
O duo Coisa Nossa celebra a arte do encontro — mais especificamente, do encontro musical entre João Mantuano e RAYA. Ele, vindo de outro encontro, com Chico Chico, no álbum que leva o nome dos dois e concorreu ao Grammy Latino. Ela, após lançar o álbum Tô (2022), estava compondo nos bastidores para espetáculos teatrais. Suas letras foram parar na boca de gente como Ney Matogrosso.
A mistura de ritmos, como o samba de roda, a MPB de um Novos Baianos e até uma pitada de folk de Simon and Garfunkel, deu liga. Logo compuseram dezenas de canções, que viraram um álbum homônimo neste ano, lançado pela Toca Discos em parceria com a Universal Music. O álbum tem produção assinada por Felipe Rodarte, Constança Scofield e Álvaro Alencar, trinca que conduz hoje o estúdio fundado pelo lendário Tom Capone.
Recentemente, o clipe de "Coisa Nossa" veio para coroar essa parceria:
João comenta sobre a inspiração para o vídeo, dirigido por Dudu Mafra e Mateus Lana: "O audiovisual tem, por sua natureza ilusionista, a capacidade de nos fazer observar a vida de forma a apreciar a metalinguística, as figuras de linguagem e representações, ampliando nossas percepções imediatas sobre o que seriam "coisas nossas”. Também trouxemos um pouco da nossa intimidade na bagagem, assim como quando apresentamos nossas canções nos palcos de diversos biomas do Brasil."
Leia Coisa Nossa faixa a faixa:
"Coisa Nossa"
Raya: É a música que recebe o nome do projeto. Nosso samba! Ela fala da força do coletivo, do desejo e da potência de fazer coro! Coisa nossa, enquanto conceito, é isso. Começa na intimidade da casa, do indivíduo, de uma relação, com o desejo de se multiplicar e crescer pro mundo. Essa música tem essa energia!
João Mantuano: Fala sobre o íntimo do dia a dia do brasileiro — nossas coisas, jeitos, afetos e manias. A canção vai do sofá de casa à boca do povo, convidando o público a cantar um refrão que é nosso, coletivo, familiar.
"Diferentes Semelhanças":
João Mantuano: Retrato da convivência íntima, essa faixa mergulha nas singularidades que se unem em comunhão. Fala das “diferentes semelhanças”, dessas simetrias não idênticas que nos tornam únicos. Como dois lados de um rosto, ou galhos de uma árvore, há beleza em se reconhecer no outro mesmo sendo diferente. É um apelo à aceitação das naturalidades do parceiro em meio aos altos e baixos da relação. A vida é cheia de entrelinhas — mas tudo é o que é, e se basta.
RAYA: Diferentes semelhanças foi a primeira canção que fizemos. Acho que foi um prenúncio do que somos enquanto dupla. Duas pessoas com muitas diferenças que se complementam e se respeitam. Essa é a natureza de todo indivíduo: sua autenticidade e identidade única somadas com a necessidade de estar em coletivo, de se identificar e se enxergar no outro. A beleza do encontro, para mim, reside nessa característica. Saber que nada é igual, que as coisas estão o tempo todo em transformação, no tempo e na forma. Como um rio, como um sorriso, como a própria luz.
"Ouro":
RAYA: A canção ouro nasce como um manifesto. Num tom mais sarcástico, a gente narra a trajetória de um violeiro e todos os percalços que ele encontra no caminho de forma bastante lúdica e surrealista. É uma metáfora, um paralelo, com a vida de um artista que se depara, em seu percurso, com muitas crises e inversões de valores éticos, morais e sociais. Mistura Mutantes com Simon and Garfunkel. É o nosso rock!
João Mantuano: A música traz uma crítica à supervalorização de bens materiais em detrimento das pessoas. Em paralelo, fala da violência que assola a sociedade — e de como a cultura, a arte e o artista que denunciam essas contradições costumam ser silenciados. A poesia, muitas vezes, é assassinada no meio-fio das periferias. Nessa rua onde o artista caminha em busca de inspiração, encontra-se também a figura da morte e do “cão rubro” que o persegue. Um retrato da missão do poeta e de seus inevitáveis enfrentamentos.
"Arrebol"
RAYA: apesar de ser cantada por João, é uma música que fizemos juntos. João fez a melodia e fizemos a letra juntos. Foi orgânica a decisão de ser cantada só por ele, apesar de não termos pensado nisso ao escrever. Sinto que se conecta muito com a energia dele.
"Rouxinol"
RAYA: essa canção segue o mesmo percurso de arrebol. Dessa vez eu fiz a melodia e fizemos a letra juntos. Foi feita por nós dois, apesar de ser cantada só por mim. É uma canção de amor, bastante emocional. Não necessariamente carnal. É uma ode a todo tipo e forma de amor. Quando olhamos a vida através dessa lente, as coisas parecem se encaixar melhor, como uma paisagem viva de som, de luz, de cheiro. Toda vez que canto, me sinto emocionada porque me atravesso de formas diferentes. É um lembrete para mim.
"Cidade Alta"
João Mantuano: Uma celebração aos encontros espontâneos da vida e às surpresas que vêm com o inesperado. Leve, lúdica e descomprometida, a faixa é também uma homenagem ao bairro de Santa Teresa, onde cresci e conservo amizades e memórias.
RAYA: Cidade alta foi a segunda música que fizemos. É uma poesia que retrata o cotidiano e a geografia do bairro de santa Teresa, local onde mora João. Lá é fácil sair sem destino e compromisso com a certeza de que irá encontrar algum conhecido. Lá também tem essa característica de ser um bairro alto, na montanha, onde o céu beija o asfalto.
"Love Livre"
João Mantuano: Carnavalesca e vibrante, essa música retrata a vivência do folião em meio ao carnaval: as sensações, danças, marchinhas, trios elétricos e blocos. Um mergulho sensorial na alegria coletiva e na liberdade dos corpos em festa.
RAYA: É uma marchinha de carnaval, retrato das ruas do Río de Janeiro nessa época do ano. Quem viveu, sabe, risos. Mas essa poesia carrega dentro dela esse caos gostoso, a liberdade, as músicas vindas dos blocos, a fantasia, o desejo, a libido, os encontros.
"Mata Escura"
João Mantuano: Aqui, seguimos celebrando os encontros e as novas possibilidades que se abrem. A música fala sobre a grandeza da natureza e da vida, sobre novos horizontes e amores. Um encerramento de ciclos antigos e o início de outros, sempre em movimento, sempre em frente.
RAYA: é uma canção de esperança. A crença no novo, no olhar puro de uma criança, na potência do coletivo. Uma coisa interessante da nossa poesia, de modo geral, é essa conexão que a gente faz com a natureza que é esse lugar onde encontramos a essência - o que é essencial - da vida. Creio que nela moram as respostas mais complexas e ao mesmo tempo mais simples da vida.
"Pétala Branca:
RAYA: frágil e delicada como uma pétala mesmo. Faz essa analogia muito singela com a experiência do amor. Nessa música, o vazio e as pausas são fundamentais, como na vida. Foi difícil para caramba de gravar e encontrar as medidas, o lugar de interpretação, porque qualquer excesso nela, grita alto. É preciso saber dosar e isso não é só sobre a música mais.
João Mantuano: Uma das faixas mais delicadas do disco. “Pétala Branca” contrapõe suavidade e imponência — a leveza de uma flor diante da imensidão do mar, do sol e do futuro incerto. Dois lados da mesma existência: o frágil e o grandioso que compõem nossa jornada no mundo.
"Aqui Eu Permaneço"
João Mantuano: Homenagem à resistência cultural da América Latina. A faixa celebra a permanência da nossa diversidade poética e musical frente ao imperialismo artístico. Em diálogo com a clássica “Vou Me Embora, Vou Me Embora”, de Paulo Diniz, fazemos aqui uma resposta: mesmo exaustos, seguimos — e permanecemos.
RAYA: essa música começou a ser feita logo após eu escutar uma releitura do Zé Ibarra, da canção “vou me embora”, composição de Paulo Diniz. Eu fiz a melodia e convidei o João para gente fazer essa brincadeira com a letra, como uma resposta. Então a canção fala sobre o desejo de permanecer, de se conectar com a própria raíz, com a América Latina.
"Se For Cantar Por Amor"
João Mantuano: Encerrando o álbum (e também o show), essa faixa — feita em parceria com Sal Pessoa — é um convite ao canto coletivo. Exalta o amor, a amizade e a beleza de seguir junto, com o coração aberto. Uma canção para ser entoada em coro, olhando para o futuro com esperança.
RAYA: essa música é uma parceria do João com o Sal Pessoa, um músico e poeta amigo. Tem uma melodia que se repete como um mantra, abrindo cada estrofe com a frase “se for cantar por amor, se for cantar por quem amo”. Essa é uma música que a gente gosta de ensinar nos shows paras pessoas irem embora cantando junto.






