
“Ninguém mandava em mim com 20 anos. Aos 70, ninguém vai me dizer o que fazer", diz Marina Lima. Com mais de 40 anos de carreira, e duas dezenas de discos lançados, ela apresentou um novo capítulo nesta semana com Ópera Grunkie, que conta com 12 faixas em pouco mais de 30 minutos. A ópera pop se divide em três atos, sendo um deles dedicado ao irmão, Antonio Cicero, falecido em 2024.
Elaborado no último ano, o álbum fala do luto, mas não se limita a ele: “Eu tinha muita coisa pra falar. A partida do Cicero não podia passar em branco. A forma como ele foi embora me deu ainda mais admiração e orgulho por ele".
O tema é abordado em “Perda”, uma colagem de trechos de poemas declamados por Eduardo Giannetti e Antônio Carlos Secchin – imortais da ABL, como Antonio Cicero – e o filósofo Fernando Muniz.
Conduzido pelo som do piano, a música cresce conforme as vozes se sucedem: “Eram palavras aladas e faladas não para ficar, mas, encantadas, voar”, de “Palavras aladas". E, por fim, Marina Lima encerra com “Vida, valeu. Não te repetirei jamais", do poema “Valeu". A faixa seguinte, a inédita “Meu Poeta", se inicia com uma declaração: “eu compreendi você, vou te amar eternamente".
A ópera pop é dedicada ao irmão, mas também aos grunkies, palavra usada pela artista para designar a comunidade de “pessoas livres”, a turma que a acompanha desde a estreia no disco Simples Como o Fogo (1979). “São pessoas que parecem comigo, que pensam como eu e que querem fazer a diferença no mundo. Não importa se você tem 20, 30 ou 60 anos, a vida é um desafio constante. Você não cresce no conforto, você evolui tentando melhorar e progride com os erros", reflete a compositora.
"A vida inteira você vai procurando seu grupo, mas você sabe, não é só no Brasil, o mundo todo está muito esquisito, o mundo está muito conservador e os grunkies, as pessoas livres, elas querem viver, elas não ficam preocupadas com o poder, mas os conservadores estão. O meu negócio não é política, é arte".
O trabalho foi criado com os músicos que a acompanharam nos últimos anos, tem coprodução de Arthur Kunz, Edu Martins e Thiago Vivas, além de participações de Adriana Calcanhotto, Ana Frango Elétrico e Laura Diaz, do Teto Preto. Há também um áudio de Fernanda Montenegro em “Collab Grunkie".
Sonoramente, algumas faixas bebem do house (“Partiu"), reggaeton (“Olívia") e samba (“Samba pra diversidade"), adicione a essa mistura o pop rock que a consagrou na década de 1980 – “Um dia na vida” e “Só Que Não".
“Quis contar as coisas que tenho vivido ultimamente. Não dá pra levar tudo o tempo inteiro, o HD não segura isso. Então, guardo o que importa, o que é essencial para desfrutar a nova etapa, o que ainda é desconhecido. A idade é muito interessante porque ela aprofunda as coisas. Há menos tempo, mas há mais profundidade. Com 70 anos, sei o que passei, o que não quero mais, o que abri mão e o que ainda insisto. Então esse disco tem musicalmente o meu universo e os assuntos que são relevantes pra mim".
Como explicou na audição no escritório do Spotify Brasil, Ópera Grunkie não é uma sequência de singles, ele foi feito para contar uma história do início ao fim. “Não é um disco comum. A ideia da ópera torna a história mais compreensível. Começo convidando a ir à luta, chega a parte do Cicero, desgasto esse assunto e depois é uma página virada. Encerro com o convite: vamos viver?", comenta a compositora.
Como produtora musical e musicista, Marina Lima enxerga a diversidade de ritmos, climas e assuntos como uma das forças do álbum. Afinal, música é o tipo de linguagem em que você não precisa ser fluente para ser arrebatado: “Você não precisa entender a letra para gostar de uma música. O meu trabalho é pop, gosto de misturar tudo que é interessante para mim. Criar canções é a minha praia. Essencialmente, sou compositora, então tudo que me atrai, tudo que vale a pena virar canção, eu faço".
No futuro se imagina compondo a trilha sonora de um filme, pois se vê na aurora da vida. Aos 70 anos, continua curiosa e interessada pelo novo, pela música sendo produzida pelas novas gerações, por pessoas que cresceram ouvindo Marina Lima.
“Quero me preparar para chegar aos 80 ativa e gostando do mundo e da vida. A única razão pela qual permaneci assim é porque amo música e acredito na liberdade. Acredito que a música é uma força muito importante para ajudar as pessoas a pensarem e a se libertarem. Enquanto estiver me sentindo inteira e forte, vou ser livre e apontar caminhos. ‘Venham comigo'?".
Turnê Ópera Grunkie
28/3 - Araújo Viana - Porto Alegre (Ingressos)
25/4 - Fundição Progresso - Rio de Janeiro (Ingressos)
8 e 9/5 - Casa Natura Musical - São Paulo (Ingressos)
26/7 - Festival de Inverno - Rio de Janeiro (Ingressos)
20/9 - Concha Acústica - Salvador (Ingressos)














