
O terceiro disco de Bemti chega com uma mudança de humor evidente. Se Logo Ali (2021) mergulhava em tons introspectivos que renderam uma menção na lista da APCA, Adeus Atlântico (2026) aposta em luminosidade e ritmo acelerado. Nascido em Serra da Saudade e radicado em São Paulo, o músico compôs o álbum durante temporadas em Rio de Janeiro, Bahia, Lisboa, Londres — e essas geografias estão impressas nas dez músicas do álbum.
A viola caipira de dez cordas segue como protagonista, mas agora passa por pedais de guitarra e conversa com programações eletrônicas. Para os shows, Bemti apresenta um instrumento inédito feito pelo luthier mineiro Sânzio Brandão: a Viola-Guitarra, híbrido de Viola Caipira e Guitarra Les Paul que ele estreia no palco do Sesc 14 Bis em 20 de fevereiro [saiba mais abaixo].
O repertório também se expande para territórios como house, disco e rap — uma movimentação sonora que encontra paralelo nas colaborações do disco. São vozes de três continentes: FBC e Luar vêm de Belo Horizonte, Thu do Rio, Haroldo Bontempo das raízes mineiras, enquanto Alex D'Alva (Angola/Portugal), Marissol Mwaba (Brasil/Congo, morando em Paris) e Fyfe Dangerfield (Inglaterra, vocalista do Guillemots) trazem sotaques de fora.
Após o lançamento, a próxima meta é conquistar os palcos dos grandes festivais brasileiros. “O sonho é circular os festivais. Meu sonho no momento é a Primavera Sound por causa do tipo de som que faço, por todas essas referências”, conta. O C6 Fest também está na lista de ambições do artista, que vê seu som “muito festival-friendly”. “É um tipo de som que já estamos acostumados a ouvir gringos trazendo pro Brasil — esse pop Indie, mas agora com viola caipira. Acho muito interessante”, completa.
Nesta entrevista, o músico fala sobre o processo de seleção das músicas do álbum, a descoberta da viola caipira como identidade artística, os desafios de construir carreira vindo de origem humilde e LGBT+, e como equilibra tradição mineira com ambições globais.
“Adeus Atlântico” é um título bem sugestivo. De onde veio essa ideia e de onde exatamente você está se despedindo?
O "Adeus Atlântico", tanto no disco quanto na minha vida, foi mudando de sentido e acumulando significados. Assim como no disco, talvez você comece achando que o "Adeus Atlântico" é uma coisa, e quando chega na música "Adeus Atlântico", que tem uma inversão ali onde o substantivo vira adjetivo, muda um pouco o foco. Para mim, a primeira vez que veio na cabeça foi em 2021, quando eu estava terminando o álbum "Logo Ali". Em 2022, fiquei morando em Lisboa, passei uma temporada na Inglaterra também. Nos últimos anos, no geral, fiquei muito tempo no Rio de Janeiro e na Bahia. A maioria das músicas que escrevi veio muito nesse contexto de estar no litoral, que era uma coisa que eu queria muito para minha vida. Com a pandemia, pensei: "Não, eu quero realizar isso, morar um tempo no litoral".
O disco reflete tanto as minhas jornadas emocionais — sendo um estrangeiro, tendo um grande amor estrangeiro que vem para o Brasil e não dá certo — quanto as várias pessoas que fui encontrando. Por exemplo, o Alex D'Alva, que participou em "Miragem", é angolano radicado em Portugal. Eu o conheci em Lisboa, ele participou de um dos meus shows.
Ele me contou que me conheceu durante a pandemia devido a um post patrocinado que viu em Portugal, do meu disco. “Adeus Atlântico” acaba sendo uma celebração também desses encontros que tive nesses últimos anos, ao mesmo tempo que é um jeito de criar uma narrativa que diga respeito a todas essas jornadas emocionais, físicas e geográficas.
Vi que você falou que o disco é uma jornada transoceânica sobre amor, pertencimento e vontade de viver tudo ao mesmo tempo. Como foi traduzir sentimentos tão amplos e distintos em algumas faixas?
Desde 2021, desde que encerrei "Logo Ali", escrevi mais de 30 músicas. Nenhuma das músicas que compõem "Adeus Atlântico" são descartes do "Logo Ali" — os descartes ficaram lá.
Todas essas músicas que compõem o "Adeus Atlântico" são recentes, do final de 2021 para cá. O grande desafio, que explica esse tempo entre os dois discos, foi justamente entender quais músicas contam essa história específica do "Adeus Atlântico". Meu 2024 foi muito sofrido nesse sentido, porque eu ficava tentando selecionar as melhores músicas e fazer tracklists de 15, 16 músicas.
Aí vi um filme incrível que você deve ter visto: “Tudo Que Imaginamos Como Luz”, lançado no Festival de Cannes em 2024. Lindo demais. É um filme bem dividido em dois — a parte da praia e a parte de Mumbai. Durante o filme, tive uma epifania: "Cara, a história que eu quero contar é essa aqui, são essas músicas. As outras músicas são outras histórias". Saí do cinema já com a tracklist do "Adeus Atlântico" definida.
A viola caipira é muito importante para o seu som, mas você a mistura com sintetizadores e beats eletrônicos. Como encontrou esse equilíbrio?
No "Adeus Atlântico" principalmente, eu gosto muito dos momentos em que a viola aparece. Mesmo em músicas que você acha que ela não está muito presente, como "Melhor de Três", que é muito eletrônica, tem três camadas de viola — o refrão tem um riff de viola super presente. O grande momento da minha carreira como músico foi entender a viola caipira como meu instrumento básico. Uso a viola como muitas pessoas usam violão, guitarra ou piano. Ela é um instrumento versátil, brasileiro, tradicional, e pouquíssima gente usa fora desse contexto tradicional. Para mim, ela dá uma coluna cervical para o meu som.
Tem muita coisa no disco que parece guitarra, mas é viola caipira com pedal de distorção. E agora sou dono de um híbrido de viola caipira e guitarra Les Paul, que talvez seja o único do planeta com esse modelo. Quem fez foi um luthier de Belo Horizonte, chamado Sânzio Brandão, que faz tudo do Patu Fu. É o instrumento que estava esperando a vida inteira para ter. Vamos estreá-lo ao vivo no show de lançamento do disco.
Quando você aprendeu a tocar viola caipira? Quando identificou que ela era seu instrumento?
Quando era adolescente, tocava só violão e guitarra, mas sempre tive esse histórico dos meus avós, tanto de pai quanto de mãe, participarem de folia de reis. Durante meu TCC, dirigi um documentário na comunidade rural onde minha avó mora, na Serra da Saudade, em Minas. Achei uma viola caipira abandonada lá da família e tive esse insight: "Vou fazer a trilha do documentário com a viola". Em dois dias, já tinha escrito três músicas inteiras com pegada indie, tipo folk indie pop. Falei: "Caramba, tem um universo aqui não explorado".
Por mais que eu reconheça que é um grande diferencial do meu som, acho que ainda falta cair uma grande ficha em relação a quão inédito e diferente é o que faço com a viola caipira.
Como você se enxerga no cenário musical hoje? Qual é o seu lugar nesse meio?
Me vejo socialmente como outsider porque nasci literalmente numa fazenda no meio do nada, de uma família muito pobre de fazenda. Vim para São Paulo fazer audiovisual na USP, e foi essa vivência – vindo de uma origem muito humilde – que me colocou em contato com as pessoas que, eventualmente, construíram minha rede aqui.
Durante a faculdade, me via muito como alguém olhando o aquário de fora. Estudava com o filho do diretor fulano, com a filha da maior produtora de São Paulo.
Na música em si, me sinto acolhido pelos músicos LGBT que faço, independente do gênero.
Sou amigo ou próximo de pessoas LGBT de sons muito distantes do meu, e talvez pessoas com som mais próximo que não tenho proximidade por causa dessas camadas sociais.
Como é viver de arte no Brasil quando você está nesse lugar de outsider, não é nepobaby, é um artista mais indie?
Espero que esse parâmetro mude com esse disco. Ele tem uma sonoridade mais pop, num lugar de indie pop.
Minhas ambições sonoras são outras. O grande pulo do gato do meu som, principalmente do "Adeus Atlântico", é explorar um pop em português brasileiro com referências muito diretas de indie pop.
Socialmente me considero outsider, mas na música em si, meu som não é nem um pouco hermético. Pelo contrário, acho que é muito pop.
Não à toa, "Quando Só Sumir", do "Logo Ali", entrou na trilha de "Amor da Minha Vida" [estrelada por Bruna Marquezine]. É uma cena super importante da série, e depois que estreou, a música ganhou outra vida. Hoje é minha segunda música mais escutada. A própria Bruna postou umas três vezes nos stories dela.
Quais artistas brasileiros, ou não brasileiros, mais em uma bolha LGBT, mais te inspiram ou você associa similaridades com seu som?
Achei extraordinário o disco da Catto no ano passado, Caminhos Selvagens. Ela está explorando nichos que as pessoas não estão explorando. O disco dela para mim é indie rock anos 90, muito PJ Harvey. É um puta disco, muito foda. Admiro muito a Catto, tenho prazer de chamá-la de amiga.
Fora do Brasil, por exemplo, o primeiro disco solo do vocalista do Sigur Rós, o Jónsi, que se chama Go, para mim é um dos discos mais próximos sonoramente do "Adeus Atlântico". Mas o Moses Sumney também, sou alucinado por ele. Agora ele vive no Brasil, virou amigo da Liniker, está aqui toda hora. O Perfume Genius também foi um som que escutei muito nos últimos anos.
A Marissol Mwaba mencionou que ficou impressionada ao descobrir que sons que parecem guitarra são, na verdade, viola. Você busca ativamente essa confusão sonora ou isso acontece naturalmente?
"Eu não vim para confundir" – lembra do Chacrinha? Pelo contrário, não quero confundir ninguém. Às vezes, brinco que a polícia da viola caipira vai me prender um dia, mas alguns violeiros importantíssimos que conheço, como Ivan Vilela e Roberto Corrêa, gostaram muito do meu som e incentivaram meu trabalho de pesquisa.
A viola caipira é um instrumento versátil como qualquer outro. Ela se chama viola caipira pela origem dela, mas nada impede de usar em qualquer outro contexto.
Quem não é tão leigo vai escutar e perceber uma timbragem diferente. A viola tem muito harmônico, traz outros tipos de agudos e graves que violão e guitarra não têm. Quem é totalmente leigo vai só escutar e embarcar. O principal objetivo das minhas músicas é conectar emocionalmente com quem está ouvindo. Isso é uma coisa que sinto muita falta às vezes na música brasileira, justamente essa tradição de se conectar emocionalmente com quem está te ouvindo.
Como você escolhe com quem vai dialogar musicalmente? O disco tem FBC, Marisol, Haroldo Bontempo, Alex D'alva...
Como foi um disco escrito e gravado entre Brasil, Portugal e Inglaterra, e o disco chama "Adeus Atlântico", queria muito que as participações refletissem isso. A Marisol Mwaba foi a primeira pessoa que chamei para "Lua em Libra". Ela é brasileira, filha de congoleses, mora em Paris e estuda astrofísica. A música chama "Lua em Libra" e é um pouco irônica, fala dessa astrologia num lugar de culpabilização, de tirar as próprias responsabilidades. A participação dela é muito específica porque traz essa abordagem científica. Fora que a voz dela é incrível.
O exemplo mais clássico é o Fyfe Dangerfield do Guillemots. É uma inspiração gigante para mim, uma das bandas mais importantes da minha vida. Paul McCartney é fã deles, passaram por todas as grandes premiações britânicas. Ele representa a Inglaterra nessa jornada do disco. É sensacional que ele topou e se dedicou muito — era só um verso em inglês que se repete, e ele gravou 41 faixas de voz para harmonia, gravou guitarra, piano, levou a música para outro lugar. O Haroldo é da cidade onde passei parte da infância, Carmo do Paranaíba em Minas. O FBC e a Luar trazem o lado BH. A Tuane é carioca, o Alex D'alva é angolano que conheci em Lisboa, o Fyfe é inglês, a Marisol com toda essa história.
Desde o primeiro disco, sempre me impressiono com a generosidade das pessoas que topam. É uma conexão que vem muito pela música.
Gravar à distância — a Marisol gravou em Paris, o Fyfe na Inglaterra. Você sente falta do olho no olho no estúdio? O que ganha e o que perde nesse processo?
Não sinto mais falta porque "Logo Ali" foi todo assim — foi escrito durante a pandemia. Mesmo pessoas que estavam muito próximas, como a Fernanda Takai, que estava em BH, gravaram à distância. Só fui ver a Fernanda quando gravamos o clipe de "Quando o Sol Sumir".
No "Adeus Atlântico", esse processo de cada um estar em um lugar foi muito familiar. Aqui em São Paulo gravei no Toca do Tatu, estúdio do Guilherme Kastrup. Quem produziu musicalmente e fez a mixagem é o Luis Calil, de Goiânia. Já me acostumei muito nesse processo com ele de ter esses grandes diálogos à distância e dele saber encaixar muito bem essas peças que vêm de cada lugar. Não sou muito da pira de reunir 10 pessoas no estúdio. Para mim soa como um luxo. É divertido, mas não é essencial.
Você é mineiro, vem de uma cena específica, mas transita por referências muito globais. Como equilibra suas raízes com esse desejo de dialogar com o restante do mundo?
A viola caipira é uma âncora. Quando você faz um acorde ali, um ré aberto no cebolão (que é a afinação que uso), já vai para o mato. No meu caso, não me vejo negando essas raízes porque é meio impossível com a viola. Ela já é uma âncora sonora e emocional, familiar.
Estamos num zeitgeist ótimo para a cultura da América Latina. Vejo esse disco escutado por pessoas de qualquer lugar do mundo. Teve uma situação engraçada: "Quase Sertão" entrou numa rádio japonesa super importante, e por uns 2-3 meses começaram a vir muitos ouvintes do Japão. Tem um músico húngaro que me conheceu porque escutou "Samba" do "Logo Ali" no YouTube, virou amigo, gravamos música juntos.
Justamente pelas minhas referências terem muito de música alternativa internacional e eu fazer esse mix com música brasileira, isso deixa meu som aberto para qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo que goste desse tipo de som.
Se pudesse resumir em uma frase ou sentimento, o que quer que as pessoas sintam ao ouvir "Adeus Atlântico"?
Vou replicar o FBC: ele falou que dá vontade de viver e navegar. É ótimo, quero muito que as pessoas que escutem tenham vontade de viver e navegar.
Bemti no Sesc 14 Bis
Sexta, 20/2, às 20h
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 - Bela Vista, São Paulo
Ingressos disponíveis no site do Sesc













