
Há um magnetismo inegável na forma como Amabbi ocupa o espaço. Quem a assiste dominar a atmosfera sofisticada e jazzística do Blue Note São Paulo testemunha o ápice temporário de uma metamorfose que começou muito antes. Passando pelo trabalho como vendedora de pastel na feira, a cantora e compositora paulistana fez do palco um reflexo de seus estudos e conexões afetivas.
O pretexto da noite foi a apresentação de seu elogiado último trabalho de estúdio, Crisálida (2026), um disco que mergulha sem filtros nas nuances da sensibilidade, das dores e do amadurecimento das mulheres brasileiras. Nos bastidores do show, conversamos com a artista sobre o desafio de traduzir a estética urbana para o formato orgânico, o papel da literatura como motor de sua engrenagem criativa e a recusa em manter sua escrita restrita ao próprio ego.
NOIZE: Como foi para você trazer essa identidade essencialmente urbana e o conceito do rap para um ambiente tão intimista e tradicional como o do Blue Note?
Amabbi: Foi uma experiência muito legal. Acredito que o meu diretor musical, o Alexandre Modesto, consegue trazer muito bem essa mistura orgânica com o rap, criando um diálogo direto com as músicas que eu construí junto com ele. "Milli e Mili", por exemplo, é uma faixa que carrega muita representatividade, então era absolutamente necessário ter esse tipo de entrega e calor no palco. Além disso, tive a aprovação de muita gente legal que eu respeito, sabe? Acho que o mais importante para mim nesta noite foi justamente sentir a presença de todo mundo ali. Acabou se tornando uma grande mistura: trazer esse conceito urbano para dentro do Blue Note, injetar um pouco de rock, um pouco de rap, reunir as participações especiais... Estou genuinamente muito feliz com o resultado que alcançamos.
NOIZE: O seu percurso artístico e de vida é marcado por transformações muito nítidas. Olhando para trás e pensando em quem te ouve, que conselho você deixaria para uma garota que pode estar desanimada ou sentindo que já não tem forças para continuar?
Amabbi: O meu principal conselho é: leia livros. Eu acredito piamente que quando você lê, você ganha uma criatividade fodida e passa a ter um repertório gigante, um monte de coisas densas para falar e expressar nas suas músicas. Então, não para. Está tudo aí no mundo para a gente estudar, aprender e descobrir. Se você olhar para a minha história, há dois ou três anos eu estava vendendo pastel na feira. Hoje estou aqui, cantando no Blue Note. Sou imensamente feliz com as minhas conquistas e acredito de verdade que ninguém deve parar ou desistir diante das dificuldades, porque no caminho vão aparecer outras pessoas que vão te abraçar e te levar junto. Eu trouxe a Frida e a Clara Lima muito junto comigo nesse processo, da mesma forma que elas e outros parceiros me levaram e me apresentaram essa essência. No final das contas, a música não é apenas a música por si só; é sobre construir um afeto direto. Ande com pessoas que de fato acreditam no seu trabalho, pessoas que querem estar sempre ao seu lado e evoluir contigo. Tenha uma família ou uma rede que apoie o seu sonho e entre de cabeça na sua arte.

NOIZE: Destrinchando a sua engrenagem criativa, chama a atenção como algumas das suas composições mais marcantes nascem de forma quase instantânea, em questão de 20 minutos, mas retêm uma força totalmente atemporal. Como funciona o seu processo de escrita no dia a dia?
Amabbi: Na maioria das minhas músicas, eu costumo fazer uma pesquisa muito profunda sobre os temas antes de efetivamente começar a escrever. A gente faz quase um trabalho de antropologia musical, sabe? Para construir o conceito do Crisálida, por exemplo, eu fui estudar a fundo a biologia e a simbologia do casulo para entender como transparecer o movimento e a vivência feminina ali dentro. No caso dessa faixa específica, a gente tinha uma vontade muito grande de criar algo que seguisse a linha melódica e a sensibilidade de "Temporal", do clássico do Art Popular. Naquela mesma época, eu li uma frase marcante em uma página que dizia: "Nem toda estrada é uma via de mão dupla". Aquilo me fisgou imediatamente e acabou se tornando a frase de abertura da canção. Eu a encontrei folheando o livro Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente.
Esse tipo de literatura me traz muito o gatilho da emoção, me ajuda a estudar o amor, o sentimento, as complexidades dos relacionamentos e até a dinâmica da traição. Eu prefiro não centralizar as composições na minha própria história particular, porque acho que focar apenas no meu umbigo seria algo muito egocêntrico. Meu foco principal é decifrar como me conectar verdadeiramente com a pessoa que está do outro lado da tela, com quem está escutando o fone no metrô do meu lado, com o meu vizinho... É muito mais sobre o outro. É buscar a representatividade das mulheres e transparecer isso estudando o cotidiano delas, consumindo conteúdos e podcasts muito bravos como o Bom Dia, Obvious ou o Gostosas Também Choram, que dão voz aos vazios, aos 'sim' e aos 'não' que compartilhamos. Tudo isso vira tema de estudo. É a partir daí que a gente vai destrinchando as canções.





