doce 甘い”: a abertura é uma colaboração com a Yuga, artista japonesa com quem tive o prazer de compor. Ela conecta as paisagens musicais do Brasil e do Japão, com a bossa nova e o pop japonês. Optamos por fazer uma música bilíngue, onde cada uma canta na sua língua nativa, oferecendo uma experiência sonora transcultural.
Doce 甘い é como se Tom Jobim encontrasse Ryuichi Sakamoto em uma tarde de contemplação. Neste momento inicial do álbum, estou em um estado de espírito elevado, em que a beleza se revela em tudo ao meu redor.
A letra descreve uma vista paradisíaca que é capaz de melhorar o dia da pessoa que a observa, como um sopro de otimismo. Yuga fala sobre um amor vivido em tempos, também citando imagens da natureza, como vento, chuva e noites frias. É contemplativa e sensorial, traz o olhar introspectivo, quase meditativo, que valoriza os detalhes sutis e o não dito.
“Inverno Sem Verão”: experiência de se apaixonar por alguém que intensifica a plenitude já revelada em “Doce 甘い”. Esse estado de completude me permitiu viver relações que acrescentam, despertam novas e boas emoções. Reflete amadurecimento emocional construído ao longo da busca pelo autoconhecimento.
A música nasce de uma parceria com os compositores Juan Max, Alan Souza, Diego Naza e Anderson Ovo, com sonoridade samba-jazz, synths texturizados e percussão mais MPB dos anos 90 — como se Djavan desenhasse harmonias no céu enquanto Caetano Veloso escreve poesias ao vento.
“Seu Dengo”: essa faixa representa o ponto mais alto da paixão que floresceu em “Inverno Sem Verão". Me transformo em uma mulher embriagada de amor, romântica e radiante, flutuando como se cada instante fosse um sonho bom que não quero acordar.
Me sinto profundamente amada e comparo esse sentimento à força do vento, que guia um barco e o faz seguir em frente. É um amor que purifica, que suaviza o caminho e me permite renascer. É uma parceria com os compositores Anderson Rodrigues Santos, Eduardo Gama Ferreira, Fábio Santos de Sousa e Pedro Couto.
O instrumental começa com o violão seguindo o ritmo do Ijexá, em um clima de voz e violão, enquanto o som suave do Rhodes preenche o fundo, como se Luiz Caldas e Norah Jones compartilhassem a mesma tarde: ele conduz o ritmo do corpo, ela embala a alma e, juntos, me levam para o universo de “Seu Dengo”.
“Sempre Vou Te Amar”: nesta altura do álbum, a paixão que se transformou em amor se concretiza em um pacto de entrega: o matrimônio. Até uma semana antes do lançamento, o nome desta faixa era “Digo Sim”, mas o refrão não saía da minha cabeça. Sem hesitar, mudei para “Sempre Vou Te Amar”, pois ele parte da premissa mais simples e poderosa que existe: um coração entregue.
Quando canto “Nosso amor é pra sempre”, não se trata de uma promessa fantasiosa, mas da aceitação consciente de um vínculo que se renova. A delicadeza da viola de Rafael Eloy dialoga com o piano e os sinos, criando uma atmosfera quase celestial. A faixa remete à tradição dos sinos presentes na Marcha Nupcial de Mendelssohn, símbolo universal dos casamentos.
“Rio”: nesta parte de Alvorada, sinto a desilusão se aproximar. Depois de me encontrar (“Doce 甘い”), me permitir (“Inverno Sem Verão”), me apaixonar (“Seu Dengo”) e me entregar intensamente a esse amor (“Sempre Vou Te Amar”), percebo que nem tudo segue como eu esperava. “Rio” é a água que leva embora o que já não me serve, me ensinando a deixar ir com leveza, consciência e amadurecimento.
Nessa faixa, narro o fim de um relacionamento que foi lindo enquanto durou, mas que não segue mais na mesma direção. É um processo de mergulho profundo nesse rio: estou mudando de fato? Estou fazendo algo para que a mudança aconteça?
O som se veste de bossa nova, com a voz na frente, enquanto o violão caminha para o estilo João Gilberto. Mantive a produção minimalista, mas acrescentei texturas de sintetizadores, dando uma leve profundidade e criando um diálogo com a cultura sonora que atravessa minha geração. O lyric video foi gravado no Rio Vermelho, em Goiás.
“Serra Dourada”: respiro que surge depois da desilusão de “Rio”, como um momento de pausa onde posso reencontrar meu equilíbrio. É uma faixa instrumental em que dedilho a melodia de Rio no piano, como se cada nota recolhesse os fragmentos deixados para trás.
É a parte do álbum em que me realizo como amante da música instrumental; cresci cercada pelos ecos de Villa-Lobos, Vivaldi, Mozart e Beethoven, e os sinto reverberar em cada acorde que toco. Chegar a essa faixa depois de tantas emoções intensas e profundas de Alvorada é como voltar para casa dentro de mim mesma.
“Ainda É Cedo”: depois de me reconectar em “Serra Dourada”, volto às minhas raízes mais profundas e canto com toda a minha alma. Gravei essa faixa entre lágrimas, e acredito que nunca consegui cantá-la inteira sem chorar. Ela reflete minhas origens.
A melodia é um encontro generoso entre a MPB e a música do interior, trazendo à tona a cultura que moldou minhas raízes e minha voz. Nessa faixa, estou plenamente consciente de tudo o que me permiti viver, e também questiono tudo aquilo que ainda não tive coragem de experienciar. Faço da terapia uma música, um grande “por quê?”, como se dissesse: nunca é tarde. Nunca é tarde para recomeçar, nunca é tarde para se encontrar, nunca é tarde para mudar, para se entregar ou se transformar.
“Amanhecer”: a última faixa de Alvorada encerra o ciclo com a versão instrumental de “Sempre Vou Te Amar”, onde dedilho a melodia no piano, como um compromisso silencioso que selo comigo mesma. É um momento de reflexão e presença plena, a gratidão percorre minhas emoções, recolhendo os fragmentos das experiências vividas ao longo do álbum. Essa faixa encerra essa travessia emocional e sonora de Alvorada, um encontro entre culturas, sentimentos e experiências que me conectam profundamente comigo mesma e com o mundo ao meu redor.









