A cada edição do Oscar, a categoria musical se apresenta como um reflexo do momento da indústria cinematográfica: tradição versus inovação, a academia se equilibrando entre nomes consagrados e apostas frescas.
A trilha de ‘Ainda Estou Aqui’ é um capítulo à parte; veja as músicas do filme
Em 2025, a disputa por Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora Original carrega essa dicotomia de forma emblemática. Da grandiosidade do controverso Emilia Pérez ao magnetismo pop de Elton John: Never Too Late, passando pela energia folk-soul de Sing Sing, a seleção deste ano é um caleidoscópio de estilos, intenções e legados.
Melhor Canção Original
A presença de “El Mal” e “Mi Camino”, ambas de Emilia Pérez, mostra como o longa de Jacques Audiard conseguiu atravessar o mainstream e garantir espaço na premiação com sua abordagem ousada. Os franceses Clément Ducol e Camille, responsáveis pela composição e letras, fazem história ao emplacarem duas músicas na competição, um feito que não se via desde La La Land (2017). “El Mal”, interpretada por Zoe Saldaña, surge como um momento de epifania do filme, enquanto “Mi Camino” ganha contornos sensuais na voz de Selena Gomez, revelando um viés mais introspectivo da personagem.
Diane Warren, a grande dama das canções de cinema, bate mais um recorde com sua 16ª indicação ao Oscar, agora por “The Journey” (do drama histórico The Six Triple Eight). A balada interpretada por H.E.R. tem todos os elementos clássicos de Warren — estrutura emocionalmente crescente, letra inspiradora e execução impecável. Mas será suficiente para lhe dar a estatueta inédita?
Outro destaque é “Like a Bird”, de Sing Sing, assinada por Abraham Alexander e Adrian Quesada (Black Pumas). A música resgata uma estética folk-soul próxima à de Richie Havens, com um groove delicado e melancólico, embalando a história real de presos que encontraram redenção no teatro. A indicação também coroa a trajetória de Quesada, que já teve sete nomeações ao Grammy, mas nunca ao Oscar.
Por fim, Elton John e Bernie Taupin com “Never Too Late”, tema do documentário Elton John: Never Too Late. Co-escrita por Brandi Carlile e Andrew Watt, a canção se insere na tradição das grandes baladas do britânico, mantendo sua essência pop dramática. Elton John nunca perdeu um Oscar quando indicado, mas, desta vez, enfrenta um campo competitivo feroz.
Onde assistir
“El Mal”, de Emilia Pérez (em cartaz nos cinemas)
“The Journey”, de The Six Triple Eight (Netflix)
“Like a Bird”, de Sing Sing (em cartaz nos cinemas)
“Mi Camino”, de Emilia Pérez (em cartaz nos cinemas)
“Never Too Late”, de Elton John: Never Too Late (Disney+)
Melhor Trilha Sonora Original
Na categoria de Melhor Trilha Sonora Original, O Brutalista, de Daniel Blumberg, desponta como o favorito, não apenas pelo peso narrativo do filme de Brady Corbet, mas também pelo conceito musical do compositor. Blumberg construiu uma paisagem sonora que simula a estética do brutalismo na arquitetura, apostando em “blocos sonoros” densos e sobrepostos.
O alemão Volker Bertelmann, vencedor do Oscar em 2023 por Nada de Novo no Front, retorna com Conclave, um thriller político ambientado no Vaticano. Sua trilha equilibra tensão e espiritualidade, oscilando entre peças sacras e passagens eletronicamente manipuladas.
Emilia Pérez também emplaca sua trilha composta por Clément Ducol e Camille, confirmando o peso musical do filme. A dupla tem o desafio de equilibrar uma estrutura de musical operístico com momentos de silêncio e intensidade narrativa, criando uma trilha que se mescla organicamente com as canções originais do longa.
No espectro mais mainstream, Wicked, de John Powell e Stephen Schwartz, aproveita a força da adaptação do musical da Broadway e pode surpreender. A nova roupagem dada a “Defying Gravity” é um dos trunfos que podem pesar na votação.
Por fim, Robô Selvagem, trilha de Kris Bowers, carrega um lirismo delicado que dialoga com o desenvolvimento da protagonista robô em sua jornada de autodescoberta. Bowers, indicado ao Oscar pela primeira vez como compositor de longa-metragem, vem se consolidando como um dos principais nomes da nova geração da música de cinema.
Onde assistir
O Brutalista, trilha de Daniel Blumberg (em cartaz nos cinemas a partir de 20 de fevereiro)
Conclave, trilha de Volker Bertelmann (em cartaz nos cinemas)
Wicked, trilha de John Powell e Stephen Schwartz (disponível para compra na Apple TV+ e Amazon Prime Video)
Robô Selvagem, trilha de Kris Bowers (disponível para aluguel na Apple TV+ e Amazon Prime Video)
Emilia Pérez, trilha de Clément Ducol e Camille (em cartaz nos cinemas)
Quem leva?
A categoria musical do Oscar 2025 é um verdadeiro jogo de forças entre histórias pessoais e estéticas sonoras distintas. Enquanto filmes O Brutalista e Emilia Pérez dominam a corrida, músicos veteranos como Diane Warren e Elton John tentam cravar seu espaço no pódio. No fim das contas, a Academia terá que decidir entre a segurança do clássico e o fascínio pelo novo.