
No dia 5/12, celebraremos o nascimento de Ângela Ro Ro, uma das vozes mais singulares da nossa música. Em 2025, perdemos a artista por complicações decorrentes de uma infecção pulmonar, aos 75 anos, mas a obra da carioca já virou legado. Cantora, compositora, pianista, cronista das paixões e das feridas, Angela fez de sua arte um território de irreverência e romantismo exacerbado, herdeira direta de cantoras igualmente intensas como Maysa ou Elis Regina. Ritmicamente, transitou entre o bolero e o piano jazz, entre o rock e o samba-canção, sempre com talento e versatilidade.
Sua trajetória musical começa nos anos 70, quando, ainda muito jovem, circulava entre nomes influentes da cultura brasileira pelas noites de boemia carioca: conheceu Djavan e Emílio Santiago quando era presença assídua nas apresentações dos cantores — que, até então, ganhavam a vida como crooners. Durante uma temporada em Londres, conheceu Glauber Rocha. Na mesma época, estampou a ficha técnica do icônico álbum Transa (1972), de Caetano Veloso, tocando gaita. No fim da mesma década, consolida a própria carreira solo no álbum que leva seu nome, lançado em 1979. O disco se tornou símbolo cult e segue redescoberto por novas gerações.
Nos anos 1980, alcançou o auge do sucesso popular, com músicas nas rádios e em trilhas de novelas. Assumidamente lésbica, tornou-se conhecida por posicionamentos corajosos — e, por vezes, polêmicos — que frequentemente estampavam manchetes. Ainda assim, sua imagem se consolidou como a de uma artista que cantava o amor e a sexualidade a partir de um ponto de vista feminino.
Ao longo dos anos, a obra de Angela Ro Ro foi resgatada por artistas mais jovens e de diferentes estilos, reforçando o alcance de sua música. Seu maior sucesso, “Amor, Meu Grande Amor”, ganhou fôlego com uma versão do Barão Vermelho, presente no Álbum, de 1996.
Em 2013 foi a vez do tributo Coitadinha Bem Feito lançado em vinil. Artistas de uma nova geração, como Otto, Kiko Dinucci, Tata Aeroplano e Helio Flanders, regravaram canções de sua autoria, demonstrando a influência e o respeito de gerações posteriores à dela.
Para homenagear todo esse legado, selecionamos cinco capas icônicas da discografia da carioca, aquelas que também resumem a trajetória musical da cantora. Confira abaixo:
Angela Ro Ro (1979)
A capa da PolyGram, que mostra o rosto da cantora em destaque, com um sorriso discreto, virou marca registrada de sua obra. Para muitos, é a primeira imagem que vem à cabeça quando se pensa nela.
Sonoramente, o álbum já apontava para uma artista diferenciada: misturando blues e samba-canção sob um piano jazzístico, o disco apresentava confissões amorosas e uma interpretação que oscilava entre o sussurro e o rompante emocional. Nele, Ro Ro também se afirmava como uma compositora de mão cheia. Canções como “Balada da Arrasada” e “Amor, Meu Grande Amor” delimitavam o terreno afetivo-romântico em que ela reinaria. O clima noturno do disco, que variava entre a intensidade e a melancolia, é permeado por arranjos mais intimistas, coordenados por Antonio Adolfo.
Só Nos Resta Viver (1980)
Usando um conjuntinho preto brilhante, posando sorridente segurando um cigarro em uma mão e um gato siamês na outra, esta capa mostra uma Angela Ro Ro ainda mais segura de si, ao mesmo tempo em que parece traduzir a personalidade da artista.
No álbum lançado pela Polygram e produção de João Augusto, Ro Ro aprofunda seu universo particular, agora com ainda mais dramaticidade e um pulso rítmico que acena ao blues. A melancolia com toques de "sofrência" segue a toada musical de Angela, com arranjos orquestrados, menos minimalistas que sua estreia.
Em "Preciso Tanto!!!" (escrita assim mesmo, com três exclamações), a cantora mostra toda sua personalidade forte e irreverência como intérprete, cantando: "eu faço gostoso e com jeito, pra você não botar defeito". Outro destaque na toada dessa irreverência fica com “Meu Mal é a Birita”. Já a faixa autointitulada também foi gravada por Zizi Possi, cantora com quem Angela teria um caso envolto em muita polêmica e troca de farpas na imprensa.
Escândalo! (1981)
Também produzido por Antônio Adolfo, o terceiro disco chega como uma explosão de personalidade. Com arranjos vibrantes, Ro Ro assume de vez o papel de diva apaixonada e imbatível. O álbum é, como o título sugere, um manifesto estético: na capa, que simula uma capa de jornal, ela brinca com a própria imagem midiática, dando o tom da sua irreverência característica.
Aqui, os arranjos ganham corpo, o piano aparece sob camadas de guitarras e sopros. Ela também é acompanhada por uma banda de primeira - em "Perdoai-os Pai", canção que abre o disco, vibram o piano de Adolfo, a bateria de Mamão, o baixo de Jorjão (que tocou com Ney Matogrosso) e a percussão de Peninha.
"Na Cama" mostra a pegada sensual que também seria associada à imagem de Ro Ro. Destaque também para "Coitadinha, Bem Feito", que virou título de um disco em que uma nova geração interpreta suas canções. Já a faixa de mesmo nome é uma composição de Caetano Veloso, que ganhou ainda mais dramaticidade na voz da cantora.
Simples Carinho (1982)
Este tornou-se outro clássico na discografia, contando com colaboradores estelares, como Roberto Menescal. A faixa-título virou sucesso ao integrar a trilha sonora da novela Final Feliz. Já a capa reflete o tom íntimo do disco, mostrando uma Angela Ro Ro sem grandes produções, nadando acompanhada por uma arara.
O álbum mostra uma cantora ainda mais amadurecida musicalmente, repetindo a parceria na produção com Antônio Adolfo. O disco inclui uma versão de "Demais", sucesso na voz de Maysa, que cai como uma luva no repertório de Ro Ro. Poucas carregaram naturalmente o legado de Maysa como cantora romântica de voz grave e interpretação intensa. Soa como um passar natural de bastão.
Ao Vivo - Nosso Amor ao Armagedon (1993)
Neste primeiro de três registros ao vivo — desta vez, pela Som Livre — Angela Ro Ro é pura intensidade. Numa gravação em casa (no Jazzmania, reduto da noite carioca), ela desnudava ainda mais sua arte numa performance entregue e carismática, sempre em contato com a plateia. A faixa-título é uma das quatro inéditas do disco. Entre as versões — sendo a maioria delas de Chico Barque — o destaque vai para “Ne Me Quitte Pas”, de Jacques Brel e sucesso na voz de Edith Piaf, outro hino da intensidade romântica que casa bem com a voz de Ro Ro.
A capa curiosa dá destaque para os contornos faciais da cantora, com o olho e a boca, recortados sob um fundo branco. Desta vez, a produção foi assinada pela própria, em parceria com Ezequiel Neves.







