“A música brasileira perdeu muito com a morte dele”, diz diretor de doc sobre Sabotage

05/03/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

05/03/2015

Doze anos depois de quatro tiros tirarem a vida de Sabotage, chega às telas o documentário Sabotage: Maestro do Canão (2015). O filme estreia hoje em cinco cidades brasileiras e conta com exibições diárias e gratuitas (veja as datas, locais e horários abaixo). Quem produziu o filme foi Denis Feijão, produtor executivo de Raul – O Início, o Fim e o Meio (2012), e a direção é de Ivan 13P, que trabalha nesse projeto desde a morte do rapper. Conversamos com o diretor do documentário sobre como foi fazer esse filme e a importância histórica de Sabotage para a música brasileira:

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Como você começou a fazer o filme?
Em 2002, eu tava fazendo um documentário que se chama Favela No Ar (2007) (assista aqui). Entrevistamos vários caras do rap de São Paulo e um deles era o Sabotage. Só que, logo depois que a gente filmou, uns seis meses depois, ele foi assassinado. Aí, a partir de 2003, eu resolvi começar a buscar informações das pessoas que tinham convivência com ele pra fazer um filme sobre ele. A partir de 2003, comecei a pegar depoimentos, mas isso eu filmei independente, sem grana, sem estrutura nenhuma. Peguei esses depoimentos de 2003 a 2007, e aí a gente deu uma parada. Não tinha grana, não tinha estrutura, resolvi dar uma parada no projeto pra ver se a gente conseguiria fazer alguma coisa mais dentro das leis de incentivo. A correria da vida acabou fazendo o projeto ficar na gaveta um tempo até que, de 2010 pra 2011, o Sabotinha, que é o filho do Sabota, me apresentou o Denis Feijão. O Feijão tinha acabado de fazer o filme do Raul Seixas, que teve a direção do Walter Carvalho, e aí eu resolvi fazer uma parceria com ele e começar o processo meio que do zero. Fizemos uma nova lista de entrevistados, não ficando limitados à galera do rap, falando também com a galera do cinema, de outros estilos musicais… De 2011 pra frente o negócio começou a realmente tomar o corpo que tomou agora. A gente inscreveu o projeto na Ancine, na Lei do Audiovisual, fomos atrás de patrocínio. Em 2013, a gente conseguiu fechar o patrocínio do Itaú, não conseguimos a grana toda, foi só metade do orçamento do filme, mas com isso já conseguimos viabilizar as entrevistas e a montagem do filme. Aí a gente montou, curtiu o resultado e tamo aí com o filme na mão.

E essas exibições gratuitas que vão rolar são por causa do patrocínio com o Itaú?
Sim, como contrapartida a gente fez um acordo com eles, que entraram com metade do orçamento do filme. Hoje em dia é muito mais difícil fazer o filme ser exibido do que fazer o filme em si. A exibição é o grande gargalo do cinema independente fora dos blockbusters. Quando a gente fez esse acordo com o Itaú Cultural, eles ofereceram as salas de cinema que eles têm em cinco cidades pra gente fazer exibições gratuitas por um mês. É uma forma de facilitar o acesso à cultura, hoje em dia ir no cinema é muito caro, é R$30, R$40… E a gente sabia que boa parte do público do Sabota… não que não tivesse a grana, mas se fosse de graça a gente ia conseguir atingir um público maior. Apesar da gente considerar o filme um produto cultural, ele também tem um viés comercial de tentar arrecadar uma grana. A família do Sabotage é sócia do filme e, de todos os sócios, eles são os que têm a maior porcentagem de divisão de lucros. E como a gente não conseguiu a grana toda de produção do filme e as exibições são gratuitas, depois a gente vai começar a fazer ações de exibição do filme pagas pra gente poder arrecadar uma grana e uma parte dela chegar na família dele. Mas a ideia da exibição gratuita já estava na conversa com o Itaú desde o começo. Eles iam entrar com o patrocínio e iam entrar também com exibições gratuitas. Pra gente que quer que o filme seja visto, é sensacional ser aberto ao público. Tem até umas pessoas que criticam: “ah, mas onde o filme vai passar é tudo lugar de classe média e classe alta”. Mas o filme tá sendo passado de graça, né cara. É difícil a gente encontrar na periferia um cinema com uma estrutura que consiga passar o filme com qualidade. A ideia de levar o filme pra essas salas é justamente fazer de graça pra que as pessoas da periferia consigam ir lá assistir também.


Pra ti, qual é a importância, o diferencial, que o Sabotage teve no rap brasileiro?
Cara, a importância dele eu não limitaria ao rap. No rap ele ultrapassou barreiras, foi um cara corajoso, fazia misturas. Mas hoje a gente percebe a importância dele pra música brasileira em geral. A gente vê pessoas como o João Gordo e o Andreas Kisser que têm essa admiração por ele. Ele fez participação com o Sepultura, com Charlie Brown Jr., foi um cara que transcendeu esse lance de ser só do rap. Eu diria que a música brasileira perdeu muito com a morte dele. Se ele estivesse vivo com certeza faria música com vários artistas de outros estilos. E ficaria muito legal porque ele era muito autêntico. O diferencial dele acho que era esse, sair da mesmice, não fazer só o que todo mundo falava que era o correto de fazer. Não ter medo de experimentar, né. Porra, a própria trilha de O Invasor (2001) ele gravou um drum and bass, que é “Aracnídeo”, e a rima dele encaixou perfeita. Tem aquela outra música, “Cabeça de Nego”, que é como se fosse um samba, uma coisa mais cantada, menos falada. Ele ultrapassou as barreiras mesmo, a falta que ele faz não é só pro rap, é pra música brasileira em geral. É difícil imaginar o que ele estaria fazendo se estivesse vivo porque ele sempre surpreendia todo mundo, né bicho. Qualquer coisa que você imaginar que ele estivesse fazendo eu acho que ele estaria surpreendendo ainda mais. Boto fé que ele era um cara iluminado, ele tinha um carisma muito grande. Defendia a periferia como poucos, mas se misturava também com outros estilos e outras pessoas sem preconceito. Eu acho que ele tinha esse viés bem eclético, acho que esse era o grande diferencial mesmo.



E a morte dele, como você abordou isso no filme?
Cara, eu, como diretor, desde o começo da pesquisa preferi não entrar em muitos detalhes sobre a morte. O filme não desvenda a morte dele até porque são assuntos policiais, né cara. Pra mim, a ideia do filme é fazer uma homenagem e um relato da vida artística dele. Ele é uma pessoa tão admirada não porque era um ex-traficante, mas sim porque era um músico sensacional e diferenciado. A ideia do filme foi bem essa, não foi querer desvendar nada. Muita gente tem essa expectativa, alguns que viram o filme falaram: “pô, eu gostaria de saber mais sobre a morte dele”. Mas não é um filme pra explicar isso, o filme conta a morte, fala como ele morreu, mas de uma maneira suave, sem entrar em polêmicas. Não é um filme investigativo, a gente não fez um filme policial pra ir atrás da verdade. Até porque são várias histórias, é difícil saber o que realmente “é”. A gente não quis deixar registrada uma coisa que não sabemos se era realmente verdade. Tanto a parte do tráfico quanto a parte da morte dele abordamos de uma forma bem sutil, focando mais no artista e na figura pública que ele se tornou pela música. Quem sou eu pra julgar a pessoa e querer desvendar isso, a polícia tá aí. Quem tiver interesse em saber da morte dele é só entrar em contato com a Delegacia de Homicídios que eles têm as informações. Não é com o filme. A ideia era justamente não entrar nessa polêmica nem dizer coisas que a gente não sabe se é verdade ou não.

Sabotage: Maestro do Canão

São Paulo

Espaço Itaú de Cinema – Sala 3 (170 lugares)
R. Augusta, 1.475 – Consolação – Centro
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 18h

Espaço Itaú de Cinema – Sala 4 (99 lugares)
R. Frei Caneca, 569, 3º piso – Consolação – Centro
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 22h

Espaço Itaú de Cinema – Sala 9 (117 lugares)
R. Turiaçu, 2.100, 3º andar – Perdizes – Oeste.
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 20h

Rio de Janeiro

Espaço Itaú de Cinema – Sala 5 (120 lugares)
Praia de Botafogo, 316
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 21h30

Brasília

Espaço Itaú de Cinema – Sala 8 (119 lugares)
ST SGCV / Número, loja 22 – Shopping Casa Park (2º Piso)
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 21h40

Porto Alegre

Espaço Itaú de Cinema – Sala 8 (95 lugares)
Rua Tulio de Rose, 80 – Bourbon Shopping Country (2º piso)
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 22h10

Curitiba

Espaço Itaú de Cinema – Sala 1 (94 lugares)
Rua Comendador Araujo, 731 – Shopping Crystal (Piso L1)
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 19h40

Salvador

Espaço Itaú de Cinema – Sala 4 (145 lugares)
Praça Castro Alves, s/ número
Data: 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11/03
Hora: 19h

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05/03/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes