
O nordeste sempre foi uma potência artística e um verdadeiro celeiro de craques que redefiniram as fronteiras da arte brasileira. Em 2026, isso não é diferente. Coube a uma banda de João Pessoa a difícil missão de recolocar o rock progressivo brasileiro no mapa novamente, descentralizando a lógica do eixo Rio-São Paulo: o Papangu.
Manter uma agenda sustentável e atrair público fora dos grandes centros já é um desafio logístico imenso. No entanto, o grupo foi além e conquistou espaço internacional, carimbando passagens pelas edições de 2025 e 2026 do prestigiado festival ArcTangent, no Reino Unido, além de angariar elogios em veículos como o The Guardian. Esse processo de internacionalização corre em paralelo com o fortalecimento no Brasil, resultando em lançamentos em vinil pela nacional Taioba Discos e pela britânica Repose Records, além de apresentações nas edições brasileiras do Lollapalooza e o Knotfestival.
Com uma linguagem e identidade musical únicas, o grupo reúne suas influências regionais nordestinas (como forró, ciranda e baião, por exemplo), num repertório que também aponta para outras estéticas, como o jazz, sludge, death metal, black metal (com excelentes vocais guturais em alguns momentos) e o zeuhl, que vem do idioma kobaïan (uma língua fictícia criada pelo baterista e líder do Magma, Christian Vander) e significa "celestial”. O Zeuhl é um híbrido entre o progressivo, jazz, música sinfônica, erudita e de vanguarda.
E ainda que isso tenha ocorrido de forma acidental (pouquíssimo provável), o terceiro disco da banda chama-se justamente “Celestial” . Com lançamento via Deck, a banda entrega um registro com o esmero praticamente artesanal, mantendo o alto nível dos lançamentos anteriores e de forma analógica.
Celestial foi gravado e mixado em fita magnética e masterizado no renomado Emil Berliner Studios. Gravada em grande parte ao vivo em estúdio ao longo de nove dias, a segunda colaboração da banda com o produtor Richard Behrens (Elder, Kadavar, Earth Tongue) utiliza o puro suco do groove secentista e setentista, desde instrumentos vintage até equipamentos de gravação lendários das décadas de 1960 e 1970, para lançar um dos melhores discos nacionais de 2026.
Celestial
O novo trabalho continua essa saga de discos conceituais com um lançamento dividido em dez partes, criando um tear sonoro cada vez mais sólido e inexorável, fruto dos últimos anos de turnês incessantes e de uma filosofia musical partilhada pelos integrantes da banda de Rock Troncho (alcunha criada por eles próprios), para se referir a um conjunto que consegue colocar o Hermeto Pascoal e o Magma pra conversar no mesmo botequim.
Com letras muito bem construídas e que lembram a literatura de cordel, a Papangú surpreendeu novamente. A Noize trocou uma ideia com a agremiação de cangaceiros para esmiuçar esse contundente registro.
Queria que vocês comentassem o crescimento da banda desde o primeiro disco e como as mudanças estruturais guiaram a construção de uma sonoridade cada vez mais própria.
Rodolfo: A primeira mudança ocorre já na própria gravação do Holoceno, cuja bateria é gravada por um grande músico convidado, o norueguês Torstein Lofthus. Ao ganhar os palcos do Brasil, a Papangu se viu com três membros novos que reinterpretariam aquelas gravações, bem como membros à distância coordenando o processo criativo, administrativo e logístico. Essa flexibilidade foi vital para que as vivências fossem compartilhadas e dois mundos se encontrassem: aquele da experiência ao vivo e o outro da repercussão do disco de metal.
Sobre a sonoridade, ela é influenciada por fatores planejados e também incidentais. Sempre estamos muito abertos à experimentação e gostamos de nos aprofundar nos ritmos, temas e conceitos que desenvolvemos, mas muitas vezes também nos rendemos às condições de tempo, espaço e logística que circulam cada gravação. Encaramos cada registro como um retrato da ocasião, e mesmo os shows carregam muito o peso de fazer com que cada música evolua após o lançamento.
Quanto ao tempo gestacional até o nascimento de Holoceno, é importante entender que a primeira fase da banda era um período de aprendizado musical e amadurecimento que ainda não vislumbrava tamanha repercussão. Por exemplo, a banda carregava menos de dez shows entre o nascimento e o lançamento do Holoceno. Em retrospecto, e sendo um membro que entrou em 2022, vejo que Marco carrega uma grande responsabilidade por ter mantido o projeto vivo mesmo após um período gestacional tão longo.
Marco: Como temos caminhos bem distintos entre os membros da banda, a mistura nunca é homogênea, e ajuda a compor o caldo musical poliestilístico. Acho que a experiência de estrada e de estúdio de gravação tem nos ajudado a cristalizar algo do “som da Papangu”, que se confirma a cada som novo, mas também tem nos dado a liberdade de experimentar com diferentes técnicas composicionais, improvisação, e outros artifícios da performance, e a mudança será sempre uma constante.
"A jornada que a Papangu percorre vem primeiro de um grupo de amigos que compartilham do apreço por música pesada fora da caixa, que aprendem a tocar em conjunto no estúdio de ensaio e a dominar técnicas de produção musical, e que depois precisam se adequar a uma demanda intensa de shows com a adição de novos membros."
Após dois discos, vocês entram em estúdio sabendo a sonoridade que querem alcançar. Como o processo de gravação analógico ajudou vocês a externalizar essa sonoridade sem perder o esmero quase artesanal que faz parte de tudo o que a banda lançou até então?
Pedro: Foi um processo interessante, porém um verdadeiro desafio. A decisão influenciou bastante a gravação, pois escolhemos um processo em que não há maquiagem, então esse senso de urgência faz parte do disco. Estou bastante satisfeito com o resultado, acho que está entre os melhores, senão o melhor trabalho em que já participei. Nos entregamos de corpo e alma para esse som, que é composto por múltiplas camadas de referências nossas.
A gente já gosta muito de estar em estúdio, então essa não foi a parte difícil. Na verdade, gravar em fita foi uma das partes mais prazerosas. Se fosse possível, eu só gravaria assim. A fita obriga você a tomar decisões antes e seguir com elas até o fim.

O primeiro disco da Papangu tem uma veia stoner/sludge mais pronunciada. No Lampião Rei e no Celestial, há muita nitidez e brilho para a abordagem de engenharia sonora. Isso resulta num disco de audição muito clara e cristalina. Queria que vocês comentassem sobre os desafios de manejar a engenharia de áudio nos seus discos.
Rodolfo: Há uma relação sinestésica entre capa, temas, letras e tracklist que também influencia a nossa percepção auditiva. Músicas como "Boitatá" e "Oferenda no Alguidar", bem como os trechos mais densos de "Rito de Coroação", "Ruínas" e o solo de "Acende a Luz," todas do Lampião Rei, dificilmente são “nítidas”, “claras” ou “cristalinas".
O que há é uma nova paleta de cores, sons e composições — novas inspirações musicais, que fogem ao metal progressivo tradicional.
Marco: Além da bagagem musical crescente, existe a realidade esmagadora do orçamento. Holoceno foi majoritariamente um disco gravado no quarto, com poucas bases gravadas em estúdio. Esse aspecto caseiro não foi por escolha estética, mas se deve à falta de capital e de know-how técnico, pois assumi a produção sem qualquer experiência prévia.
Agora que temos mais membros com experiência e que também aprendemos mais sobre produção, e que tivemos engenheiros de carreira assumindo a batuta técnica, Lampião Rei e Celestial conseguem representar suas sonoridades com mais clareza.
Queria que vocês comentassem sobre o trabalho maravilhoso feito pela Juliana Lapa, tanto para as capas dos singles desse novo projeto como para a capa desse novo disco.
Pedro: Foi a primeira vez em que tive contato diretamente com ela, indo visitar seu estúdio, conversando, fazendo parte daquilo. Então, foi um processo único e enriquecedor. Juliana é uma artista maravilhosa que tem um mundo próprio em sua arte. Ela abriu suas portas para receber nosso som e nós fomos premiados com uma visita a este seu universo. Quando vimos a capa de Celestial pronta, tivemos uma sensação parecida de quando ela ouviu a música, pois aquilo nos inspirou de volta. Poderíamos compor um outro álbum só a partir da arte agora, porque quando a imagem encontra o som, cria essa espécie de portal no espaço e tempo.
Rodolfo: Como uma fada que deixa pó mágico por onde passa, Juliana pinta o caminho que trilha. Com pincel, lápis, tinta, dedos, raspador ou literalmente qualquer objeto ao alcance da mão, a artista tocava o painel ainda vivo da capa de Celestial e moldava raios de sol, rostos e ruínas. Descrever o que ela fez como nada menos que "magia" seria injusto.

Vocês cantam em português e isso é bem interessante, pois apesar da barreira do idioma, a Papangu foi bem recebida fora do Brasil. Queria que vocês comentassem sobre essa escolha, pois muitas bandas nacionais optam por cantar em inglês sob uma falsa ótica de conexão com o mercado internacional.
"A maioria do público estrangeiro (especialmente o anglófono) prefere a autenticidade de quem canta em seu próprio idioma. Vemos isso não apenas como um detalhe, mas como uma característica definidora do que fazemos."
Rodolfo: Exceções como Angra e Sepultura reforçam a regra. A primeira, embora tenha incorporado inspirações da música brasileira em Holy Land [disco de 1996], abraçou integralmente um gênero musical calcado na tradição europeia, seja na interpretação, na execução, na imagética ou na sonoridade e, com uma maestria técnica muito acima da média, conseguiu superar as bandas gringas em seu próprio terreno. A segunda cantou em inglês da mesma forma que Caetano Veloso cantou em Transa (1972): com autenticidade, sotaque original, estruturas influenciadas pelo idioma materno e um DNA puramente brasileiro.
Muitos olham para esses dois exemplos como modelos a serem seguidos, mas eu os vejo como exceções que confirmam a regra: é preciso fazer o que eles fazem lá fora melhor do que eles; ou é preciso desenvolver uma linguagem própria; ou ainda, é preciso ser um canal direto de expressão das próprias ideias musicais, com pouca ou nenhuma interferência da indústria ou do público, vide Hermeto Pascoal.
Em 2025, vocês lançaram o EP Sol Ruir, que trabalha esse conceito de "música de videogame".Vocês pretendem expandir essa ideia pra talvez um álbum cheio?
Rodolfo: Sobre novos projetos atípicos, temos, sim, alguns! Há gravações prontas, já que podem ganhar versões em mídia física ou digital em breve. Quanto às músicas de videogame, são grande inspiração para nós e mesmo no Celestial já conseguimos identificar trechos e inspirações vizinhas. A própria abertura da música "Celeste" remete às telas de abertura dos jogos da Square Enix e Nintendo.
Quais são os desafios e as dificuldades pra furar a bolha, principalmente no Sudeste? Pergunto, pois o processo de internacionalização da banda parece ter sido mais natural e menos complexo do que quebrar a lógica do mercado local.
Marco: O processo de reconhecimento da Papangu foi um tanto cômico.
Como não tocávamos shows com frequência antes de lançar o Holoceno, o disco não chamou a atenção da mídia brasileira ou da blogosfera alternativa nacional nas primeiras semanas do lançamento, que é normalmente o momento essencial para a repercussão. Nossa sorte foi que usuários de sites independentes de resenha musical – ProgArchives, Rateyourmusic, etc. – chegaram ao disco através das tags no Bandcamp, plataforma digital na qual Holoceno fora lançado.
Primeiro vieram as resenhas dos usuários, depois vieram os microblogs de música, então sites independentes de renome como Treble e Heavy Blog… e só daí em diante é que críticos de música brasileiros chegaram a conhecer uma banda desconhecida da Paraíba. Daí em diante, após poucos shows com a formação nova, mas com um disco com forte reconhecimento da crítica, recebemos convite para tocar no Kool Metal Fest, em São Paulo, e pudemos apresentar nosso som a um público maior e a espalhar nosso som Brasil adentro.
Rodolfo: Ao mesmo tempo, vejo que o público brasileiro estava pronto para aquilo, só não sabia ainda [risos]. A crítica especializada brasileira, bem como os curadores e programadores, é igualmente culpada e responsável por isso. Somos muito gratos ao jornalismo musical e aos resenhistas que ainda têm a coragem de explorar novos sons.
A validação internacional foi um excelente pontapé inicial, mas a autoridade com a qual estes profissionais divulgaram nossos lançamentos e repercutiram nossos shows ajudou a manter vivo o interesse na banda.













