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Apostando no crescimento do vinil, selos musicais brasileiros investem na prensagem de LPs


Por:

Vitória Prates

Fotos: Davi Rocha, Vanessa Pessoa

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Em um mercado dominado pelos algoritmos e pela velocidade do streaming, alguns selos brasileiros seguem apostando em uma outra experiência: transformar a música em objeto físico, apostando também em lançamentos em vinil. “Parar em frente ao toca-discos, sentar e ouvir um álbum completo é uma experiência completa”, resume Edimar Lima, fundador da Wakati Produções.

Mais do que nostalgia, o vinil é um espaço de curadoria e, principalmente, um mercado em expansão. A América Latina manteve sua trajetória de crescimento de dois dígitos em 2025, registrando alta de 17,1% no ano — o que marcou o 16º ano consecutivo de crescimento na região. E quem despontou neste cenário foi o Brasil. O país teve um aumento de 14% no último ano, o que nos leva à 8ª posição do ranking mundial, aponta a Pró-Music.

Abaixo, conheça oito selos brasileiros que também lançam discos de vinil:

Wakati

Baseada em Fortaleza, a Wakati faz parte de uma nova geração de selos impulsionada pela retomada do vinil no Brasil. Nos últimos anos, o crescimento do formato abriu espaço para projetos independentes espalhados por diferentes regiões do país.

A Wakati nasceu oficialmente em 2022, mas o sonho começou muito antes, ainda na infância de Edimar: “Os discos eram meus brinquedos”, brinca. O selo surgiu com a proposta de lançar em vinil artistas brasileiros contemporâneos — especialmente negros e nordestinos — que ainda não tinham trabalhos físicos. Hoje, nomes como Melly, Tuyo, Jaloo e ÀVUÀ fazem parte do catálogo.

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Taioba Music

Embora o mercado siga concentrado no eixo Rio-São Paulo, muitos dos selos mais interessantes da nova geração surgem justamente fora dele. Em João Pessoa, a Taioba Music nasceu como um braço da loja Taioba Discos com a missão de colocar a música paraibana no mapa da produção fonográfica nacional. 

Em pouco mais de um ano, já lançou dez títulos, incluindo trabalhos de Papangu, Seu Pereira, Coletivo 401 e Cabruêra. “A gente sempre acreditou que a produção musical da Paraíba tinha enorme potencial”, comenta Sergio Pacheco, fundador do selo. Para Sergio, a força da Taioba está justamente na proximidade com os músicos e na relação afetiva construída com os projetos. “São discos e artistas que acompanhamos há muito tempo, muitos deles amigos”, explica. “Queríamos ver esses trabalhos ganhando o vinil”.

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Limaia Discos

Em Aracaju, Julio Andrade encontrou no vinil uma forma de continuar vivendo de música em um dos momentos mais incertos da sua trajetória. Músico há mais de 25 anos e fundador da banda sergipana The Baggios, ele já lançava discos em LP desde 2013, mas foi durante a pandemia, com a paralisação dos shows, que decidiu criar a Limaia Discos. 

“Acabei criando o selo para ter onde lançar e vender o disco”, relembra. Julio reinvestiu o lucro comprando títulos de outros selos independentes para abastecer a loja. Aos poucos, o projeto cresceu e passou a lançar artistas nordestinos e discos raros que ele próprio sonhava em ver no formato. “Eu tinha discos que procurava há anos e não encontrava em lugar nenhum”, conta Julio. “Poder ajudar esses álbuns a voltarem para o catálogo foi uma das maiores realizações que tive com o selo.”

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Amplifika

Em Belo Horizonte, Túlio Gontijo transformou a experiência trabalhando na loja Acústica CDs em combustível para criar a Amplifika. O selo nasceu ao lado de André Amorim, com foco em hip hop, reggae e música eletrônica. O primeiro lançamento foi Resenha (2024), do Vhoor. Das 300 cópias, 80 foram vendidas em apenas 24 horas. 

Desde então, a Amplifika vem apostando em artistas conectados à cultura underground e em projetos que transitam entre diferentes gêneros musicais. Entre os principais lançamentos do selo está Deekapz FM (2025), primeiro álbum dos Deekapz, com participações de Criolo e Fat Family. Para Túlio, o crescimento do vinil também aponta para o fortalecimento de cenas locais fora do eixo tradicional. “Acredito que vão nascer muitos selos regionais no Brasil, fomentando artistas locais”, afirma. “É um movimento que vai além do colecionismo e acaba criando toda uma cultura em volta do disco.” 

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Maleta Discos

A lógica regional também aparece na Maleta Discos. Fundada em Porto Alegre inicialmente como loja de discos, a marca virou selo em 2023 apostando principalmente na cena gaúcha de rock. “Percebemos que existia espaço para lançar bandas de que sempre gostamos e acompanhamos”, explica Fernando Soares. O catálogo inclui nomes como Cachorro Grande, Os Replicantes, Ian Ramil e Esteban Tavares.

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Romaria Discos

Boa parte dos novos selos brasileiros surgiu pelas mãos de colecionadores. Antes de entrar no meio, Nicholas Lopes trabalhava com contabilidade e vendia discos da própria coleção para financiar novas compras. O hobby cresceu tanto que acabou virando profissão.

Hoje, a Romaria Discos — criada em homenagem à música “Romaria”, d’Os Tincoãs — soma mais de 70 lançamentos, sendo Mormaço Queima (2022), de Ana Frango Elétrico, o primeiro. “Gosto do ritual que o vinil exige para ouvir música”, comenta Nicholas. “Cada LP valoriza o projeto gráfico de um jeito que nenhuma outra mídia consegue.” A curadoria hoje passeia por diferentes cenas da música brasileira contemporânea, reunindo nomes como Slipmami, Julia Mestre, Gilsons, Fresno e Letrux.

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Vinyl Land

A Vinyl Land surgiu em um momento em que apostar no vinil no Brasil parecia quase improvável. O selo foi criado por Luiz Valente em 2008, em Londres, antes mesmo da retomada das fábricas brasileiras — a Polysom ainda não havia reaberto as portas. 

DJ e pesquisador apaixonado por música brasileira contemporânea, Luiz sentia falta de discos novos para tocar em suas festas. “Eu queria discotecar música brasileira atual em vinil, mas esses discos simplesmente não existiam”, relembra. Na época, praticamente não havia selos especializados no formato e poucos artistas contemporâneos prensavam seus trabalhos em LP. Foi dessa ausência que nasceu a ideia da Vinyl Land: lançar artistas brasileiros contemporâneos em vinil quando o mercado ainda ensaiava sua retomada. 

Até 2012, o selo operou diretamente da capital inglesa, conectando a cena brasileira ao público europeu interessado em música nacional. Hoje, a curadoria segue focada principalmente em lançamentos contemporâneos com forte diálogo com a pista e a cultura DJ, especialmente ligados à cena de Belo Horizonte, cidade natal de Luiz. Para ele, o crescimento do formato nos últimos anos mostra que o vinil deixou de ser apenas nostalgia e voltou a ocupar um espaço importante dentro do consumo musical.

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Amor in Sound

Se alguns selos nasceram do colecionismo, outros surgiram da convivência entre artistas. Foi o caso da Amor in Sound, criada por Samantha Caldato e Mario Caldato Jr. A dupla percebeu que já possuía tudo o que precisava para lançar música independentemente: estúdio, amizades e uma rede de artistas próximos.

“Era frustrante ver projetos de amigos indo para outras gravadoras por falta de verba”, comenta Samantha. A virada aconteceu em uma conversa com Seu Jorge, amigo antigo da época do Planet Hemp. O selo nasceu com espírito totalmente artesanal e até hoje funciona a partir de um estúdio montado dentro da cozinha da casa da dupla. “Tem a dimensão do objeto, da agulha, da capa, do ritual de ouvir o álbum inteiro”, diz Samantha sobre o vinil. “É uma outra experiência.”

Apesar do crescimento, produzir vinil no Brasil ainda envolve desafios importantes. Os entrevistados citam constantemente os altos custos de fabricação, os longos prazos das fábricas nacionais, dificuldades de licenciamento e o valor final dos discos. Ainda assim, todos enxergam o futuro do formato com otimismo. “Estamos numa era cada vez mais digital”, afirma Edimar Lima. “O vinil oferece justamente o contrário disso: tempo, atenção e experiência.”

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Vitória Prates

Fotos: Davi Rocha, Vanessa Pessoa

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