
Brutal Paraíso (2026), quarto álbum de inéditas de Luísa Sonza, é um marco na carreira da artista: com 23 faixas, é o primeiro trabalho em que ela assina boa parte das composições. Marca, também, a primeira vez em que a gaúcha de Tuparendi subiu ao palco do festival Coachella. O trabalho terá versão em vinil exclusiva pelo NRC+: já em pré-venda, o kit com LP duplo amarelo opaco conta com capa gatefold e pôster.
O álbum funciona como uma amálgama das referências da cantora: de um lado, a delicadeza da bossa nova e o “paraíso”, traduzidos em acordes suaves e na paisagem praiana da capa — um aceno direto a Bossa Sempre Nova, também em pré-venda pelo NRC+. Em entrevista à Noize, Luísa afirma que “para existir o Bossa Sempre Nova, precisou existir o Brutal Paraíso”.
Já o “brutal” se conecta ao brutalismo, vertente arquitetônica que orienta a identidade visual do disco. A referência nasce tanto da vivência da artista em São Paulo, entre prédios e viadutos, quanto da influência de bandas de pós-punk como Molchat Doma. “Sou uma fã totalmente descompensada por eles, já viajei para ver show, compro camisa, tenho todos os discos. Por isso, eu entendo meus fãs [risos]”, comenta.
Essa influência também pode ser percebida nos riffs de “Santa Maculada” ou nos sintetizadores soturnos de “Loira Gelada”. Esta faixa vale destaque: fazendo referência ao hit do RPM, “Louras Geladas”, a canção inverte o eu lírico original — antes, um homem que relaciona a musa fantasiosa à cerveja; agora, uma mulher que expõe seus próprios desejos e convida o parceiro para o romance. Além de incluir os sintetizadores e a guitarra oitentista, a faixa termina com uma bossa delicada, funcionando como uma síntese de Brutal Paraíso.
“Mesmo a parte rock’n’roll do disco, eu quis trazer pro Brasil, como essa referência ao RPM, por exemplo. Na verdade, todo o álbum passa pelo Brasil. Se não, não seria eu”, diz ela, que ainda cita Legião Urbana como uma das bandas que a influenciam — em “Tropical Paradise” há uma citação ao “sexo verbal” de “Eu Sei”, uma das faixas favoritas dela. “Poucas músicas começam tão bem como essa”, diz.
Passeando entre o pop, o funk, e o pop rock e pitadas de reggaeton, Brutal Paraíso trabalha a dualidade entre peso e leveza, brutalismo e paraíso, autodestruição e amor. “Eu tentei ser uma coisa só. Mas esse disco é o que é. Não quis defini-lo muito. Tudo o que eu tinha para dizer, eu coloquei para fora”, resume.
O álbum também dialoga com outras referências, de “Consolação”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes — evocada em “Fruto do Tempo” — ao universo de Nelson Rodrigues, em “A Vida Como Ela É”. “Mesmo escrevendo sozinha, eu não escrevo sozinha. A inspiração vem de tudo que me acompanha”, afirma.
“Desde o Escândalo Íntimo (2023), venho me colocando mais nesse lugar de compositora. Acho que criando mais coragem, mesmo. A gente tem muito medo, sendo mulher, porque não vemos tantas compositoras – e mesmo as mulheres compositoras são postas em xeque, tipo: ‘será que ela compõe mesmo?’”, diz ela.
Apesar da construção solitária, o disco traz parcerias de caneta da cantora desde Escândalo Íntimo (2023), como Carolzinha; além dos feats de Xamã (em “E Agora”); da porto-riquenha Young Miko em “Safada”; MC Meno K e MC Morena em “Sonhei Contigo”; MC Paiva ZS em “French Kiss” e o colombiano Sebastián Yatra em “Tu Gata”.
O público conheceu primeiro a dançante “Telefone”, a bossa de tons graves “Fruto do Tempo” e o eletrorock de “Loira Gelada” — mas vale mergulhar fundo na mensagem das 23 canções em Brutal Paraíso. Especialmente em vinil, por ser um álbum feito para ouvir na íntegra, sem pressa, apreciando cada detalhe.





