dobra discos (banner)

Driblando o algoritmo: conheça selos musicais comandados por mulheres


Por:

Vitória Prates

Fotos: Divulgação

COMPARTILHE:

Durante décadas, o mercado da música foi desenhado por homens — das gravadoras às mesas de som, dos contratos às decisões artísticas. Hoje, um grupo crescente de mulheres tem tensionado essa estrutura por dentro, comandando selos e gravadoras.

À frente da Dobra Discos, Cavaca Records, Toca Discos e Taquetá Records, Julianna Sá, Yasmin Kalaf, Constança Scofield, Priscila de Sá e Niela Moura, respectivamente, não falam apenas sobre representatividade, mas de permanência, sustentabilidade e transformação estrutural.

Se há algo que atravessa todas as conversas é a percepção de que o machismo na música não é explícito, mas, muitas vezes, sutil e cotidiano. Julianna Sá exemplifica com  uma situação: depois de um mês sem resposta de um fornecedor às suas mensagens, bastou que um ex-sócio homem interviesse para que o pagamento fosse feito imediatamente.

A mesma lógica se repete no reconhecimento profissional. Mesmo com 17 anos de atuação no mercado, Julianna é constantemente confundida com produtora, enquanto parceiros homens são automaticamente associados à figura de empresário ou especialista.

“Atuamos num mercado que, além de machista, é masculino nas posturas e nas expectativas de como você deve se colocar.”

E há um ponto fundamental nesta equação. Para ela, essa estrutura impacta diretamente na continuidade dos projetos liderados por mulheres. Selos comandados por homens atravessam décadas; os de mulheres, muitas vezes, não conseguem se sustentar. Hoje, o Dobra conta com Luiza Brina, Iara Rennó, Maria Beraldo e Giovani Cidreira no catálogo. “Muitas vezes o selo é visto como hobby. Quem pode viver disso? Geralmente pessoas em condições mais abastadas — estruturalmente, homens”, comenta.

Já na Cavaca Records, a história começa de forma quase intuitiva. Yasmin Kalaf e Cainan Willy perceberam que já estavam fazendo o trabalho de um selo antes mesmo de formalizá-lo. O Cavaca já lançou Lorena Moura, eliminadorzinho, Felipe Neiva, Caco/Concha, Portugas, Astraplane, Paradas, Xoxoto e Pessoas Estranhas. 

O desejo era simples: fortalecer bandas e somar com design, comunicação e estratégia. Mas, ao longo do tempo, vieram os desafios — especialmente o de ser levada a sério. “Estamos há 8, 10 anos no mercado e ainda tem gente que acha que estamos brincando.”

Aos 30 anos, Yasmin fala abertamente sobre o tratamento diferente dado a homens e mulheres em negociações e espaços de networking: “Os homens se alinham entre eles, o networking flui mais fácil.” Há também o assédio velado, as tentativas de desviar conversas profissionais para outros campos, o cumprimento que dura tempo demais.

Ainda assim, ela insiste na colaboração como resposta:

“Chega de boy band. Quero mais girl band. Quero ver meninas se divertindo no palco.”

A trajetória de Constança Scofield na música começa muito antes da criação do selo. Nos anos 1990, ela integrou a banda Penélope, um dos nomes marcantes do rock alternativo brasileiro da época. A experiência na estrada, em palcos majoritariamente dominados por homens, foi também seu primeiro contato direto com o machismo da cena musical. “Nossa presença já era nossa bandeira política”, lembra. Anos depois, ao lado de Tom Capone, Constança ajudaria a construir a Toca do Bandido, estúdio que se tornaria referência na música brasileira e que, posteriormente, daria origem ao selo Toca Discos.

Se no palco já há mais mulheres, o mesmo não pode ser dito sobre estúdios e fichas técnicas. Constança Scofield, da Toca Discos, percebeu isso ao estudar o tema depois de ser convidada pelo Women in Music, de Nova York, para falar sobre ser mulher dona de estúdio. O choque foi descobrir o quão poucas eram as mulheres nos bastidores. 

“Entendi o reflexo disso: pouca música feita por mulheres, poucas compositoras, muitas vezes assinando com homens.” Hoje, ela vê mudanças em curso, mas com ressalvas. Para Constança, o impacto completo dessa entrada feminina no mercado talvez só seja percebido no futuro. 

1

Na Taquetá Records, a proposta é estrutural desde a origem. Fundada por Niela Moura e Priscila de Sá, a gravadora nasce do desejo de criar um modelo mais equilibrado entre artista e indústria. “Queríamos um lugar onde pudéssemos trabalhar de maneira mais transparente, democrática e horizontal com os artistas”, explicam. A força da Taquetá também nasce do encontro de duas trajetórias complementares.

“Não buscamos viral, buscamos construção sustentável.”

IMG_0118

Niela cresceu dentro da música: começou ainda criança no pandeiro, passou pelo violão, teve bandas na adolescência e aprendeu na prática a gerir carreira, vender shows e organizar turnês no circuito independente. Priscila, por sua vez, é advogada e trouxe para o projeto uma estrutura jurídica e administrativa rara no mercado independente. A combinação entre experiência artística e conhecimento legal acabou se tornando um diferencial do selo. “Sucesso é viver de música com segurança financeira, saúde e qualidade de vida.”

A Taquetá opera com modelo 360, investimento direto e gestão completa de carreira. Para elas, sucesso não é número de stream, mas estabilidade. Hoje, elas trabalham com Rodrigo Alarcon e Yazi. A dupla também aponta o que chama de “cartada da diversidade” — quando mulheres são lembradas apenas em editais ou datas específicas. “Quem sobe precisa puxar outra. Não pode ser sempre ‘uma só’”, diz Priscila. 

“Quero um mercado mais plural, onde não seja preciso sorte excepcional para trabalhar com música.” 

Por:

Vitória Prates

Fotos: Divulgação

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.