Zudizilla e Don L @mialbuquerquefoto-274

Don L e Zudizilla discutem a identidade regional no rap brasileiro


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Michele Albuquerque/Divulgação

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Acompanhamos a gravação da temporada do programa Por Acaso, comandado por Zé Maurício Machline, no qual os convidados apresentam suas músicas em meio ao bate-papo. As gravações dos seis episódios aconteceram no Teatro Iguatemi em agosto, e receberam nomes como Zudizilla e Don L. Aproveitamos a oportunidade para trocar ideia com os rappers. Leia a seguir:

Don L e Zudizilla encerraram a mais recente temporada do programa de entrevistas Por Acaso, comandado por Zé Mauricio Machline, idealizador do Prêmio da Música Brasileira. Pela primeira vez em décadas, a atração teve como convidados dois nomes do mesmo estilo musical: o rap. Zé Maurício, que apresenta o programa  há 35 anos, conta que o projeto é muito importante por promover encontros entre artistas de todos os tipos e todas as vertentes da música brasileira. “Eu acho que a gente leva para frente um legado de uma história importante de quem faz música, poesia e cultura no país.”

O apresentador, que gosta de pensar em duplas que não sejam óbvias para o programa, explica que, apesar dos dois serem representantes do mesmo estilo musical, o que motivou o convite para estarem juntos na atração foi a “excelência na história do rap brasileiro. Nada melhor que eles, com essa representatividade e importância nesse estilo musical tão significativo para o Brasil.”

O encontro de dois extremos em São Paulo

Atualmente, Don L está trabalhando em seu 4°  disco de estúdio, o badalado Vapor Caro II (2025), enquanto Zudizill, se prepara para lançar o sucessor de Le Fauve (2024). Amigos de longa data, A dupla já colaborou uma vez, na faixa “Tempo Ruim”, que integra o álbum Zulu: Quarta Parede, Vol. 3 (2023), do rapper gaúcho, apesar de terem se sonhecido muito antes de fazerem a música juntos.

Os dois vieram de extremos do país, e hoje se encontram na capital paulista. Apesar de ter nascido em Brasília, Don L se mudou ainda na infância para Fortaleza, onde começou a trajetória na música com o grupo Costa a Costa. Do outro lado do país, Zudizilla saiu de Pelotas para realizar o sonho de viver de música. Ambos residem em São Paulo hoje e contam como a lógica mercadológica os trouxe para a capital paulista.

“São Paulo é o centro financeiro do país, tem muitos imigrantes e a população é muito grande, então acaba tornando essa cidade muito prolífica de eventos culturais, de oportunidades na cultura, não só na música, mas na cultura como um todo,” explica Don L. 

“Principalmente vindo de fora do centro, que é o meu caso e caso do Zudi, cada um de um extremo, Ceará e Rio Grande do Sul, a gente, às vezes precisa disso, não é como se fosse uma opção.”

O gaúcho, por sua vez, vê uma vantagem no fato de, no caso, deles, a música chegar antes do artista, o que torna a mensagem que eles passam quase universal. “Isso faz com que a gente tenha que alterar quase nada daquilo que a gente é”, diz Zudi. “Mas, se parar para perceber o que a gente canta, fala, as gírias que trazemos, poderíamos muito bem cantar no nosso lugar”, conta. Segundo o artista, é o movimento natural do mercado da música que acaba levando muitos artistas para a capital paulista. “A gente faz esse movimento de mudança pra cá [SP] para ter mais oportunidades mesmo. ,O músico reconhece, no entanto, que a metrópole é um lugar onde o hip-hop floresce. 

“Em São Paulo, qualquer esquina tem um MC, tembatalha. Então a cena cultural também proporciona um lugar de conhecimento para a gente.”

“São Paulo é um lugar onde o mundo inteiro se encontra,” completa Don L. “Na minha equipe tem gente de outros estados e eu acabo conhecendo gente de todo lugar aqui, faz parte do meu círculo de amizades.”

A distância dos lugares onde cresceram, por outro lado, é somente geográfica. Basta ouvir as canções dos dois artistas para entender as influências que trazem em suas rimas. “O meu som sempre foi a minha vivência em Fortal,” diz o cearense. “Eu sempre brinco que tem as imagens, tem a sonoridade e tem o cheiro do meu lugar.”

“O fato de estar aqui em São Paulo há tanto tempo e as pessoas ainda falarem da minha música lá em Fortal e essa ser ainda a cidade onde eu aglomero mais quantidade de fãs, é muito gratificante. Eu faço primeiro para a minha rapaziada.”

O músico relembra ainda um lema seguido por ele e os companheiros do Costa a Costa: “A gente começa pela nossa rua, depois nosso bairro, nossa cidade, depois nossa região e depois o país.”

Já Zudizilla entende que o lugar de onde parte a narrativa do rap atravessa a todos, mas “alguns detalhes mudam de região para região.” O artista concorda que e importante manter fiel às origens e, para ele, isso é o que conecta pessoas de lugares tão diferentes. 

“Quanto mais honesto tu for à tua rua, mais as pessoas de diferentes lugares vão se identificar.”

O gaúcho chama atenção para o fato dos dois terem se formado como artistas num período de globalização intensa. “A gente vem de uma época do rap onde cada região tinha sua especificidade. Era impossível eu, de Pelotas, rimar como o Don L.”

“Cada lugar exaltava sua regionalidade, sua localidade, suas gírias, sua forma de ser. E eu vejo que hoje, muito disso se perdeu por uma massificação do rap. Uma pessoa lá do Rio Grande do Sul às vezes faz um som muito parecido com alguém de São Paulo e eu acho isso um pouco estranho — não num juízo de caráter — mas eu fico pensando o quanto essa pessoa está deixando para trás de si mesmo, da sua individualidade para parecer alguma coisa que embarque numa onda e consiga chegar em algum lugar.”

Mais colaborações?

Será que vem mais feats juntos? Zudi nos contou que a demora para colaborarem juntos aconteceu porque ele se sentia intimidado pelo respeito que o colega tem pela cultura hip-hop. “Ele respeita muito a lírica porque ama essa parada e isso é muito massa. É algo que dentro da nossa comunidade do hip-hop, a gente valoriza muito, Eu demorei muito tempo para ter coragem de dizer: ‘vamos fazer um som’.”

Don L elogia o amigo, que conheceu ainda na época em que ele morava no Sul do país e que, desde aquela época, faz um trabalho “muito à frente e que os moleques estão começando a fazer agora,” e declarou que está sempre disposto a trabalhar com o gaúcho.

Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Michele Albuquerque/Divulgação

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