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Do soul ao piseiro, Coala Festival é a celebração da música brasileira


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Carolina Brandão

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Se o clima era de frio e chuva no último final de semana (12 e 13/9) em São Paulo, o Coala Festival usou a música para aquecer o público que encarou as intempéries no Memorial da América Latina. Por lá, passaram aproximadamente 30 mil pessoas, segundo a organização do evento.

Nem o frio, nem a chuva de domingo, no entanto, impediram o público de celebrar a música brasileira e também de estar aberto a conhecer atrações estrangeiras, já que esta edição contou com nomes internacionais. O ponto alto, inclusive, foi o line up: grandes nomes da música se misturaram a novos talentos, mostrando que o Coala segue sabendo combinar para divertir.

Sábado de encontros

No sábado, Zeca Veloso apresentou o espetáculo baseado em seu álbum de estreia Boas Novas (2025), que ganhou edição em vinil pelo Noize Record Club. 

Maquiado como pierrot, o músico subiu ao palco e abriu o show com “Petar Gast”, canção lado B de Caetano Veloso, que ele sempre quis apresentar, como contou à Noize. O músico passou pelas canções do disco — destaque para as ótimas “Salvador” e “Desenho de Animação” — e também explorou canções consagradas nas vozes de outros intérpretes, como é o caso de "Garota de Ipanema" e "Volta Por Cima". O hit “Todo Homem” fechou o show.

Em seguida, foi a vez do encontro entre Cícero e Duda Beat. A dupla, amiga de longa data, apresentou canções dos repertórios dos dois artistas, incluindo a faixa “Sem Dormir”, colaboração entre o carioca e a pernambucana. Canções do álbum mais célebre de Cícero, Canções de Apartamento (2011), também figuraram no set.

O grupo português Buraka Som Sistema, única atração internacional do festival, mostrou que o calor vem de dentro, fazendo o público dançar ao som do kuduro progressivo. Kalaf Epalanga, um dos integrantes da banda e curador da versão portuguesa do festival, fez questão de ressaltar que a banda mistura os tambores de África com os eletrônicos da diáspora”.

Celebrando um encontro já consolidado, também teve Marcos Valle e Ana Frango Elétrico. Eles já se apresentaram juntos algumas vezes, incluindo a última edição das Noites no Memorial, promovida pela organização do Coala. Os dois subiram ao palco com a energia que só eles conseguem proporcionar. Em entrevista à Noize, Valle falou sobre a importância de estar feliz em cima do palco. É nítida a felicidade do músico em dividir o palco com a cantora, que retribui o elogio falando sobre como aprende com o artista.

A noite seguiu e, em um momento em que o frio parecia não importar mais, Emicida assumiu o palco com o show de seu disco mais recente, Emicida Racional VL. 2: Mesmas Cores & Mesmos Valores (2025), acompanhado de uma banda e de seu fiel escudeiro, DJ Nyack. Na noite, ele mostrou por que é um dos maiores rappers do país em uma apresentação que contou ainda com as participações de Jotapê e do grupo de rap Puro Suco.

Por fim, Maria Bethânia encerrou o primeiro dia de festival sem poupar sucessos. Logo de cara, a artista relembrou “Brincar de Viver”, trazendo para si o público que se reunia ali para vê-la.

Outras faixas eternizadas em sua voz como as ótimas “Cheiro de Amor”, “Olha” e “Samba do Grande Amor” também foram parte do repertório. Como já fez algumas vezes em outros espetáculos, a Abelha Rainha encerrou o show com “O Que É O Que É?´”, do parceiro musical e amigo Gonzaguinha.

Pérolas no teatro

Os dois dias de festival guardaram lindas surpresas no Auditório Simón Bolívar. No primeiro dia, Rubel assumiu o palco acompanhado por uma orquestra para celebrar os sucessos da carreira com arranjos diferentes do que estamos acostumados a ouvir.

No domingo foi o dia do tropicalista Tom Zé, prestes a completar 90 anos, de celebrar a própria carreira no palco. O músico passou por ícones de sua trajetória como “Menina, Amanhã De Manhã” e “Augusta”.

Domingo de chuva

O line do domingo foi aberto com a combinação de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro. Os músicos celebraram Handycam (2025), projeto independente de suas respectivas bandas. No fim do show, quando questionados sobre a possibilidade de expandir o álbum, os dois disseram que, na verdade, gostariam de ver outras pessoas cantando as faixas. Parece uma boa ideia.

Na sequência, a rapper Duquesa subiu ao palco para uma apresentação repleta de hits. Algo, no entanto, pareceu incomodar a artista: talvez a falha técnica que a levou a recomeçar a primeira música. Mas nada disso atrapalhou a experiência do show, que só relembrou o motivo de sermos obcecados por ela.

Celebrando os álbuns complementares Um Mar Pra Cada Um, (2025) e Antes Que A Terra Acabe (2025) — ambos lançados pelo NRC e NRC+ em vinil — Luedji Luna levou ao palco uma de suas referências: o grupo Fat Family. As irmãs dominaram o público e deixaram um gosto de quero mais. Vale um show solo em uma próxima edição.

De volta à baiana, Luedji mostrou por que é um dos nomes mais interessantes da música brasileira atualmente: as canções magnéticas do disco ganham ainda mais graça interpretadas ao vivo por ela e a banda.

De neosoul ao piseiro, a atração seguinte foi o carismático João Gomes. Sem muito segredo, o artista apostou em uma apresentação repleta de hits como “Dengo”, “Eu Tenho a Senha” e “Mete Um Block Nele”, o que não é uma dificuldade para ele. Além das músicas que o consagraram, o músico ainda apostou em versões, como uma da canção “A Noite”, de Tiê, e “Como Eu Quero”, do Kid Abelha.

Seu Jorge, então, assumiu o palco em um momento em que a chuva parecia não mais existir. Em pouco tempo, o carioca mostrou que a combinação de talento, carisma e disposição encanta o público em qualquer clima. O artista passou por faixas do álbum Baile à La Baiana (2025), mas não deixou de lado hits como “Quem Não Quer Sou Eu”, “São Gonça”, “Amiga da Minha Mulher”, “Alma de Guerreiro”, “Felicidade” e “Burguesinha”.

Ficou a cargo de Criolo entregar o grand finale. A convite do festival, o músico revisitou seu álbum de estreia, Nó na Orelha, que completou 15 anos em 2026. O público foi arrebatado durante as performances de “Bogotá”, “Subirusdoistiozin” e “Linha de Frente”. Ouso dizer, no entanto, que o disco teria o mesmo impacto se fosse lançado hoje.

As faixas seguem atuais e o público ainda sente cada verso. Ainda nas ondas dos encontros, o festival promoveu mais um: de surpresa, quase no fim do show, Seu Jorge subiu no palco e tocou flauta com o amigo, que declarou sua admiração por ele. 

Pensando bem, talvez uma coisa pudesse ser diferente: seja pela música ou pelos artistas, a edição do Coala Festival de 2026 mostrou que existe, sim, amor em SP.

Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Carolina Brandão

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