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Banana Frita: cena queer amazônica chega ao WHOLE Festival


Por:

Maria Paula Santos

Fotos: Divulgação

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A cena eletrônica queer de Manaus terá um representante na primeira edição brasileira do WHOLE Festival, que acontece de 6 a 9 de novembro, em São Paulo. Celebrando cinco anos de atuação, a Banana Frita é o único coletivo da Região Norte confirmado no line-up do evento, considerado uma das principais referências internacionais da cultura clubber LGBTQIAPN+. 

Com uma apresentação de três horas, comandada pelos DJs Dreko, Robyn, Leozera e Koka, o projeto amazonense chega ao festival após uma trajetória de quase 30 edições próprias, mais de 15 mil pessoas reunidas e participações em eventos como Mamba Negra e Gop Tun Festival, além de edições gratuitas que ocuparam as ruas do norte ao sudeste.

Criada em 2021, durante o período de isolamento da pandemia, a Banana Frita surgiu da necessidade de construir espaços de conexão e expressão para a comunidade LGBTQIAPN+ de Manaus. O que começou como uma iniciativa independente se consolidou como uma plataforma de música eletrônica, performance e produção cultural com um tempero amazônico especial, reunindo artistas e profissionais que movimentam a cena underground da capital amazonense, com tudo aquilo que não se vê nos grandes centros do país. 

O começo de tudo

O convite para o WHOLE chegou de forma inesperada, embora a possibilidade de participar do festival já tivesse sido assunto entre os integrantes. Para Dreko, DJ, diretor de arte e fundador do coletivo, a confirmação também sinaliza uma atenção crescente à produção eletrônica desenvolvida fora dos grandes centros brasileiros.

“O convite veio totalmente de surpresa. Claro, a gente já tinha visto o anúncio de que ia ter a primeira edição no Brasil e eu lembro de ter mandado no grupo de amigos manifestando que a Banana tocaria nesse festival. Mas não imaginei que realmente iriam nos chamar, com uma proposta logo de cara. A gente ficou muito feliz por ter sido notado por uma curadoria internacional e que está bem atenta ao cenário brasileiro como um todo”, conta.

A participação acontece em um momento de expansão do coletivo, que vem estabelecendo conexões com a cena eletrônica de São Paulo nos últimos anos, incluindo as participações no Mamba Negra, em 2023 e 2025, e no Gop Tun Festival, em 2024.

O Norte também é clubber

A presença da Banana Frita no WHOLE chama atenção para uma cena que, apesar de sua produção contínua, ainda enfrenta obstáculos para alcançar circuitos nacionais e internacionais. A distância geográfica, os custos de deslocamento e a concentração de oportunidades no eixo Rio-São Paulo fazem parte das dificuldades de artistas e coletivos independentes da Região Norte.

Para Robyn, fundador da Banana Frita, integrar a programação de um festival internacional representa o reconhecimento de uma identidade musical construída em Manaus, com características próprias e uma relação direta com o território amazônico.

“O Norte não é mero espectador, mas sim um polo criativo maduro e com identidade própria. Nossa presença no WHOLE mostra que o Sudeste e o circuito global estão atentos às movimentações que rolam por aqui, e passaram a se voltar para a riqueza da nossa pesquisa, interessados no ‘molho’ único que a gente entrega”

Ele continua: “É um recado claro de que os grandes produtores precisam descentralizar o olhar para além do eixo Rio-SP.”

Tem de circular

A discussão sobre circulação cultural acompanha a trajetória da Banana Frita desde sua criação. Ao desenvolver festas e ações próprias, o coletivo também contribui para a formação de público e para a manutenção de uma rede de profissionais que atuam na produção cultural independente de Manaus.

Leozera, artista, fotógrafo, produtor cultural e fundador do projeto, destaca que a participação no WHOLE ajuda a dar visibilidade a um trabalho que não se vê por aí, pois nasce da necessidade de uma fonte de criatividade completamente diferente do que vemos no resto do país, fugindo de estereótipos enquanto abraça suas raízes de maneira ancestral, moderna e urbana. 

“Isso mostra o potencial criativo que a cidade pode ter, mesmo diante de todos os impedimentos e faltas de acesso. Existe um trabalho sendo feito por coletivos independentes, com participação da comunidade LGBTQIAPN+ e toda uma economia que gira em torno desses movimentos. Mesmo com a dificuldade crônica de logística, continuamos exportando talentos e representando a cultura do Amazonas e da Amazônia urbana”, afirma.

A identidade queer amazônica no circuito internacional

Criado na Alemanha, o WHOLE Festival se consolidou como um dos principais encontros da cultura eletrônica queer mundial. Realizado originalmente em Ferrorpólis, o evento reúne artistas, DJs e coletivos ligados à música underground, além de promover performances, instalações artísticas e atividades voltadas à convivência e à expressão da comunidade LGBTQIAPN+.

A estreia brasileira aproxima essa proposta de diferentes cenas independentes do país. No caso da Banana Frita, a participação também amplia a presença de artistas amazônicos em espaços historicamente não ocupados pelas regiões ao Norte do Brasil.

Para Koka, DJ residente do coletivo desde o início do projeto, o convite tem um significado que atravessa sua própria experiência como artista trans preta e nortista.

“Para mim, fazer parte da estreia do WHOLE no Brasil tem um significado muito forte, principalmente por vir de Manaus e atuar há anos na construção de uma cena independente no Norte”, diz. 

“A cultura queer e a música eletrônica sempre foram espaços de criação, resistência e encontro”

“Estar em um festival com essa história significa também levar outras perspectivas para esse circuito. É muito simbólico ocupar esse espaço enquanto travesti preta e nortista, mostrando que existem pesquisas, artistas e cenas potentes sendo construídas longe dos grandes centros”, conta.

A fala de Koka também ajuda a compreender a proposta que acompanha a Banana Frita desde 2021: a construção de espaços de expressão para artistas LGBTQIAPN+ faz parte da identidade do coletivo e orienta sua atuação nas pistas de Manaus.

Para Dreko, essa aproximação com o WHOLE acontece justamente pela afinidade de valores que existe entre os projetos.

“Quando a gente pensa no WHOLE a gente imagina um lugar de libertação, tanto das nossas identidades quanto dos rótulos sobre produzir cultura eletrônica. A gente se relaciona em muitos pontos, propósitos e políticas, então tudo já está bem equilibrado e vai fluir naturalmente. Agora é aguentar a ansiedade e passar os próximos dias finalizando o show.”

O que vem por aí

Para a apresentação no WHOLE, a Banana Frita prepara um set de três horas, reunindo seus quatro DJs residentes. A proposta é apresentar ao público do festival parte da experiência musical desenvolvida pelo coletivo ao longo de cinco anos de festas em Manaus, preservando a identidade que acompanha o projeto desde sua criação.

A participação integra uma temporada de atividades em São Paulo. Além do WHOLE, a Banana Frita tem apresentação anunciada no Carmem Bar, no Bom Retiro, em 5 de novembro, ao lado de Aya Ibeji, reunindo Dreko, Robyn, Leozera e Koka. A agenda também prevê uma participação no Apartamento 1205, no dia 14 de novembro.

A circulação pela capital paulista dá continuidade a uma relação construída pelo coletivo com outras festas e iniciativas independentes da cidade. Para além das apresentações, essas conexões contribuem para aproximar artistas de diferentes regiões e ampliar os espaços de atuação da música eletrônica produzida no Amazonas.

Aos cinco anos, a Banana Frita chega ao WHOLE com uma trajetória que combina produção independente, formação de público e valorização da cultura queer amazônica. Sua presença no festival evidencia a força de uma cena que desenvolve pesquisas musicais próprias e segue construindo caminhos para circular pelo país.

Como resume Robyn, a conquista também carrega uma reivindicação sobre o lugar da Região Norte no circuito eletrônico brasileiro: “Manaus tem uma cultura clubber singular, com um público caloroso e artistas que produzem som periférico e underground de altíssima qualidade. Estar nesse lineup é garantir que a nossa força e a nossa vivência nativa ocupem, por direito, o espaço que sempre mereceram.”

WHOLE Festival

Data: 6 a 9 de novembro de 2026

Locais: São Paulo (em endereços/locações que incluem múltiplos espaços como Cine Jussara, Komplexo Tempo e afters/locações secretas divulgadas pela organização).

Ingressos e vendas: Disponíveis na Shotgun.

Por:

Maria Paula Santos

Fotos: Divulgação

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